O L’Équipe tinha resumido tudo na sua manchete de ontem: “Um êxito demasiado caro”. Bastaram alguns segundos de dois lances na receção do PSG ao Lyon para eclodir o primeiro grande problema no balneário dos parisienses, entre as duas maiores estrelas da constelação: Neymar e Cavani. Mas, afinal, a novela não acabou em campo: como conta esta terça-feira o diário francês, os dois avançados quase chegaram a vias de facto no balneário, algo que apenas não aconteceu porque os companheiros se colocaram entre ambos.

O uruguaio, grande figura da equipa até à chegada do brasileiro, ainda concedeu uma entrevista aos meios do seu país relativizando a questão e destacando que “não há qualquer problema” entre ambos. “Estas coisas são inventadas e não percebo porquê. Aquilo que aconteceu é normal no futebol, isto acontece. Soube do que falaram pelo meu irmão, que não deixo ninguém marcar os penáltis. A verdade é que não tenho problemas com ele. Como disse desde que chegou, estamos a tentar que se adapte rapidamente e vê-se que tem corrido bem”, salientou, mais ou menos na mesma altura em que Neymar o deixava de seguir no Instagram.

No entanto, esse cachimbo da paz evaporou-se num instante. E existem razões para isso. Mais do que uma.

Razão 1: uma questão financeira. Edison Cavani terá uma cláusula de um milhão de euros caso seja o melhor marcador da Ligue 1, como sucedeu no ano passado. Assim, e tendo em conta não só a veia goleadora de Neymar, mas também o bom momento de Falcao (leva nove golos nos primeiros seis jogos pelo Mónaco), o uruguaio quererá manter o estatuto de marcador oficial de penáltis – que até falhou, na receção ao Lyon.

Razão 2: uma questão de egos. Aos poucos, Neymar quer “tomar conta” do balneário do PSG, por forma a poder competir pelo prémio de melhor do mundo com os mesmos argumentos de Cristiano Ronaldo e Messi, os donos da bola no Real Madrid e no Barcelona, respetivamente. E tem o apoio intrínseco da ala brasileira na equipa, com um peso brutal através de Thiago Silva, Dani Alves, Marquinhos e Lucas Moura, secundados por Thiago Motta.

Razão 3: uma questão de liderança. Unai Emery está a dar abertura aos seus principais jogadores em campo, mas já se percebeu que terá de definir posições para pelo menos aliviar o ambiente de tensão no balneário. “Pode haver ali algo de artificial na forma como este PSG foi construído, mas as tensões que se geram não são diferentes daquelas que existem noutros balneários. A solução é muito simples e todos os jogadores sabem: nunca vão triunfar individualmente se a equipa não funcionar”, destacou Vicente del Bosque, ex-campeão europeu e mundial pelo Real Madrid e pela Espanha, ao El País. “O treinador é o primeiro responsável por acabar com o egoísmo dos atletas.”

Certo é que bastaram dois episódios esporádicos num jogo e uma notícia sobre o que se passou a seguir para haver um autêntico turbilhão no reino do PSG. Com vozes críticas à atuação de Neymar (Dugarry e Giresse), com defensores da venda de Cavani no próximo mercado de janeiro entre os quais, de acordo com o Sport, o próprio brasileiro. E com a inevitável intervenção de Antero Henrique, o diretor desportivo que vai reunir com Unai Emery e, segundo o Le Parisien, propor… que cada um marque um penálti à vez.

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