O realizador que aprendeu com Ruy Guerra e Jean-Luc Godard e que foi além do cinema-propaganda instituído em Moçambique a seguir à independência, afirma ainda hoje que não se considera “de maneira nenhuma” um cineasta engajado. Licínio Azevedo, de 66 anos, brasileiro de Porto Alegre e moçambicano adotivo há quatro décadas, entende que a ideologia política no cinema “não tem interesse nenhum”. “Gosto é de histórias de pessoas, histórias de amor. Mas não tenho culpa de que todas as histórias sejam políticas”.

A observação vem a propósito do novo filme, “Comboio de Sal e Açúcar”, que se estreou nesta quinta-feira em Portugal. É uma história de amor e guerra, com elementos sobrenaturais e especial enfoque na condição feminina, tema caro a Licínio Azevedo, considerado um dos pais do cinema moçambicano. O filme recupera o passado recente de guerra civil – 1988, mais precisamente –, quando a pobreza obrigava sobretudo as mulheres a encontrarem expedientes para sustentar a família.

Trata-se de uma coprodução internacional, liderada pela portuguesa Ukbar Filmes, com apoios de Moçambique, França, Suíça, África do Sul e Brasil. É baseado em factos reais, a partir do romance homónimo que Licínio Azevedo publicou em 1997. Teve estreia absoluta no festival de cinema de Locarno do ano passado, fora de competição.

[trailer de “Comboio de Sal e Açúcar”]

“Comboio de Sal e Açúcar” retrata uma viagem de comboio entre Nakala (província de Nampula, norte de Moçambique) e o vizinho Malawi. O comboio transporta mercadorias e mantimentos para a zona do Niassa, mas o objetivo principal é outro: as passageiras querem ir ao Malawi trocar sal por açúcar. Os papéis principais pertencem ao ator angolano Matamba Joaquim, à moçambicana Melanie de Vales Rafael e ao brasileiro Thiago Justino.

“O comboio sempre existiu”, recorda o realizador. “Antes da guerra, era uma linha normal, depois começou a ser utilizada para este fim. Mas a viagem era difícil, o comboio não andava a mais de cinco quilómetros por hora e parava à noite, muitas vezes havia quilómetros de linha sabotada, por causa da guerra.” Daí a escolta militar, que o filme mostra, por parte de militares fiéis ao partido no poder, a Frelimo.

“Era um trajeto de cerca de 700 quilómetros que chegava a demorar três meses para percorrer. Os Caminhos-de-Ferro de Moçambique nem cobravam bilhete, porque não podiam assumir a responsabilidade. As pessoas que viajavam, iam por sua conta e risco e sabiam que o preço da viagem podia ser a própria vida”, recorda Licínio Azevedo, que depois de a guerra terminar, em 1992, chegou a fazer a mesma viagem de comboio para conversar com quem conhecia a história.

“Os passageiros eram quase todos mulheres. Em Moçambique, normalmente são as mulheres que carregam a família às costas. A mulher trabalha na machamba, lá no campo, cuida do marido e dos filhos, faz comida em casa… Moçambique tinha sido um grande produtor de cana de açúcar, mas a guerra destruiu tudo. Lembro-me bem de chegar a um café em Maputo e de avisarem logo que não havia açúcar. Como o sal vem do mar, não faltava e as mulheres lá descobriram esta maneira de sustentarem a família. Compravam sal muito barato em Nacala, que é o porto mais a norte de Moçambique, e iam neste comboio para trocarem sal por açúcar, no Malawi, um país interior, onde o sal era mais raro. Como esse dinheiro, sustentavam a família por vários meses.”

A ação situa-se em Nampula, mas a rodagem foi feita no sul, numa linha que ainda hoje liga a capital, Maputo, à Suazilândia e à África do Sul. As vias-férreas do norte estão agora recuperadas e só no sul o realizador encontrou condições para reproduzir as condições da época.

O realizador Licínio Azevedo

“O comboio que se vê no filme é dos anos 80, estava desativado, fui encontrá-lo no depósito dos Caminhos-de-Ferro, lá em Maputo, totalmente destruído”, explica Licínio Azevedo, em conversa telefónica a partir de Colónia, na Alemanha, onde está a participar num festival de cinema.

“Aqui na Alemanha, em debates sobre cinema, perguntam-me porque é que não aprofundei a dimensão política do filme. O filme é uma história de amor, um amor trágico, durante a guerra”, diz o realizador. “O que quero mostrar é o absurdo da guerra, em particular das guerras civis. A guerra civil é a pior de todas as guerras, porque são irmãos contra irmãos, sem saberem qual o motivo. Uns faziam o serviço militar obrigatório, outros eram raptados e incorporados na força que lutava contra o governo.”

