Ernesto Figueiredo, antigo avançado internacional que fez parte da célebre equipa dos Madriços no Campeonato do Mundo de 1966, é um dos ex-jogadores mais castiços que o futebol português conheceu e por cada conversa que tem salta sempre uma história que nos desperta atenção. Como esta, por exemplo: “O Sporting tinha acabado de jogar com o Benfica para a Taça de Portugal uns dias antes e, como era hábito, juntámo-nos todos para irmos almoçar. Quando chegámos ao restaurante, fiquei ao pé do Eusébio e estávamos a rir muito. Nisto vem um empregado e diz-nos: ‘Então ainda há uns dias andei à porrada no estádio por vossa culpa e agora estão aqui todos amigos?'”.

No futebol dos anos 60, ao contrário do que às vezes se parece fazer crer, também havia momentos de exaltação na bancada entre adeptos rivais no dérbi de Lisboa. As pessoas começavam a discutir, andavam ali uns instantes aos empurrões, às vezes havia ali uma ou outra chapada, ia cada um para seu lado e a coisa ficava resolvida. E continuavam sentados ao pé uns dos outros, porque não existia no glossário do futebol nacional essa coisa das ‘caixas de segurança’ e das ‘jaulas de proteção’. A partir da década de 80, o FC Porto começou a entrar também nessas contas. Depois, houve exageros. Coisas incompreensíveis. Fenómenos inexplicáveis. Esta noite, que marcava o primeiro jogo entre leões e dragões pós-pazes, recuámos de forma salutar uns 40 anos.

À chegada a Lisboa, os 22 autocarros que traziam adeptos das claques portistas pararam na Avenida Padre Cruz, bem próximo do estádio. E era ali o ponto de encontro para todos, incluindo os que vinham a pé ou em carro próprio. Junto do edifício Visconde de Alvalade, o trânsito estava cortado de um lado para a passagem do autocarro dos dragões (neste caso o que transportava os jogadores e restante staff) e de outro para guardar uma distância de segurança para adeptos adversários. E estavam ali centenas de pessoas do Sporting à espera, para irem para um ou outro lado. De repente, dois adeptos dos azuis e brancos vindos de Telheiras passaram ali ao pé. Zero problemas, zero ‘bocas’, zero comentários. Só isto era impensável num passado recente. Mas aconteceu.

A dada altura, um adepto portista que passava pelo viaduto acima da multidão começou a gritar pelo FC Porto. Foi uma provocação, claro. Mas que teve resposta à letra de quem estava cá em baixo (as palavras utilizadas não vale a pena serem reproduzidas, porque teríamos de utilizar demasiados asteriscos). E também lá em cima, junto às bombas de gasolina. Foi um ato que podia ter corrido mal e lá começou a acelerar o passo para junto dos seus. E integrou um dos grupos que iam descendo de forma faseada até Alvalade. Com cânticos, provocações e nada mais.

Lá dentro, houve escaramuças. Num primeiro foco, e sem que se conseguisse perceber o porquê, adeptos do FC Porto envolveram-se entre si e houve mesmo necessidade de intervenção de elementos das forças de segurança e stewards para serenar os ânimos (sobrou, durante mais alguns minutos, uma clareira na bancada B da zona destinada aos adeptos visitantes em Alvalade). Entraram as equipas, atingiu-se o êxtase. E, na bancada onde se concentram as claques do Sporting, o espetáculo com potes de fumo foi tal que até o cheiro chegou à zona da imprensa, lá em cima no sétimo piso da central. Parecia mesmo um dejá vu dos anos 80.

Mais tarde, no decorrer da primeira parte, novo foco de problemas, desta feita na bancada nascente junto da zona norte do estádio. Alguns (e não eram assim tão poucos) adeptos do FC Porto tinham bilhete para outro lado e não puderam seguir os cerca de 2.500 que foram para os lugares habitualmente ocupados pelos visitantes. E lá houve mais umas escaramuças, prontamente serenadas quando as forças policiais isolaram os portistas que andavam por ali até levá-los para uma outra zona onde pudessem estar mais “resguardados” junto dos seus.

Por fim, e pouco antes do apito final de Carlos Xistra, foi a vez das claques azuis e brancas abrirem o livro com petardos, tochas e potes de fumo, num último fôlego de apoio à equipa. Tudo acabou como começou, a zero. Mas tudo acabou como começou, sem problemas. É certo que, nos dias que correm, os adeptos têm de andar sempre vigiados por inúmeros elementos das forças policiais. Antigamente não era assim. Mas, cânticos, provocações e escaramuças à parte, este foi o jogo que provou que pode haver rivalidade sem os excessos a que estamos habituados. Tal e qual como na década de 60 no dérbi ou a partir dos anos 80 nos clássicos.

Agora, só falta encontrar um novo Figueiredo para nos contar mais umas histórias daqui a uns anos de como, em 2017, o Sporting-FC Porto voltou a ser como era antigamente.