Quando o Manchester City quebrou um jejum de 44 anos sem Campeonatos, quatro épocas depois de Mansour bin Zayed Al Nahyan se ter tornado proprietário dos citizens, uma das principais ferramentas de comunicação ainda era aquele guia de antevisão do jogo que tínhamos por cá nos anos 90, mas que entretanto foi caindo em desuso. Essa Premier League de 2011/12 foi fabulosa, decidida no penúltimo minuto dos descontos com um golo milagroso de Sergio Agüero, transferência que tinha custado 36 milhões de euros (mais outras cláusulas de objetivos), mas só havia aquele Matchday Programme. Era um anacronismo. E contratou um ponta-de-lança do mundo digital para evoluir, como conseguiu mesmo fazer e muito por culpa do argentino que foram buscar no verão anterior ao Atlético de Madrid.

Ao contrário de outros companheiros de equipa que ainda torciam o nariz às redes sociais, Agüero era já um fervoroso utilizador do Twitter e acabou por ser uma pedra basilar numa estratégia de desenvolvimento digital concebida por Russell Stopford, que colocou num curto lapso de tempo o Manchester City no topo dos melhores conjuntos europeus nesse domínio. Em janeiro de 2014, o “cérebro” que fazia também a ligação à TV do clube saiu para a Perform Group, uma das grandes companhias do mundo digital ligadas ao desporto; em julho de 2016, regressou ao futebol e foi contratado pelo Barcelona para diretor digital do clube. Esteve lá pouco mais de um ano, antes de aceitar um milionário convite para desempenhar funções no PSG. “Outro roubo de uma estrela”, diz o Sport.

Russell Stopford foi um dos oradores no recente Soccerex, em Manchester, ainda como diretor digital do Barcelona

De forma isolada, a saída de Stopford pode não parecer nada de muito relevante, mesmo tomando em linha de conta que era o responsável por uma extensa área (mobile, web, apps, jogos ou e-commerce, entre outros) onde os catalães são líderes mundiais e que tinha acabado de apresentar um projeto de desenvolvimento (Barça Innovation Hub) que quer colocar o clube como “número um na indústria do desporto em conhecimento e inovação juntando num só espaço grandes marcas, universidades, centros de estudos, atletas, investidores e visionários”. No entanto, este é mais um passo para a barcelonização do PSG, um pouco como já tinha acontecido com o Manchester City.

Nascido em Hale, Manchester, Russell Stopford licenciou-se em Física na Universidade de Oxford (onde fundou um jornal que tinha como editora a atriz Emily Mortimer) e fez estudos complementares em Inteligência Artificial na Universidade de Edimburgo, tendo começado a trabalhar como freelancer em 1994 até fundar, dois anos depois, a Wide Multimedia. Passou por várias empresas e, desde 2011, vai já no terceiro clube de topo. O inglês marcou recentemente presença no Soccerex em Manchester, onde explicou que passa 75% do dia a criar novos produtos e conteúdos.

No caso do PSG, o objetivo passa por rentabilizar o buzz das contratações de Neymar, Dani Alves ou Mbappé (os dois primeiros também com passagem por Camp Nou) nas plataformas digitais, vistas pelos maiores clubes da Europa como a grande ferramenta de potenciação de receitas dos próximos anos. O site e uma aplicação para dispositivos móveis são os passos iniciais dessa estratégia dos parisienses, que têm ainda Maxwell, ex-jogador e atual braço de direito de Nasser Al-Khelaïfi que esteve envolvido na contratação de Kays Ruíz, prodígio de 15 anos que passou pelo Barcelona antes do castigo aplicado pela UEFA ao clube por aliciamento de jovens.