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O ex-primeiro-ministro e principal arguido da Operação Marquês, José Sócrates, diz que António Costa e a cúpula do Partido Socialista lhe viraram as costas nestes três anos que têm sido “muito duros”. Em entrevista ao jornal “La Voz de Galicia”, o ex-governante reafirma estar a ser “vítima de uma conspiração”.

“Éramos amigos, apesar de tudo o que se dizia. A nossa relação sempre foi boa. Elegi-o como ministro e como meu sucessor natural. Apoiei-o na candidatura à Câmara de Lisboa e depois à secretaria geral do partido. Tudo acabou quando me detiveram e tanto ele como a cúpula do PS me viraram as costas”. É desta forma que José Sócrates, questionado pelo jornalista, descreve a evolução da sua relação com o atual primeiro-ministro.

Detido a 22 de novembro, e suspeito dos crimes de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais, José Sócrates admite que “os últimos três anos foram muito duros, embora não goste de me lamentar”.

Insiste em reclamar inocência e diz-se “vítima de uma conspiração política, para impedir uma possível candidatura à Presidência da República, e judicial sem precedentes em Portugal”. E a verdade é que já não sabe se voltará à política. “Estou muito desencantado.”

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Confiante nos advogados, mas desacreditado na justiça portuguesa, o ex-primeiro-ministro refere que a Operação Marquês se desenrola há três anos sem acusação “porque não encontram provas contra mim” e compara-se ao ex-presidente brasileiro Lula da Silva, com a diferença que “o partido dele apoia-o e a mim não”. Deixou, porém, uma palavra de agradecimento pela luta de Mário Soares em sua defesa, e pelo apoio de “muitos simpatizantes e companheiros de partido, mesmo de outros países”.

Sócrates admite recorrer ao Tribunal Europeu e nega relação com Salgado

Questionado, Sócrates admite a possibilidade de recorrer ao Tribunal Europeu caso se esgotem todos os recursos. “Se chegar a esse ponto acusarei o juiz Carlos Alexandre e a justiça pela atuação contra mim no processo e pelo dano moral que me estão a causar. Não têm o direito de me submeter a esta pressão e desgaste físico e psíquico há três anos. Estão a tentar destruir-me e separar-me da minha família mas não conseguiram, nem conseguirão”.

O ex-primeiro-ministro nega ainda qualquer ligação a Ricardo Salgado, garantindo que nunca pertenceu ao seu “círculo próximo”, nem tinha o seu número de telefone.

Tudo o que se publicou são falsidades. Não sou amigo de Ricardo Salgado”, afirmou, acrescentando que a relação que tinham era “meramente formal e fria em alguns momentos”.

E lembra até as “discrepâncias em alguns aspetos”, como aquela vivida em finais de 2010 “quando me pressionou para pedir o resgate [financeiro], o que nos distanciou ainda mais”. Sócrates aproveita ainda para deixar uma crítica à imprensa nacional, falando em “cumplicidade e relação corrupta entre a imprensa portuguesa e a justiça”.