Quem é responsável pela “vergonha” que ontem se viu na Catalunha? Quem é que saiu vencedor — ou será que todos os espanhóis saíram derrotados? Os editoriais dos principais jornais espanhóis criticam os “irresponsáveis” independentistas que promoveram a votação de domingo mas lamentam, também, que o chefe do Governo, Mariano Rajoy, tenha permitido que a imprensa internacional e as redes sociais se tenham enchido de imagens de uma “pretensa opressão democrática”. Por outras palavras, ao “seguir a sua típica postura de tentar que os problemas desapareçam via apodrecimento”, Rajoy acabou por fortalecer a posição dos independentistas, que nesta fase seguem uma estratégia do “quanto pior, melhor”.

Com as devidas diferenças, todos os principais jornais espanhóis lamentam as cenas de violência que marcaram o primeiro de outubro na Catalunha, um dia “vergonhoso” — escreve o El País. Um dia que nasceu da “arrogância xenófoba” e das “forças anti-sistema” que promoveram a votação e, por outro lado, um acontecimento que só atingiu estas proporções devido à “absoluta incapacidade” demonstrada por Mariano Rajoy desde o início da crise.

O El Mundo também critica a “irresponsabilidade de uma Generalitat ocupada por iluminados” (expressão utilizada jocosamente pelo jornal) e, por outro lado, a “inoperância de um Governo há muito tempo ausente”. O resultado foi “uma onda anárquica a inundar as ruas”, “exatamente o plano de Puidgemont” — sublinha o jornal espanhol.

O El Mundo não tem dúvidas de que os grandes responsáveis pelo “caos” de domingo são os “cabecilhas” de um grupo que “decidiu tomar a sua população refém de um projeto unilateral de segregação, disfarçado de desígnio patriótico”. São assim descritos homens como Carles Puigdemont, que deve ser julgado “por um tribunal e não por um editorial”.

Se o El Mundo acha que os independentistas terão ficado, secretamente, satisfeitos por ver as redes sociais e os jornais carregados de imagens de violência, o El Español defende que Puigdemont também cometeu um “grande fracasso” por ver o referendo transformar-se num “verdadeiro debacle” — ainda assim, também o El Español critica os líderes do movimento independentista de optarem por uma “estratégia de quanto pior, melhor”. Até menores foram “utilizados” pelo movimento, diz o jornal, para ajudar a comprovar que os direitos humanos estão a ser desrespeitados na Catalunha.

Rajoy defendeu que o 1-O falhou. Formalmente, tem razão. Mas a sua estratégia de esperar, primeiro, e depois enviar a polícia revelou, possivelmente, um outro falhanço. Não conseguiu evitar que imagens dramáticas tenham corrido mundo” (El Mundo)

Quanto à validade do referendo ou, melhor, falta dela, todos os jornais estão de acordo. Até o catalão La Vanguardia concorda que “não houve qualquer referendo, ontem, na Catalunha”. “Os líderes catalães nunca deveriam ter forçado o caminho do unilateralismo — já repetimos este aviso dezenas de vezes nos últimos meses”, mas o jornal lamenta que Mariano Rajoy tenha optado por demonstrar firmeza e autoridade, sem juntar a isso uma real proposta para diálogo.

O “preço a pagar” por esta gestão é elevado, diz o La Vanguardia, que lança um conjunto de propostas para sair do drama. O primeiro passo? Largar os lamentos e os ressentimentos e, sobretudo, as “palavras vazias”. “É necessário agir com rapidez e passos concretos, porque a cicatriz é enorme” — o jornal catalão defende que seja negociada uma solução de saída que possa ser votada livremente pelos cidadãos da Catalunha.

O El Mundo, por seu lado, defende o contrário, no seu editorial: “Confrontado com esta insurreição flagrante da ordem legal (…) o Governo não pode adiar a decisão de tomar medidas que permitam acabar de vez com os planos dos independentistas”, defende o El Mundo. Para combater “o crime da independência”, Mariano Rajoy deve acionar o artigo 155º da Lei da Segurança dos Cidadãos, para “preservar a lei e colocar os Mossos [a polícia catalã] sob o controlo direto do Estado central”.

Catalunha e Espanha. Manual de instruções para uma crise sem fim à vista