A sede do PSD de Alfena, no concelho de Valongo, parecia uma capela. À porta dos sociais-democratas, na quinta-feira da semana passada, alguém depôs lírios brancos. Por cima do nome e do rosto do candidato Luís Ramalho, foi colocado uma crucifixo, como se ali estivesse um defunto. Miguel Santos, deputado na Assembleia da República e líder da concelhia local do PSD, mandou retirar imediatamente “a cena de muito mau gosto”. De início, diz que não queria atribuir a ninguém a encomenda da alma do seu candidato, porque tudo foi feito na calada da noite e não há testemunhas. “Mas se me perguntarem, dentro da lógica, quem poderia tomar semelhante atitude, só posso concluir que foram os nossos adversários políticos“, acusa, sem ter sido preciso perguntar nada. E sem provas.

Os adversários políticos nem conheciam a história. José Manuel Ribeiro, candidato do PS — e presidente da câmara em exercício — mostra-se surpreendido com a história da coroa de flores e do crucifixo que o Observador lhe conta. “É a primeira vez que estou a ouvir isso”, garante. “Nós não fazemos esse tipo de campanha”, completa Paulo Ferreira, adjunto e candidato da lista do PS. “Querem diabolizar o presidente da câmara”, conclui o próprio, que respondeu às acusações do PSD e, em simultâneo, lamentou que se esteja a perder tempo a discutir “ataques pessoais que degradam a vida política” em vez de ideias. “Onde é que estão as ideias deles para o futuro do concelho? Isso é que é fundamental. Não sou eu que tenho de me defender das acusações desses senhores, são eles que têm de provar o que dizem.”

Perante a possibilidade de os “presentes” poderem ter origem em algum rival interno do próprio PSD, Miguel Santos descarta essa hipótese, embora diga que é “um partido plural”.

A sede do PSD em Alfena acordou assim no dia 21 de setembro. © D.R.

José Manuel Ribeiro foi eleito presidente em 2013, após 19 anos de governo laranja no concelho. Vereador não executivo na Câmara Municipal de Valongo desde 1998 até 2005, foi deputado municipal até ter sido eleito presidente. É também o líder da concelhia do PS. “Ele é o promotor disto. Eu não atribuo este comportamento ao PS de Valongo, atribuo a ele. O PS de Valongo felizmente também tem muita gente boa”, sublinha Miguel Santos. Luís Ramalho concorda. “Não quero acusar ninguém, mas presumo de onde vêm [as flores e a cruz]”, comenta o candidato, que enumera também os “perfis falsos no Facebook com ataques pessoais” que lhe vão aparecendo.

As acusações do PSD vão mais longe. No passado sábado, já depois da cena do crucifixo, Passos Coelho passou por Valongo e por Alfena para apoiar Luís Ramalho. Na Festa do Brinquedo, que estava a decorrer, “eles [PS] perceberam que [coligação PSD-CDS] estávamos lá e mandaram um grupo de pessoas distribuir propaganda. Pessoas que não são aqui do concelho, não sei onde é que as vão buscar, mas são escolhidas a dedo”, diz Miguel Santos. Quando Passos Coelho chegou a Alfena, o líder do PSD de Valongo garante que viu Paulo Ferreira, adjunto de José Manuel Ribeiro e seu diretor de campanha, a chamar pessoas, a alinhá-las em frente à comitiva laranja, e a dar o sinal para que os assobios começassem. Cinco senhoras alinhadas começam a insultar o ex-primeiro-ministro “de ladrão e de filho da mãe para cima”, recorda. “Isto não foi uma reação espontânea de um militante que se emocionou. Foi tudo programado!”

Paulo Ferreira desmonta a acusação de que teria incitado algumas senhoras a vaiar e insultar o ex-primeiro-ministro. “Como diretor de campanha, a vinda de Passos Coelho só me facilita o trabalho. Eu faço todo o gosto que ele venha a Alfena e às outras freguesias do nosso concelho”, declara, referido-se à baixa popularidade do líder do PSD nacional. “O que aconteceu é que tínhamos previsto entregar balões a quem estava na Festa do Brinquedo, tal como fizemos uma semana antes na Expoval, e não abdicamos de fazer a nossa campanha por causa da vinda de Passos Coelho. Ninguém foi incitado a nada porque não precisamos disso. Mas claro que a teoria da conspiração, a vitimização, nesta fase, ajuda.

