A frase feita

“Vocês já sonham com o PSD” (André Ventura)

Quando fala, André Ventura repete os tiques, as tácticas e os truques de todos os candidatos “anti-sistema”: levanta a voz, como se estivesse a tentar ser ouvido no meio de um concerto de heavy metal; interrompe constantemente os adversários, como se escutar as outras pessoas fosse uma cobardia e não uma gentileza; e diz frases escandalosas, como se estivesse numa edição do “Big Brother”.

O que realmente surpreende é a reacção dos adversários. Com o absurdo argumento de que não pretendem descer ao nível dele, ouvem, aguentam, suspiram – e deixam-no comportar-se como entende.

É um erro. No debate na Antena 1 com os candidatos a Loures, André Ventura deu o seu espectáculo habitual de interrupções e provocações. Ou seja, comportou-se como um bully no recreio da escola. Toda a gente sabe que um bully não se suporta – enfrenta-se. Fazer de conta que ele não está lá costuma dar mau resultado. Como, possivelmente, se verá no dia 1 de Outubro.

A frase desfeita

“[Assunção Cristas] está a usar a candidatura de Lisboa para promover a sua imagem” (Fernando Medina)

Fernando Medina acusou Assunção Cristas de ter um plano terrível: concorre em Lisboa, ganha notoriedade com a campanha, fica uns meses como vereadora e, nas próximas legislativas, troca a câmara pelo Governo.

De facto, é inaceitável. Se um político é eleito para um mandato, deve cumpri-lo até ao fim; se um político pede votos para trabalhar por Lisboa, deve honrar o seu compromisso; se um político pede a confiança do eleitorado, deve merecê-la.

Mas (há sempre um mas), como Fernando Medina é um político de princípios, presume-se que aplique o mesmíssimo rigor ético a toda a gente. Vamos pegar num caso hipotético. Se um político socialista concorresse a presidente da câmara de Lisboa, ganhasse notoriedade com a vitória, ficasse um tempo no município e depois abandonasse a cidade antes do fim do mandato para concorrer a primeiro-ministro, Medina acharia isso reprovável? E se, continuando num caso hipotético, o próprio Medina fosse o n.º 2 desse político, levaria o repúdio por essa manobra ao ponto de recusar herdar o município e substituir o presidente de câmara que preferiu ser primeiro-ministro? São só perguntas retóricas, não vale a pena responder.

Mas, apesar disso, Medina quis mesmo responder. Ao Observador, disse o seguinte: “António Costa foi eleito três vezes e saiu pouco antes de cumprir o último mandato, que a lei não lhe permitiria renovar, não há qualquer comparação”. Talvez não seja ocioso lembrar o caso de Rui Rio: cumpriu os três mandatos como presidente da câmara do Porto ri-go-ro-sa-men-te até ao fim e, como “a lei não lhe permitiria renovar” a permanência no cargo e o emprego de primeiro-ministro não estava disponível na altura, foi procurar trabalho no sector privado. Aqui, sim, “não há qualquer comparação”.

A frase perfeita

“Fico absolutamente chocada com o silêncio das autarquias durante anos e anos enquanto as suas populações viam ser degradados os serviços que lhes dão apoio“ [Catarina Martins]

Catarina Martins é tão pura, tão pura, mas tão pura, que às vezes tropeça na própria virtude. Com a autosuficiência que caracteriza os dirigentes do Bloco de Esquerda, divide o mundo em duas partes que não comunicam entre si: de um lado, o BE, que só faz o Bem (com maiúscula); do outro lado, todos os outros, que só praticam o Mal (também com maiúscula).

Acertada esta premissa, o pensamento passa a fluir de forma inquietantemente simples, como se vê no caso em cima: como o BE não tem nenhuma autarquia, então todas as autarquias são modelos de vício (ou, no caso concreto, lacaias do poder, serventuárias da troika e traidoras do povo).

Jerónimo de Sousa já explicou o que havia a explicar, recorrendo (como seria de esperar) a uma fábula popular: “Eles têm um pouco a síndrome da raposa, que vê um cacho de uvas, salta três vezes e não as apanha. Então, vira-se de costas, de forma desdenhosa, e diz: estão verdes, não prestam’”. Talvez seja uma forma excessivamente colorida de pôr a coisa – mas serve.