O Banco de Compensações Internacionais (BIS), o “banco central dos bancos centrais”, avisa que as taxas de juro não podem subir muito rapidamente, sob pena de colocar em risco a recuperação em algumas das principais economias mundiais. Será uma espécie de exercício de trapézio — os responsáveis pelos bancos centrais têm pela frente a missão de fazer o desmame dos estímulos monetários tentando evitar um choque para as empresas e famílias que há vários anos vivem com juros baixíssimos nos seus créditos. Mas o desmame tem de ser feito, para evitar o risco de inflação súbita e o perigo de formação de bolhas em algumas classes de ativos. Além disso, há o perigo de uma geração inteira não saber o que é a poupança — algo que preocupa o economista-chefe do Banco Central Europeu (BCE).

Claudio Borio, economista-chefe do BIS, acautelou que os mercados financeiros e as empresas podem sofrer uma correção perigosa pelo facto de as políticas monetárias terem feito subir os preços das obrigações (baixando os respetivos juros) e das ações para níveis superiores ao valor real. Esse fator pode ter ajudado a que muitas empresas, famílias ou, mesmo, Estados, tenham continuado a acumular dívida ou, pelo menos, a não reduzir o endividamento anterior.

Para já, mesmo com a perspetiva desse desmame em blocos como os EUA e a zona euro, o clima é de tranquilidade nos mercados de dívida. “Não compreendemos totalmente os fatores que estão em jogo”, diz Claudio Borio, mas “existe uma crença entre os investidores de que os bancos centrais não irão ficar de braços cruzados caso se gerem tensões inesperadas nos mercados financeiros”.

Falando sobre o mesmo tema, numa entrevista a um jornal belga — o De Tijd –, Peter Praet, economista-chefe do BCE confirmou que na zona euro “ainda é necessário um nível considerável de estímulos”. Numa declaração que ajuda a perceber o estado do debate no BCE sobre o desmame dos estímulos monetários, Praet sublinhou que “todos concordamos que é preciso assegurar que a redução dos estímulos seja feita de forma organizada, sem choques excessivos”.

Por outro lado, Praet garantiu que caso a inflação venha a subir de forma repentina, o BCE também está preparado para agir de forma agressiva — simétrica à audácia com que respondeu à inflação baixa.

O responsável diz que as medidas que estão hoje a ser levadas a cabo são inéditas mas “temos de fazer escolhas”. Peter Praet diz-se “preocupado” com o perigo de manter as taxas de juro demasiado baixas por demasiado tempo — e o que o preocupa são as crianças.

O que me preocupa mais é o aspeto cultural. Os pais já não conseguem explicar às crianças o efeito-tempo do dinheiro. Já não podem mostrar-lhes como gastar hoje e gastar amanhã não tem o mesmo preço. Não me parece que seja algo positivo para as crianças ficarem com a impressão de que devem gastar hoje e não amanhã, porque a taxa de juro é negativa. Isto preocupa-me. Mas, lá está, precisamos de fazer escolhas”