Quanto a vaias, não são uma novidade no concelho. Da última vez que houve notícia deste tipo de tensões políticas, estavam relacionadas com a luta interna do PS entre António Costa e António José Seguro. Em junho de 2014, depois de uma Comissão Nacional do PS que decorreu em Ermesinde antes da campanha para as primárias do partido, António Costa foi vaiado e insultado, com uma dezena de populares a gritarem para ir para Lisboa. O então autarca, considerou que tinha havido instrumentalização por parte da outra candidatura: “Mas é evidente que sim”, disse Costa, citado pela Lusa. O caso gerou a indignação do momento nas hostes do PS. O segurista José Manuel Ribeiro fez então um comunicado a rejeitar e a repudiar os “comportamentos indignos”, não aceitando que aconteçam, “seja quem for o alvo (…) em particular, o camarada António Costa”.

Luís Ramalho (camisa às riscas, com Miguel Santos ao lado), esteve na feira de Sobrado à mesma hora que José Manuel Ribeiro. Mas não procuraram o contacto. © Rui Oliveira / Global Imagens

Os “escândalos” dos boletins municipais

Tirando queixas de grupos musicais que não entram em festas porque não são do partido e que em contrapartida não ganham beijinhos nas arruadas dos candidatos — sim, o PSD também usa estes argumentos para atacar o presidente da câmara –, o grande caso político de Valongo foi o “escândalo” do Boletim Municipal. A menos de um mês das eleições autárquicas de 1 de outubro, vários exemplares do Boletim Municipal começaram a chegar aos lares do concelho, apesar de a data impressa ser de julho de 2017.

“Eu só recebi o meu na semana passada”, diz Miguel Santos, que reside em Valongo. Para o líder da concelhia do PSD, a data servia apenas para contornar as indicações enviadas aos municípios pela Comissão Nacional de Eleições. A candidatura PSD/CDS fez queixa e a resposta chegou esta semana: a Comissão Nacional de Eleições ordenou ao presidente da Câmara de Valongo “que se abstenha de promover a divulgação e distribuição de materiais que consubstanciem publicidade institucional proibida”, nomeadamente por “fazer referência a obras futuras”, e deliberou pela retirada de circulação do Boletim Municipal em causa, pode ler-se no documento.

O Boletim Municipal foi distribuído cerca de um mês antes das eleições, com data de julho. A CNE ordenou que a publicação fosse retirada. © Observador

Mas há “escândalos” com boletins municipais para todas as cores e não apenas da responsabilidade do PS. O PSD também gostava de os distribuir antes das eleições. Em 2013, era a CDU quem se queixava do lançamento de um boletim municipal, por parte do PSD. “A apenas três meses das eleições autárquicas, João Paulo Baltazar decidiu lançar um designado boletim municipal com recurso aos parcos meios públicos disponíveis”, lamentaram na época os comunistas.

Sobre o afamado Boletim Municipal datado de julho, “foi distribuído em agosto” e só chegou às casas dos munícipes agora em setembro, diz ao Observador o presidente da câmara de Valongo. “Tudo bem”, desvaloriza o autarca, dizendo que “não é a primeira vez que acontece um atraso”. “Tivemos o cuidado de não ter a minha fotografia na capa e era meramente informativo”, defende-se. E apesar de ter respeitado a decisão da Comissão Nacional de Eleições, discorda que o boletim tivesse ideias para o futuro, porque entende que promessas como iluminação pública 100% LED em todo o concelho até ao final do ano, como se podia ler na capa, “não são bem promessas, mas sim contratos que já estão firmados”. E repete: “A oposição não tem ideias e dedica-se a atacar o presidente da Câmara, achando que isso vale votos.”

As polémicas vêm de trás, pelo menos desde 2103. Com guerras sujas que se escondiam no anonimato dos protagonistas. Pouco antes das eleições autárquicas de há quatro anos, começou a chegar aos lares do concelho a imagem de um polvo, onde se denunciavam “tachos” de familiares e amigos do então presidente e candidato do PSD, João Paulo Baltazar, sucessor do social-democrata Fernando Melo, que governou a autarquia durante 18 anos. A imagem ficou conhecida como “O polvo à Vallis Longus”. Em 2015, Celestino Neves, deputado municipal eleito na lista de José Manuel Ribeiro, assumiu a autoria do panfleto, a mando do socialista. A confissão foi feita pelo próprio Celestino Neves no seu blogue “A Terra é o Limite”, que ainda mantém, e que dedica desde então a criticar o autarca. A relação é tensa e o deputado dissidente chamou o autarca de corrupto, atitude que lhe valeu um processo por difamação. Em fevereiro, foi condenado pelo Tribunal de Valongo a indemnizar José Manuel Ribeiro. Na semana passada, o Tribunal da Relação absolveu-o.

