No último programa de comentário da SIC Notícias e antes de começar a sua campanha à liderança do PSD, Pedro Santana Lopes não poupou críticas a António Costa: o Governo falhou na resposta aos incêndios de domingo. Santana diz que têm de ser apuradas responsabilidades políticas e que se “revê muito” nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa quando diz que o “Presidente da República pôs as coisas no sítio”, com o seu discurso feito esta terça-feira.

Santana Lopes sublinhou a necessidade de haver consenso num assunto tão importante como este da atuação do Estado nos incêndios e reforça que a atuação de Marcelo foi necessária e que as suas palavras foram “a voz do sentimento nacional”.

Os Presidentes da República existem para quando os governos não conseguem também entender o que se passa. Tem de ser a voz da consciência nacional”, disse.

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Já no que diz respeito à permanência da ministra Constança Urbano de Sousa no Ministério da Administração Interna (MAI), Santana não tem dúvidas: “tem sido dito que a senhora ministra da Administração Interna sair não é solução. E ficar, será que é solução? Eu penso que já não”.

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O país vive um momento de dor profunda. Independentemente de a culpa ser ou não da ministra, quando tragédias destas acontecem e não são previstas e não se atua como deve ser elas caem em cima dos responsáveis políticos”, reforçou.

No que diz respeito às declarações de António Costa, na segunda-feira já de madrugada, Santana confessa que “não foram um momento feliz” e fala num país que se sente “de algum modo incomodado, para não dizer insultado, se as coisas continuarem como estão” e espera, no entanto, que numa eventual saída da ministra, o cargo seja ocupado por alguém que já tenha alguma experiência.

As pessoas começam a ter medo e as questões com a Proteção Civil não são só incêndios. Não devemos ter medo ou dúvidas sobre a capacidade do estado de defender os cidadãos”, sublinha Santana.

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Santana refere também os relatórios sobre Pedrógão Grande, para pedir a responsabilidade política, já que os resultados mostraram que houve falhas na atuação da Proteção Civil, bombeiros e até do INEM. “O que está demonstrado é que o Estado falhou na capacidade de acorrer as pessoas em situações dessas. Isto nunca aconteceu antes numa dimensão destas”, refere.

Em termos de responsabilidade política há aqui um erro, há um falhanço. Temos dados do relatório que nos permitem apontar a estas responsabilidades”, remata.

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Santana Lopes considerou que foi “um erro político manifesto” o não prolongamento da fase Charlie, a mais crítica de combate aos incêndios. Relativamente à posição do PSD, o antigo provedor da Santa Casa lembra que o partido atravessa neste momento numa “situação especial” e que com a apresentação do CDS de uma moção de censura “o principal líder da oposição deve ponderar” essa posição.

O Governo merece de facto censura política, se se deve traduzir ou não numa moção de censura é outra questão”, disse, defendendo a figura da moção de censura construtiva, como existe noutros países, e que não provoca a queda do Governo.

Santana ressalva, no entanto, que “quando se apresenta uma moção de censura, tem de se mostrar uma alternativa” e que uma decisão destas “sem se preocupar com as consequências é próprio de partidos que não são os maiores [a nível parlamentar].”

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Santana acredita, ainda, que a apresentação da moção será positiva para “ver se o PCP e Bloco aparecem de facto a sustentar este governo”. “O PSD não se deve preocupar com isso”, refere, mas que numa situação normal a voz do PSD “tem de ser a primeira” a ser ouvida. E essa posição é claramente assumida por Santana: “o PSD não deve ter nenhum problema em se envolver na posição assumida pelo Presidente da República”.

Ao falar de Rui Rio, Santana Lopes defendeu que, mais do que nunca, o PSD precisa de uma liderança “não crispada”. Não o disse, mas o seu adversário interno deu uma entrevista à TVI no domingo, em que falou várias vezes de forma crispada.

O PPD/PSD não pode ter um líder para fazer contas, tem de saber fazer contas, mas tem de saber que a sua primeira tabuada é o que os portugueses pensam e o que os portugueses passam”.

Santana não se quis alongar sobre a acusação, revelada na semana passada, no âmbito da operação Marquês, dizendo apenas que “é muito desagradável” ver um antigo primeiro-ministro acusado por matérias como corrupção. “É grave para o regime”, disse.

Questionado sobre a proposta de Orçamento do Estado apresentado na sexta-feira, o candidato à liderança do PSD afirmou que lhe dá “uma nota positiva”, pela consolidação orçamental, mas apenas um “suficiente menos, quando o país precisava de um orçamento bom ou muito bom”.

Santana Lopes apontou vários sinais errados no documento, considerando que aposta pouco na atração do investimento estrangeiro e sobrecarrega os trabalhadores independentes.

Por causa da satisfação aos parceiros da coligação estamos a prejudicar as possibilidades de continuar a crescer”, lamentou, dizendo que “os trabalhadores portugueses ganham mais com crescimento da economia e com o aumento do investimento do que com a mera devolução de alguns euros”.

Relativamente às diferenças em relação ao outro candidato anunciado, Rui Rio, o antigo primeiro-ministro disse que elas serão expostas “serena e calmamente” e manifestou-se disponível para debates organizados pelos órgãos de comunicação social.

“Algumas matérias é importante falar delas, como o que aconteceu em 2013, no auge do Governo de Passos Coelho: ouvi Rui Rio dizer, numa nota de humor, que nunca criticou o Governo de Pedro Passos Coelho”, afirmou, contrapondo com intervenções do antigo autarca, nessa altura, em palcos como a Associação 25 de Abril ou a Aula Magna.