A história tem cada vez mais traços de surrealismo — como surrealista foi Salvador Dalí na arte. Ninguém quer pagar o custo da exumação (e posteriores testes de ADN) aos restos mortais do pintor catalão. E, caso ninguém assuma a despesa, esta poderá ser paga pelos contribuintes espanhóis.

No dia 20 de julho, e depois de uma batalha legal que começou há quase dois anos, o caixão de Salvador Dalí (que morreu em 1989 e seria embalsamado após a morte) foi aberto. Isto depois de uma operação delicada que durou três longas horas e na qual foi necessário remover uma laje de meia tonelada. Os especialistas do Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses de Catalunha (IMLCFC) levariam uma tíbia, um fémur, unhas e dentes do pintor. Feitos os testes, o IMLCFC declararia que a cartomante Pilar Abel, que alegava há vários anos ser a legitima herdeira do pintor, não era afinal filha deste. Agora, será necessário repetir toda a exumação para devolver ao caixão de Dalí os restos mortais que foram levados para teste.

Qualquer das operações teve e terá custos. Tal como os testes laboratoriais os tiveram. Mas quem pagará? Segundo o Ministério Público espanhol, Pilar deverá suportar a despesa com os testes e a Fundação Gala-Dalí a da exumação. Até aqui tudo bem. O El Español avança que o preço da exumação pode ter ultrapassado os 20.000 euros. Quanto ao preço dos testes de ADN, terá ficado pelo 3.000 ou pouco menos, adianta o mesmo jornal.

O problema é que nem a Fundação Gala-Dalí quer pagar a exumação, nem a filha-que-afinal-não-o-era tem como pagar os testes de ADN. A mulher de 61 anos declarou-se insolvente há dois anos (não tendo sequer como pagar a um advogado para a defender em tribunal) quando fez entrar na justiça espanhola um pedido para ser reconhecida como filha de Salvador Dalí.

A sentença só será tornada pública nos próximos dez dias ou, no pior dos cenários, daqui por um mês. A Fundação Gala-Dalí vê na decisão de exumar os restos mortais de Dalí algo “desproporcional, injustificado e totalmente inadequado”. Caso a Fundação seja chamada a pagar o preço da exumação, recorrerá para o Supremo Tribunal. E caso o Supremo Tribunal declare a decisão de exumar o corpo um “erro judicial”, a despesa terá que ser suportada pelo Ministério da Justiça. Ou seja, pelos contribuintes espanhóis. Pilar Abel, essa, não ganhou um pai… mas também não perdeu nada com isso.