“A Febre das Tulipas”

Este filme baseado num livro da romancista inglesa Deborah Moggach e passado na Holanda do século XVII, durante a chamada “Bolha das Tulipas”, que levou então muitos investidores à ruína, foi rodado em 2014 mas acabou por chegar aos cinemas só três anos depois. Realizada pelo inglês Justin Chadwick e adaptada pela própria Moggach e por Tom Stoppard, a fita conta no elenco com nomes como Alicia Vikander, Christoph Waltz, Judi Dench e Dale DeHaan, e andou a penar no limbo das aspirações frustradas aos Óscares, dos sucessivos adiamentos da estreia e do corta, cola e volta a cortar da mesa de montagem (fica tudo explicado se dissermos que o produtor se chama Harvey Weinstein). Na versão agora – e finalmente – estreada, “A Febre das Tulipas” apresenta uma recriação de época minuciosa, que contrasta com a inverosimilhança rasgada do enredo, sobretudo na caótica segunda metade do filme, reveladora do calvário de remontagens por que passou. Mais uma tabuleta no vasto cemitério das fitas mutiladas e “assassinadas” pelos seus produtores.

“A Floresta das Almas Perdidas”

Apresentada no Fantasporto, “A Floresta das Almas Perdidas” é a primeira longa-metragem do português José Pedro Lopes, rodada à revelia de apoios estatais, uma produção de género – um “thriller” de terror com sugestões fantásticas – num cinema que continua avesso aos mesmos. Algures numa floresta onde as pessoas vão para se suicidar, um pai de família (Jorge Mota) e uma jovem (Daniela Love) encontram-se, aparentemente com o mesmo propósito. Rodado a preto e branco em Portugal, Espanha e na Rússia ao longo de quatro anos, muito reminiscente do cinema fantástico japonês, em especial dos filmes de Takashi Miike, “A Floresta das Almas Perdidas” tem personalidade visual e uma ideia de cinema a guiá-lo, muita atmosfera e uma banda sonora trabalhada e vistosa de Emanuel Grácio. O que lhe falta é mais músculo narrativo. A história cabia numa curta-metragem e parece “esticada” até ao limite para justificar os 71 minutos de duração do filme. Mas tudo pesado e considerado, esperamos com interesse a próxima realização de José Pedro Lopes.

“Lumière!”

Uma compilação de 108 filmes (ou “vistas”) rodados pelos irmãos Louis e Auguste Lumiére, pioneiros do cinema, e pelos operadores do seu cinematógrafo em França e em várias partes do globo, entre 1895 e 1905, muitos já conhecidos, outros não, restaurados em 4K e seleccionados, organizados e comentados por Thierry Frémaux, Delegado-Geral do Festival de Cannes e director do “Templo Lumière”: o Institut Lumière de Lyon, que todos os anos, desde 2009, atribui o respectivo prémio. Trata-se de um registo preciosíssimo, variadíssimo, divertido, comovente e muitas vezes inesperado de uma França e de um mundo desaparecidos, imortalizados pelo cinema em toda a sua pureza (e imperfeição) inicial. Ao som de música de Saint-Saens, Frémaux ordenou estes mais de 100 filmezinhos por grandes temas (A Família, O Trabalho, Paris, etc.), contextualizando-os e comentando-os brevemente e de forma pertinente. “Lumière” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.