Na Índia, onde nasceu, nem os médicos nem os enfermeiros lhe queriam tocar. Achavam que tinha uma doença contagiosa. Recusavam-se a tratá-la porque era pobre. A partir dos cinco anos, começaram a chamar-lhe “menina serpente”. Shalini Yadav tem agora 18 anos e nasceu com uma doença raríssima, que faz com que a sua pele se assemelhe à de um réptil – cai e regenera-se a cada 45 dias. Em Málaga vai agora tentar ter uma vida normal.

Quando chegou à cidade espanhola, o médico pegou nela ao colo. “Esse gesto significou muito para ela. Ajudou-a a sentir-se bem”, diz Sanjay Pandey ao ABC, o jornalista que descobriu a pequena Shalini numa aldeia do distrito de Chhatarpur, na Índia, e decidiu contar a sua história ao mundo através do site Newsline. O objetivo sempre foi o mesmo: tirá-la do sítio onde não a queriam tratar e levá-la para onde a podiam tratar. Cinco meses, 14 horas de comboio e dez horas de avião depois, Shalini chegou a Málaga.

Durante 18 anos, Shalini passou grande parte dos seus dias debaixo de água para amenizar as dores que eram produzidas pela rigidez da pele. Na sexta-feira, começou o tratamento que lhe vai retirar todas as escamas que tem. “Agora já não tenho dor”, suspira.

Segundo o diagnóstico da International Medical Academy, Shalini tem ictiose lamelar. Enrique Herrera, o coordenador da equipa que está responsável pelo tratamento, esta doença “só pode ser curada com engenharia genética”.

Sofre de uma alteração genética que codifica a pele. Produz-se uma queratinização em escamas. A pele deve permanecer hidratada, pelo que o tratamento traz consigo vários cremes para melhorar a rigidez do corpo. O objetivo é conseguir que a pele tenha um aspeto rosado e uma escamação quase impercetível em um ou dois meses”, explica o médico.

Shalini ia ficar em Espanha apenas três dias, mas a estadia foi alargada a duas semanas – a menina tem outras patologias, não só relativas à pele, e o tratamento vai ser mais extenso.

Um dos principais objetivos da equipa médica é fazer com que Shalini consiga fechar os olhos, coisa que a indiana não consegue fazer. Um cirurgião plástico vai acrescentar pele às suas pálpebras e liderar um tratamento intenso. Além disso, a rapariga tem raquitismo e problemas nas articulações, devido à rigidez da pele e à pouca mobilidade. Mas, segundo Enrique Herrera, “nada que não se resolva com medicação e alguma intervenção cirúrgica”.

A comunidade hindu de Marbella assegura todas as refeições durante o tratamento e vai contratar um professor de xadrez para Shalini, que aprendeu a jogar durante estes dias em Espanha. A Indústria Farmacéutica de Cantabria vai patrocinar toda a medicação que terá de tomar para o resto da vida. O empresário Juan Francisco Martínez, fornecedor de carne da cadeia de supermercados Mercadona, não só pagou a viagem até Málaga como vai pagar uma pensão vitalícia a Shalini.

O El Mundo propôs-se a fazer um diário de bordo sobre a estadia da Shalini em Málaga.