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Olhamos para um lado e vemos José Sócrates, olhamos para outro e tentamos perceber o Orçamento de Estado. Ainda para mais, hoje é sexta-feira 13 (se ainda não tinha reparado, também não há azar). Fazer trocadilhos entre a atualidade do país e este jogo da Taça de Portugal entre o atual líder da Primeira Liga, o FC Porto, e o sétimo classificado da Divisão de Elite da Associação de Futebol de Évora, o Lusitano, era a coisa mais simples do mundo. Mas hoje vamos falar apenas de futebol. De futebol e de andebol, vá.

Na equipa alentejana comandada por Duarte Machado, a quem chamaram durante a semana o Mourinho de Évora (por ter sido lateral direito, por ter jogado no Belenenses muitos anos e por ter passado pela pele de dirigente antes de assumir o trabalho de campo, se calhar mais valia ser o Marco Silva de Évora, mas tudo bem), o destaque foi sendo Nuno Laurentino. E por uma razão lógica: como guarda-redes, ia ser, no plano teórico, um dos jogadores com mais trabalho ao longo do encontro. Foi mesmo. Mas também não faz milagres, até porque isto não é andebol.

Nuno Laurentino, ou Tino, é o irmão mais novo de Hugo Laurentino, um dos melhores guarda-redes portugueses de andebol da atualidade e que joga no… FC Porto. E que só não é se calhar o melhor nesta altura porque Alfredo Quintana, o seu gigante companheiro cubano, tem dupla nacionalidade e porque Hugo Figueira, do rival Benfica, está num excelente momento de forma. Mas para o caso agora, pouco interessa: antes do jogo, Hugo falou com Nuno e aconselhou-o a ter calma e a fazer o seu trabalho. O caçula, que já tem 31 anos, ouviu e tentou cumprir. Mas o problema mesmo é que tinha à guarda uma baliza de futebol e não de andebol, que também jogou em miúdo mas abandonou depois de se chatear com um treinador.

Porque se dúvidas existissem, para o bem e para o mal, não há cá essas coisas das poupanças ou gestões no FC Porto, é sempre de prego a fundo. De tal forma que, quando olhávamos para o onze e percebíamos que estavam lá apenas quatro jogadores habitualmente titulares, parecia que era a equipa habitual. E esta é a parte má: de facto, e como Sérgio Conceição já assumiu, o grupo é curto. Mas, o que há, tem qualidade para jogar como opção inicial.

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Ao 11.º jogo, todos os 20 jogadores de campo do FC Porto já foram titulares. E só depois do intervalo foram lançados três miúdos da equipa B, Galeno, Luizão e Jorge Fernandes. Esse é o melhor resumo do bom e do mau dos dragões.

Ficha de jogo

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Lus. Évora-FC Porto, 0-6

3.ª eliminatória da Taça de Portugal

Estádio do Restelo, em Lisboa

Árbitro: Hélder Malheiro (Lisboa)

Lus. Évora: Nuno Laurentino; José Quito, William Barbosa, Kiko (Ricardo Bernardo, 61′), João Nobre; Ricardo Ferro, Francisco Carrega; Miguel Serrano, Jair Nunes (Francisco Roque, 87′), Bruno Machado (David Faianco, 67′) e Miguel Rosado

Suplentes não utilizados: Patrocínio, Joel, Vítor Pires e André Pira

Treinador: Duarte Machado

FC Porto: José Sá; Diogo Dalot, Diego Reyes, Marcano (Jorge Fernandes, 67′), Ricardo; André André, Óliver Torres, Otávio; Hernâni, Brahimi (Galeno, 46′) e Aboubakar (Luizão, 53′)

Suplentes não utilizados: Vaná, Rui Moreira, Fede Varela e Sérgio Oliveira

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Aboubakar (20′ e 21′), Marcano (50′), Otávio (55′), Galeno (59′) e Hernâni (90′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Nobre (62′)

Como seria de esperar, o jogo teve praticamente sentido único, a não ser uns minutitos antes do intervalo em que os alentejanos conseguiram chegar à área dos azuis e brancos duas vezes, uma até com relativo perigo. Fosse por falta de pontaria (Aboubakar, 4′), por mérito de Tino (Otávio, 8′) ou mesmo por algum azar (Marcano, 2′, quando cabeceou no sentido da baliza mas a bola bateu num defesa a caminho das redes), o FC Porto não conseguia desfazer o nulo. Mas todos percebiam que era uma questão de tempo. E chegou em dose dupla.

Aboubakar, que esta semana foi notícia por ter renovado pelos dragões (que investiram 7,2 milhões de euros nos 60% do passe que não estavam na sua posse) e que até teve dois dias extra de descanso depois de ter atuado pela sua seleção, demorou apenas 72 segundos para marcar dois golos: primeiro, aos 19.35 minutos, na sequência de uma jogada de Brahimi na esquerda com cruzamento para remate rasteiro dentro da área; depois, aos 20.47 minutos, após uma grande iniciativa do estreante Diogo Dalot na esquerda (apesar de ter começado o jogo na direita) com centro para o cabeceamento ao ângulo do dianteiro camaronês.

O Lus. Évora, que além de ser teoricamente muito mais fraco do que o FC Porto leva apenas quatro jogos oficiais na presente temporada (dois para a Taça de Portugal, com o Vasco da Gama da Vidigueira e o Pêro Pinheiro, e dois para a Divisão de Elite dos Distritais de Évora, com o Arcoense e o GD Cabrela), sentiu em demasia os dois murros seguidos no estômago. E foi Laurentino que brilhou, a remates de Marcano (35′) e Hernâni (37′), antes de Nobre atirar perto do poste da baliza de José Sá, com a bola a desviar ainda no central espanhol dos portistas (41′).

A segunda parte, com Galeno no lugar de Brahimi (mais tarde entrariam ainda mais dois miúdos da equipa B, Luizão e Jorge Fernandes), começou com três golos em 15 minutos: primeiro Marcano, na sequência de um canto (50′); depois Otávio, a fletir da esquerda para o meio e a rematar em arco sem hipóteses (55′); por fim Galeno, lançado nas costas da defesa e a atirar à entrada da área com a bola a desviar ainda num defesa alentejano (59′).

Se as pernas dos jogadores do Lus. Évora já começavam a pesar toneladas, a força anímica de estar naquele palco, contra aquele adversário e com tantos adeptos que viajaram do Alentejo acabou por diluir-se com o avolumar do resultado. Ainda houve mais umas defesas de Laurentino, uma bola na trave de Luizão, mas o resultado estava feito e acabou por ficar em definitivo fechado com o melhor golo da noite, de calcanhar, por Hernâni (aos 90′, apesar da clara posição irregular do extremo depois de um desvio de um companheiro antes do toque para a baliza).

Final do jogo, goleada natural do FC Porto frente ao Lus. Évora por 6-0. Final do jogo, festa para todos os adeptos, de alegria pela vitória ou de orgulho pela réplica possível que foi sendo dada. Agora, podemos voltar a olhar para um lado e ver José Sócrates, olhar para outro e tentar perceber o Orçamento de Estado. Até porque a sexta-feira 13 está quase a acabar.