Conhecido como autor de dezenas de documentários, que abandonou nos últimos em favor da ficção histórica, Licínio Azevedo rejeita o papel de pioneiro do cinema na antiga colónia portuguesa e ironiza sobre isso. “Se eu sou o pai, gostaria de saber quem é a mãe. Não sou pai, sou filho do cinema de Moçambique. Não fazia cinema quando fui viver para Moçambique. Fui para lá como jornalista e escritor em 1977, depois de ter vivido em Lisboa e em Bissau. Só depois é que me envolvi naquele processo lindíssimo da época, em que o cinema era uma prioridade do país”, conta.

Começou como jornalista e percorreu a América Latina, levado pelo espírito revolucionário de esquerda das décadas de 60 e 70. Tinha como ídolos Hemingway, Steinbeck, John dos Passos, John Reed, Gabriel García Márquez. “Eu não fazia reportagens ou entrevistas objetivas, baseava-me no Novo Jornalismo norte-americano”, recorda.

“Quando cheguei a Moçambique, o cinema era um instrumento ideológico. Por isso é que a primeira instituição cultural criada em Moçambique foi o Instituto do Cinema. Num país com mais de 90% de analfabetos, com várias línguas, o nosso primeiro presidente, o visionário Samora Machel, percebeu que o cinema poderia ser um instrumento importante para reforçar a unidade nacional e a unidade cultural do país. Mas aquela estética de imagens e voz off não me satisfazia e rompi logo com isso. Comecei a fazer filmes experimentais, até fiz filmes mudos. Nos meus documentários, as pessoas que apareciam eram, para mim, como personagens de ficção. Fui desenvolvendo uma linguagem diferente, que me agradava. Foi uma continuação do trabalho como repórter.”

Nunca deixou de escrever, mas publicou apenas dois livros até hoje, porque a escrita pede uma solidão com a qual não convive bem. “O cinema, para mim, é uma obra coletiva, gosto de estar no meia das pessoas, conviver, trabalhar com outros”, justifica.

“Grande respeito pelas mulheres” justifica que o filme aborde o machismo no período da guerra civil moçambicana

Licínio Azevedo vive em Maputo há 40 anos e mantém a pronúncia brasileira, já misturada com expressões do português moçambicano. É filho de um fazendeiro do Rio Grande do Sul que “só queria saber de corridas de cavalos”, descreve, e de uma professora que se ocupou da sua formação. É desse contexto familiar, conclui, que lhe vem o “grande respeito pelas mulheres”, razão por que lhes presta especial atenção nos filmes que faz.

Em “Comboio de Sal e Açúcar” algumas passageiras do comboio são tratadas como objetos por militares que fazem a escolta, uma realidade que Licínio Azevedo diz ter sido comum no período da guerra civil e que está hoje ultrapassada. “Os homens passavam 15 anos no meio do mato, longe da família, longe das mulheres. Mesmo os melhores tornavam-se os piores”, comenta. “Acho que agora as coisas estão muito diferentes. As mulheres têm muita força em Moçambique. É um dos países com maior percentagem de mulheres na Assembleia da República ou com influência política.”

De resto, para resumir a situação política da antiga colónia portuguesa, o realizador fala em “salários baixos, muita pobreza, muita fome”. “Diz-se que Moçambique tem futuro, fala-se do petróleo, aquilo e o outro, mas o problema é a falta de dinheiro. Há poucos ricos, muito ricos. Mas penso que a corrupção não chega a ser tão grave quanto noutros países, porque a riqueza é que cria corrupção e Moçambique continua a ser um país pobre.”

A falta de fundos públicos para cinema é um dos problemas que o cineasta tem apontado ao longo dos anos e que permanece. “Agora foi aprovada uma nova lei do cinema, no futuro talvez haja dinheiro, mas será uma coisa insignificante, certamente”, diz, acrescentado que a falta de escolas de cinema é outra das dificuldades.

“A minha geração foi formada na prática. Chamo-lhe ‘geração da resistência’, porque continuamos, 40 anos depois, contra tudo e contra todos, a fazer filmes. Mas tivemos pessoas brilhantes que nos ensinaram. Goddard, Ruy Guerra, Jean Rouch, todos eles passaram pelo Instituto do Cinema de Moçambique nos anos 70. Lembro-me do Goddard, durante quatro ou cinco horas, a discutir cinema connosco, dentro do Instituto. Esta dinâmica criativa e cultural já não existe.”