“Mostrou que é um avançado que vai dar trabalho, pelo menos aos defesas que vão ter de marcá-lo. Espero que confirme o jogador que é, bom para o Benfica, bom para ele e bom para o futebol português. Principal característica? Acho que remata bastante forte”, dizia o central Edmundo. “Futuro número 9? Espero que não, tem a palavra o treinador e temos nós. Mas não tenho preferência especial por camisolas, desde que seja no onze”, defendia o avançado Rui Águas. O programa ‘Remate’ da RTP acompanhou o primeiro treino de Mats Magnusson no Benfica, em 1987. Não deu nas vistas, mas levou centenas de pessoas ao campo secundário da Luz. Três décadas depois, os adeptos do clube ainda se recordam do sueco que esteve cinco anos de águia ao peito.

A 1 de setembro de 1987, o Diário de Lisboa falava num jogador sueco que “tem 24 anos, mede 1,87 metros e joga a avançado”. Conhecido do técnico Ebbe Skovdahl, ainda dos tempos em que defrontava o Bröndby em particulares quando jogava no Malmö, foi recebido por quase toda a direção no aeroporto, bem como um grupo de jovens do seu país radicados em Portugal. Ainda nesse dia, teve uma receção na residência do embaixador da Suécia no país. Tinha a complicada missão de substituir o dinamarquês Manniche, que saíra para o Copenhaga. Em 163 jogos, apontou 87 golos e foi o melhor marcador do Campeonato em 1990, ano em que foi ao Campeonato do Mundo.

Nascido em Helsingborg, Magnusson estreou-se como sénior no Malmö, onde esteve entre 1981 e 1987 à exceção de um ano em que jogou nos suíços do Servette (1985/86). Nesse ano, nem queria acreditar quando o empresário, que era o mesmo do então técnico encarnado, lhe pediu para ir a um hotel para falar com dirigentes do Benfica por telefone. Os primeiros tempos não eram fáceis: tinha ajuda dos companheiros, ia de boleia com Carlos Manuel para os treinos, mas faltava-lhe a mulher, que estava grávida e apenas uns meses depois se juntou a ele em Cascais. Silvino e Shéu foram outros dos amigos mais próximos que teve. O avançado Ricky, em entrevista ao Observador, recorda-se ainda dos cafés que tomava com o sueco antes dos treinos. Deixou boas recordações, é certo.

Nos cinco anos em que jogou na Catedral, como tratava o antigo Estádio da Luz, ganhou dois Campeonatos e uma Supertaça, tendo ainda marcado presença em duas finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus, perdidas frente ao PSV (1988) e ao AC Milan (1990), jogo que recorda ainda pelo facto de Marco Van Basten lhe ter pedido para trocar de camisola (algo que o sueco costumava fazer nos jogos grandes mas sempre por iniciativa, ao contrário do que aconteceu nesse dia). Saiu em 1992, com a mesma grandeza e humildade com que chegara: ofereceu, em conjunto com o compatriota Jonas Thern, um almoço a todos os companheiros de equipa para se despedir.

“Já sei como é – quando chegar à Suécia vou sentir muitas saudades de todos mas pronto, a vida é assim mesmo. O meu sonho era ficar no Benfica mas em Dezembro cá estarei para passar alguns dias de férias. Já sou mais português do que sueco e, se não tivesse família no meu país, não tenho dúvidas de que ficaria em Portugal”, disse ao jornal A Bola, há 25 anos

A equipa do Benfica que começou a final da Taça dos Campeões Europeus com o PSV e que tinha Magnusson, Mozer, Dito, Rui Águas, Silvino, Álvaro Magalhães (em cima), Shéu, Chiquinho Carlos, Veloso, Elzo e Pacheco

Ainda fez mais dois anos no Helsingborg, tendo contribuído diretamente para os primeiros passos de Henrik Larsson, avançado sueco nascido também na sua cidade e que passaria depois por Feyenoord, Celtic, Barcelona (onde se sagrou campeão europeu) e Manchester United (ganhou uma Premier League).

No entanto, a vida pós-carreira não foi fácil: na biografia ‘O regresso do Inferno’, o escandinavo assume os problemas com o álcool que fizeram com que perdesse todo o dinheiro, a família e a casa. “O livro conta como foi toda essa viagem que fez durante dez anos para deixar o álcool, ficar sóbrio e pagar todas as dívidas que foi acumulando, aprendendo a viver sem ser uma estrela”, explicou Marcus Birro, que escreveu o livro com o ex-jogador. “Espero que compreendam o quão mal esteve, que tenham outro lado do grande jogador que foi mas que dê também esperança a pessoas que sofrem para vencer o jogo mais importante das suas vidas”.

“O pior de tudo foi o que fiz aos meus filhos. Terem-me visto bêbado é a minha maior vergonha. Nunca me vou esquecer o dia em que fui ver um jogo de hóquei do meu filho mais velho. Puxou-me para o lado e disse-me: ‘Pai, a partir de agora não quero que venhas aqui depois de te embebedares (…) Era capaz de beber uma garrafa de whisky num golo. Escondia-me de todos para poder beber às escondidas o que quer que fosse, desde que tivesse álcool”, assume o antigo avançado no jornal sueco Expressen

Os problemas foram-se adensando e Magnusson assumiu mesmo que, no jogo contra a pobreza que fez contra os amigos de Zidade na Luz em 2010, estava alcoolizado. “Comecei a beber ainda no avião para Lisboa. É terrível pensar nesse jogo porque foi demasiado, a primeira coisa que fiz quando entrei foi cair”, recorda. A certa altura, o sueco ficou mesmo sem casa e esteve dois anos a dormir nas instalações do Hogaborg BK, onde trabalhava, achando que ninguém se apercebia (quando todos sabiam mas não queriam comentar com o próprio).

Um dia, um antigo jogador do Malmö com quem tinha amigos em comum ofereceu-lhe emprego e casa com a condição de ter de dar entrada num centro de reabilitação. Aceitou. Cumpriu. E “salvou-se”: “Se não tivesse tomado essa decisão não duraria muito, ter-me-ia matado”.

Hoje, Mats Magnusson, de 54 anos, está bem mais magro do que naquele jogo particular de angariação de fundos em 2010, trabalha numa empresa de equipamentos de ventilação em Malmö, continua a praticar o português em casa por estar casado com Valdenice, brasileira, e tem um filho de apenas cinco anos, Derek Benjamin da Silva Magnusson. Que gostava que um dia jogasse no Benfica. E marcasse tantos ou mais golos do que o pai.

Tenho dois sonhos: mudar-me com a minha família para Lisboa e ver o nosso filho a correr no Estádio da Luz”, destaca Mats.