Os incêndios na Galiza e em Portugal, do passado fim de semana, podem ter começado na mesma altura, mas tiveram resultados bem diferentes. Os espanhóis contabilizaram quatro mortos e 35.500 hectares de área ardida, enquanto os fogos em Portugal — o país europeu com maior número de incêndios e de área queimada — fizeram até agora 43 mortos e 150 mil hectares de área ardida.

O jornal espanhol El País comparou os fogos e destacou como diferenças o investimento feito na prevenção, nas políticas e na profissionalização dos bombeiros.

A questão da distribuição do território também é destacada no artigo. Em Portugal, 85% da floresta é propriedade privada, sendo que o Estado só tem 2%, e o resto são áreas públicas. A percentagem de área privada noutros países europeus é mais baixa: em França são 75%, em Espanha 70%, em Itália 66% e na Grécia 22%.

“Sabe-se que quase todos os montes são privados, mas pouco mais se sabe. (…) Não se sabe de quem é a floresta, quem lá vive e quem lá morre”, escreve o jornalista Javier Martín del Barrio.

No que toca à profissionalização dos bombeiros, Portugal conta com dois mil bombeiros profissionais e em Espanha há 20 mil. “Portugal combate os incêndios com bombeiros voluntários; Espanha com profissionalismo e conhecimentos”, disse ao jornal Paulo Fernandes, engenheiro florestal português, acrescentando que 90% dos bombeiros que combatem os fogos são voluntários.

Nos fogos do fim de semana passado, havia o mesmo número de operacionais no terreno em Portugal e na Galiza: cinco mil. A diferença era que em Espanha os incêndios estavam a ser combatidos por militares e bombeiros profissionais e em Portugal a maior parte eram bombeiros voluntários.

O especialista em fogo destaca ainda outra diferença: as políticas de prevenção e o combate aos incêndios.

Na sequência dos incêndios de 1989 na Galiza, que fizeram quatro mortos e 200 mil hectares de área ardida — “o ano de 1989 foi para a Galiza aquilo que 2017 foi para Portugal”, lê-se no El País –, em 1990, foi criada uma direção que coordena a prevenção e combate aos incêndios. Essa direção inclui, desde 2005, uma unidade de intervenção militar urgente (UME), que no incêndio do fim de semana passado só precisou de algumas horas para entrar em ação — em Pedrógao Grande foram precisos três dias para os militares começarem a intervir.

Recorde-se que em Portugal, as responsabilidades estão repartidas entre a GNR, a Proteção Civil e os Ministérios do Ambiente e Administração Interna. A Comissão Técnica Independente, que elaborou o relatório sobre o que se passou em Pedrógão Grande, recomendou precisamente a criação de um organismo único e que centralizasse as funções de vigilância, prevenção e combate.

“Nos anos 90, a Espanha e a Galiza mudaram o plano de extinção; fizeram-no com mais eficiência, mais baseado no conhecimento, é mais profissional e combate-se [o fogo] com técnicas florestais”, acrescentou Paulo Fernandes ao jornal espanhol. A Galiza, aliás, foi a primeira a usar hidroaviões, técnicas de fogo controlado, centros de coordenação e na criação câmaras automáticas de vigilância, destaca ainda o jornal.

O valor do orçamento para as florestas e o seu destino também é bem diferente: “Na Galiza, dois terços do orçamento destina-se à prevenção [dos fogos] e apenas um terço ao combate. Em Portugal é o contrário”, explicou Paulo Fernandes. “Apenas 5% do orçamento da floresta é para os trabalhos de prevenção, como limpeza das florestas ou criação de contra-fogos, cerca de 15% é para vigilância e o resto para o combate.”

Portugal investe 100 milhões de euros na extinção dos incêndio enquanto Espanha investe dois mil milhões, refere ainda o El País.

“Se 4% do orçamento para a extinção fosse dado à prevenção, haveria uma resposta efetiva ao problema”, defendeu Domingos Lopes, diretor do Departamento de Ciências Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

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