A campanha já tinha mostrado alguma tensão quando socialistas e comunistas discutiram em frente aos eleitores durante um encontro fortuito na Feira de Ermesinde, na passada sexta-feira. José Manuel Ribeiro cruzou-se com o candidato da CDU Adriano Ribeiro e a conversa subiu de tom, segundo o relato do Jornal de Notícias (JN). José Manuel Ribeiro começou por falar das “campanhas que às vezes entram num ataque pessoal chato”, quando o que interessa é estarem todos a conversar depois das eleições. O comunista acusou o toque: “Mas às vezes você desconversa um bocado”. Ao que o socialista respondeu: “Este é o único concelho onde a CDU odeia o PS”. E o comunista disse: “Lá porque eu não estou de acordo consigo, isso não é ódio, mas a gente já conversa na reunião que já era para ter sido ontem”. E acrescentou, segundo a descrição do JN: “Você é useiro e vezeiro a desmarcar conversas que não lhe interessam”. O presidente da câmara cessante queixar-se-ia da grande agressividade da CDU na câmara.

Contactado pelo Observador, Adriano Ribeiro explica que “nada de grave” se passou, embora se mostre desiludido com o presidente da Câmara. “Revelou ser uma pessoa provocadora, que era uma faceta da sua personalidade que eu desconhecia”, diz. “Começou a dizer que nós só temos é ódio ao PS”, recorda, quando, na sua opinião, “o único vereador intolerante foi o sr. presidente da câmara, que não aceitou uma crítica de um elemento da sua lista e espetou com ele em tribunal, tendo sido o único a pôr alguém em tribunal em quatro anos”, assinala, referido-se a Celestino Neves. Sobre coroas de flores e crucifixos, o vereador e recandidato à Câmara pela CDU mostrou-se surpreendido. E sem nada ter visto, nada quis comentar.

“Se calhar ódio foi uma palavra exagerada”

“Vou a todo o lado e toda a gente diz bem de mim. Até as pessoas dos outros partidos dizem bem de mim”, dizia José Manuel Ribeiro a uma vendedora, na feira de Sobrado, uma das freguesias de Valongo, onde esteve esta terça-feira. O PSD-CDS tinha uma ação a decorrer no mesmo dia, à mesma hora e no mesmo local que o PS. E, já agora, que o MPT. Três partidos em campanha na mesma feira, todos com a preocupação de não se cruzarem, para que não se repitam altercações como a da feira de Ermesinde. Se as bandeiras laranja dos sociais-democratas cumprimentavam os vendedores de sapatos no corredor da esquerda, as bandeiras do PS dirigiam-se para as roupas, as flores ou o café mais à direita. Em nenhum momento se cruzaram.

A acusação de ódio à CDU, em Ermesinde, “foi um pouco em contexto de uma conversa de feira”, desvaloriza ao Observador José Manuel Ribeiro. “Um dos candidatos teve uma reação pouco própria e eu disse que, ao longo do mandato, senti isso na pele, que tenho uma CDU que não gosta nada do PS, que tem até se calhar um ódio ao PS. Se calhar ódio foi uma palavra exagerada.

José Manuel Ribeiro perguntou a todos os feirantes e clientes se já sabiam em quem iam votar no domingo, enquanto distribuía canetas, t-shirts e outros brindes. © Rui Oliveira / Global Imagens

Se Miguel Santos considera que o autarca “está a tentar provocar os adversários para arranjar factos” porque terá percebido que está em risco de não vencer a eleição, José Manuel Ribeiro aponta o dedo de volta a “alguns partidos, e alguns dirigentes com grandes responsabilidades partidárias”, que têm uma tendência a “infantilizar as pessoas, achando que elas comem tudo”. Para o autarca, os eleitores “são mais inteligentes do que eles pensam” e, por isso, há que ter o cuidado de “fazer uma campanha limpa, de ideias, onde se prestam contas”.

A palavra da salvação será da população no próximo domingo. Entre coroas fúnebres, alegados boicotes, protestos organizados e discussões em feiras, há, no fim de contas, cinco candidatos na corrida por Valongo. E se o crucifixo da discórdia já estará, por esta altura, no lixo, para o dia 1 José Manuel Ribeiro (PS), Luís Ramalho (PSD/CDS-PP), Adriano Ribeiro (CDU), Nuno Monteiro (Bloco de Esquerda) e António Machado (MPT) desejam todos que lhes apareça uma cruz no boletim.