A multidão concentrada na avenida Lluís Companys ouviu em silêncio todo o discurso de Carles Puigdemont, líder do governo regional catalão, no parlamento. Em casa, outros tantos ou mais o escutaram também. A expectativa para o anúncio tão antecipado de uma declaração de independência tinha aumentado na hora anterior, com o adiamento do discurso de Puigdemont a provocar mais suspense.

Tudo terminou, contudo, num anticlímax. Não houve declaração unilateral de independência sem margem para dúvidas, mas sim aquilo que o eurodeputado Ramón Tremosa tinha antecipado: uma solução “à Eslovénia”, ou seja, uma declaração de independência suspensa. “Assumo o mandato do povo para que a Catalunha se transforme num Estado independente”, disse Puigdemont, para logo acrescentar que propunha ao parlamento catalão que “suspenda a declaração da independência para que nas próximas semanas se comece um diálogo para chegar a uma solução acordada.”

Na Lluís Companys, as opiniões dividiam-se. Alguns chamaram “traidor” ao líder do governo, outros gritaram “Fora!”. Mas alguns catalães pró-independência também gostaram do que ouviram, como um dos manifestantes auscultados pelo El Mundo: “É muito inteligente, passa a bola para o outro lado. Declara-a e suspende. Este é um caminho comprido e a tática é importante”, disse Marc, de 29 anos, ao jornal espanhol.

Unionistas unidos contra Puigdemont

No parlamento catalão, são estas as forças que não defendem a independência:

  • Ciudadanos (25 deputados)
  • Partido Socialista Catalão (16 deputados)
  • Partido Popular (11 deputados)
  • Catalunha, Sim Podemos (11 deputados, posição ambígua)

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A Inés Arrimadas, representante do Ciudadanos na Catalunha e líder da oposição no parlamento regional, coube fazer as honras das reações parlamentares ao discurso de Puigdemont, que classificou como “crónica de um golpe anunciado”.

A líder do Ciudadanos, partido que cresceu em parte pela sua posição clara contra o independentismo — e de força regional deu o salto para se tornar um partido nacional –, não poupou nas palavras: “Vocês são do pior nacionalismo que existe na Europa”, disse, sublinhando que os independentistas catalães representam “a divisão, a supremacia e a falta de solidariedade”. Arrimadas chegou mesmo a ressuscitar um artigo de 2008 do vice-presidente Oriol Junqueras (da Esquerda Republicana) para sustentar o seu argumento, onde este tinha escrito que “os catalães têm mais proximidade genética com os franceses do que com os espanhóis; mais com os italianos do que com os portugueses e um pouco com os suíços”.

A representante do Ciudadanos — cujo líder, Albert Rivera, tem pedido repetidamente ao Governo que aplique o artigo 155 — quis falar em nome dos catalães que rejeitam a perspetiva de uma separação de Espanha e que saíram à rua no passado domingo. Para Arrimadas, as ações do governo catalão acabaram por “despertar uma maioria silenciada” que se sente “catalã, espanhola e europeia”. O representante do Partido Popular no parlamento regional, Xavier García Albiol, foi mais longe e subiu a fasquia: “Quer que dialoguemos o quê em concreto, senhor Puigdemont? Que dialogue quando e como os catalães deixarão de ser espanhóis? Sejamos sérios”, disse.

Independentistas divididos

Que a Catalunha estava dividida entre independentistas e unionistas, já era sabido. A verdadeira surpresa da sessão parlamentar surgiu com as fraturas entre independentistas. São eles:

  • Juntos pelo Sim (coligação atualmente no governo, da qual fazem parte PDeCat, Esquerda Republicana e outros três movimentos mais pequenos, com 62 deputados)
  • CUP (10 deputados)

Logo após a chegada de Puigdemont ao parlamento, foi-se tornando cada vez mais claro que o atraso do seu anúncio se devia a desentendimentos internos entre o líder do governo, o Juntos pelo Sim (coligação a que pertence o executivo) e a CUP (partido de extrema-esquerda que sustenta o governo no parlamento). Reunidos numa sala do parlamento, os dois grupos parlamentares e Puigdemont divergiam relativamente ao texto que seria lido no hemiciclo. Em causa estaria o timing da aplicação da declaração de independência: o chefe do governo defendia uma “suspensão” para negociar, a CUP exigia uma independência “imediata”.

No braço-de-ferro, Carles Puigdemont terá saído a ganhar, já que o discurso que acabou por ler explanava a sua solução eslovena de uma declaração “suspensa”. Os deputados da CUP não aplaudiram nem se levantaram. E, chegada a sua vez de discursar, a deputada Anna Gabriel foi clara: “Hoje era a vez de proclamar a República Independente Catalã. Perdemos uma ocasião.” Apesar disso, o partido engoliu o sapo e assinou a declaração de independência “suspensa” no final da sessão.

A Candidatura de Unidade Popular, partido de extrema-esquerda independentista e anticapitalista, tem sido uma força política essencial para o sucesso do chefe da Generalitat. Não só o seu veto ao antigo líder Artur Mas serviu para ajudar Puigdemont a subir ao poder, como o seu apoio independentista (já que é a única força parlamentar a favor da separação de Espanha para além do Juntos pelo Sim) foi fulcral para o governo catalão conseguir avançar com o processo do referendo.

Mas se no parlamento a cúpula política da CUP foi mais moderada, outro dos seus braços políticos não foi tão contido. No Twitter, pouco depois do discurso de Puigdemont, a Arran (organização juvenil ligada à CUP) não teve pejo em afirmar que esta era uma “traição inadmissível”. “Não tens vergonha, Juntos pelo Sim?”, perguntou a organização, que falou em “raiva e indignação” sentidas nas ruas de Barcelona.

Inicialmente, a CUP parecia ter dado o acordo tácito à jogada de Puigdemont. Mas, pouco depois do fim da sessão parlamentar, os seus líderes fariam uma conferência de imprensa com um novo volteface: os deputados do partido faltarão de agora em diante a todas as sessões parlamentares até a independência ser efetivada. O seu porta-voz, Quim Arrufat, explica que a confiança no Juntos Pelo Sim ficou “danificada”. “Exigimos a Puigdemont que estabeleça de forma pública um limite para as negociações, propomos que seja de um mês”, declara. Até lá, o partido não participará no hemiciclo — ou seja, o governo de Puigdemont ficará completamente bloqueado até lá, já que sem os votos da CUP deixa de ter maioria parlamentar.

Cumpria-se assim a previsão feita por Jordi Cuixart (dirigente da organização independentista Òmnium Cultural) ao vice-presidente Oriol Junqueras, captada há alguns dias pelas câmaras do La Sexta: “Atenção, a CUP vai passar-se. Vocês deram um prazo de sete dias”, avisou Cuixart sobre o arrastar do processo e as tensões que isso provocava entre os independentistas.

Puigdemont tem agora apenas um mês de tolerância dado pelos seus parceiros à esquerda e o relógio está a contar. Do outro lado, o Governo espanhol não dá sinais de querer sentar-se à mesa de negociações: “Ninguém pode pretender, sem voltar à legalidade e à democracia, impor uma mediação”, disse Soraya Saénz de Santamaria, vice-presidente do Governo, na noite desta terça-feira. Puigdemont está entre a espada e a parede. “Mais tarde ou mais cedo vai haver eleições, senhor Puigdemont. Eleições a sério”, avisou Inès Arrimadas, do Ciudadanos, no parlamento. Irá esse aviso revelar-se certeiro?