O Instituto Português do Mar e da Atmosfera vai lançar um alerta vermelho para os Açores a partir de sábado, apurou o Observador. E o problema não são os ventos provocados pelo furacão Ophelia, um fenómeno “raro mas não anormal” que se dirige para as ilhas portuguesas: é o encontro dele com uma superfície frontal fria que vai causar chuvas muito fortes a partir da tarde de 14 de outubro. E vai atingir todos os grupos açorianos.

De acordo com uma meteorologista do instituto meteorológico português nos Açores, o furacão Ophelia vai afetar principalmente o grupo oriental do arquipélago: esperam-se ventos na ordem dos 65 km/h em Santa Maria e São Miguel, mas rajadas de vento que podem ultrapassar os 100 km/h nestas ilhas. Mas o pior ainda está para vir, confirmou o IPMA ao Observador: é que há uma superfície frontal fria — uma massa de ar frio que avança para outra mais quente — em formação no noroeste do grupo oriental açoreanos. Quando ela se encontrar com o furacão, todo o arquipélago dos Açores vai ser afetado por chuvas muito fortes que podem causar mais danos do que o próprio furacão.

Quanto a Ophelia, o IPMA espera que o furacão passe ao largo do arquipélago dos Açores. Isso significa que as ilhas não vão ser diretamente varridas pela tempestade tropical, mas sim pelos efeitos que ela vai produzir no estado do tempo. Quando passar ao lado dos Açores, o furacão vai dissipar-se a passar a depressão tropical. É nessa condição, e não como furacão, que Ophelia vai chegar às Ilhas Britânicas. Ainda assim, as autoridades do norte da Europa deverão permanecer alerta: os ventos vão continuar fortes, as rajadas podem ser muito intensas e a precipitação vai ser elevada.

É raro que um furacão formado ao largo de Cabo Verde se dirija para cima em vez de atravessar o oceano Atlântico para chegar aos Estados Unidos, como é mais comum. No entanto, isso não é anormal, explica o IPMA ao Observador. Dados do centro de previsões de Miami, o responsável por monitorizar a região do Atlântico a que pertencem os Açores, dizem que há registo histórico de nove furacões que tenham chegado a este arquipélago português. Um deles, que ocorreu a 28 de agosto de 1893, ficou na história como a maior tempestade tropical de que há memória nos Açores. Nesse dia, um furacão de categoria 2 e com ventos na ordem dos 170 km/h atingiu o Grupo Central — a que pertencem a Terceira, a Graciosa, São Jorge, Pico e Faial — elevando tanto o nível médio da água do mar que as casas foram destruídas e as igrejas ficaram inundadas.

Mais recentemente, houve quatro furacões que, à semelhança de Ophelia, passaram ao largo dos Açores provocando alterações no estado do tempo no arquipélago. Só em 2006 houve dois: o furacão Gordon, que passou junto ao grupo central e oriental, e o furacão Helene, que afetou o grupo ocidental. Seis anos mais tarde, outro furacão batizado com o nome Gordon passou entre São Miguel e Santa Maria, provocando estragos nesta última ilha. E ainda o ano passado, a 14 de janeiro, um ciclone nascido no Mar das Caraíbas passou a sul dos Açores e deu origem ao Furacão Alex. Esta tempestade, o primeiro ciclone tropical atlântico a ocorrer em janeiro desde o Alice em 1955, obrigou o Serviço Regional de Proteção Civil e os Bombeiros dos Açores a emitir um alerta vermelho para as ilhas dos Grupos Central e Oriental.

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Para que uma tempestade desta magnitude se forme são precisas cinco coisas: uma região de pressão atmosférica mais baixa e temperatura à superfície mais alta do que nas vizinhanças a perturbar a atmosfera, que esse ciclone tropical ocorra num oceano quente em que as águas estejam a uma temperatura igual ou superior a 27 ºC, que isso aconteça numa extensão de pelo menos 50 metros de profundidade, que o ciclone tropical se mantenha durante um longo período de tempo, que os níveis de humidade sejam muito altos nas regiões mais inferiores da troposfera e que o vento sopre a baixa velocidade e sem muitas variações de intensidade e direção nas camadas mais altas da troposfera. Mas para onde vai a seguir?

Os países mais fustigados por ciclones tropicais são os Estados Unidos, a China, as Filipinas, o México, o Japão, Cuba, Austrália, Bahamas, Vietname e Madagáscar. A Europa, e em particular Portugal, não costuma ser tão fustigada por furacões quanto esses países. Tudo por causa do anticiclone dos Açores. De acordo com a Divisão de Investigação de Furacões, nas latitudes tropicais os ciclones tropicais geralmente movem-se para o oeste por causa de um eixo de alta pressão atmosférica (crista subtropical) junto ao paralelo 30º que se chama Alta dos Açores, uma espécie de muro. É por isso que os furacões raramente sobem em direção ao polo e chegam à Europa e costumam chegar até ao outro lado do Atlântico. Isso vai acontecer desta vez por causa das condições meteorológicas que se verificam na nossa região: o facto de água ainda estar muito quente e de haver muita humidade no ar serve de motor para o furacão.

Essas condições vão deixar de existir quando o furacão passar ao lado dos Açores: depois de passar Portugal, a temperatura do mar vai ser consideravelmente mais baixa, deixando de alimentar o Ophelia. O furacão vai-se dissipando gradualmente e chegará ao norte da Europa como depressão tropical que, embora muito forte, não será tão preocupante como é agora.