Primeiro foi Pedrógão Grande, onde o pior aconteceu: 65 vítimas mortais na sequência dos fogos. Depois, o pior do pior voltou a acontecer, e nem quatro meses tinham passado: mais 43 vítimas, e o número sobe todos os dias. Mas António Costa tem escapado, apenas com alguns arranhões, à que é a maior tragédia humana da história recente: um (grande) raspanete do Presidente da República, muitas críticas, acusações e até pedidos de demissão por parte da oposição, uma moção de censura ao Governo — que vai ser votada na terça-feira, mas que não tem hipóteses de passar –, uma micro-remodelação no Governo quando se viu obrigado a deixar cair a ministra da Administração Interna, e um pedido de desculpas arrancado a ferros.

Mas os arranhões também têm vindo de dentro. Nos últimos dias, as páginas dos jornais e os espaços de comentário na televisão e rádio têm sido o palco escolhido para os (poucos) socialistas ou ex-dirigentes do PS críticos da liderança de António Costa deixarem recados ao primeiro-ministro e secretário-geral do partido pela gestão que tem feito do dossier. Ao grupo, juntou-se até o histórico socialista Manuel Alegre, que criticou a “falência do Estado” por “desleixo, incompetência e amiguismos”, e a deputada Helena Roseta, que em 2007 se candidatou como independente à câmara de Lisboa por ter entrado em rutura com o PS, mas que se aproximou bastante de António Costa na gestão da capital, o que lhe valeu a entrada direta num lugar cimeiro das listas do PS à Assembleia da República nas últimas legislativas. Ainda assim, Helena Roseta criticou a “incompetência” do Estado e não se poupou no tom: “Não chegam os pêsames. É preciso merecer o poder que se tem”, escreveu esta quinta-feira no jornal Público.

Algumas das críticas internas chegaram antes do anúncio da demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, que já tinha pedido “insistentemente” para sair mas que Costa queria segurar pelo menos até este sábado, altura em que o Governo se vai reunir para regular as normas para a floresta. Não aguentou até lá, e quarta-feira estava assinado o pedido de demissão. Os ecos pela decisão tardia, no entanto, ainda se fizeram ouvir.

Helena Roseta: “incompetência”

“Ninguém pode assistir sem dor e sem revolta ao colapso do sistema nacional de proteção civil. Quando as pessoas desamparadas, um pouco por todo o Norte e Centro do país, tentavam apagar as chamas com baldes e enxadas e acabavam a chorar os seus mortos, não se pode dizer-lhes que sejam resilientes. Nem falar em férias sacrificadas. Nem voltar a remeter para relatórios. Não se pode. O Estado falhou e o Governo não foi capaz de perceber a dimensão da tragédia”, é assim que começa o artigo de opinião que esta quinta-feira a deputada do PS assinou no Público. A dada altura resume numa frase: “Desculpem, mas isto tem um nome: incompetência”.

Helena Roseta explica que faz “parte das bancadas que apoiam este Governo”, que se “bate” pelo atual Governo, que vai “votar contra a moção de censura do CDS”, mas que não quer deixar de dizer o que pensa publicamente “ao Governo e ao primeiro-ministro”: “É preciso merecer o poder que se tem. É preciso coragem para reconhecer os erros e mudar o que tem de ser mudado. Devemos isso aos que morreram pela nossa inépcia”, escreve.

A deputada socialista é ainda particularmente dura na avaliação que faz do papel do Estado na gestão dos incêndios, acusando o Governo de ter sido incapaz de impedir uma nova tragédia. “Tínhamos o dever da vigilância, da previsão e da prontidão para mobilizar os meios”, diz, acrescentando que o Estado tem de fazer mais do que prestar solidariedade. “Não chegam os pêsames e as promessas de solidariedade”, “é preciso coragem para reconhecer os erros e mudar o que tem de ser mudado”, sublinha.

Manuel Alegre: “amiguismos”

Foi a crítica com maior peso, vinda de um histórico socialista, homem de esquerda, que foi deputado e candidato a Presidente da República. Manuel Alegre, que marcou presença no comício de campanha de Fernando Medina à câmara de Lisboa, nas autárquicas deste mês, escreveu no seu espaço de comentário no Diário de Notícias que não conseguia “ficar calado” perante o que se estava a passar, e sobretudo perante aquilo que disse ser o fruto da submissão a “interesses instalados”. “Amiguismos múltiplos”, noutras palavras.

“Dá vontade de chorar e não consigo ficar calado. É um símbolo triste da falência do Estado, fruto de décadas de desleixo, de incompetências, de amiguismos múltiplos, da submissão do interesse geral a interesses instalados e da capitulação perante lógicas que não são a dos fins superiores do Estado e do país”, escreveu naquele jornal na quarta-feira.

Manuel Alegre critica “falência do Estado” por “desleixo, incompetência e amiguismos”

Num artigo carregado de “tristeza” e “culpa”, Alegre diz que o problema é antigo e que a culpa pode ser de todos, inclusive, dele próprio que participou na construção de uma democracia que, vê-se agora, “não soube resolver problemas estruturais”. “Vi o meu país a arder, sei que morreram cem pessoas em quatro meses e não consigo ficar calado. Talvez a culpa seja minha, porque fui deputado e participei na construção de uma democracia que a páginas tantas se distraiu e não soube resolver problemas estruturais, como o reordenamento do território e das florestas, assim como o combate ao abandono e à desertificação do país”, lamentou.

O socialista diz ter “por vezes” protestado, mesmo contra o seu partido, mas que tal “não foi suficiente”. Manuel Alegre admite não ser especialista, mas defendeu que “os meios de combate aos incêndios devem passar para o Estado” e que “se torna urgente a criação de um corpo nacional de bombeiros profissionais organizado segundo normas e regras de tipo militar”. E pede coragem na tomada de decisões. “Vai ser preciso enfrentar preconceitos e interesses instalados, mas este é um tempo em que é preciso coragem para tomar decisões para que o Estado não se demita de exercer as suas funções de soberania e seja capaz de proteger o território e garantir a segurança dos portugueses”, conclui.

Francisco Assis: reação “completamente desastrosa”

É talvez o único crítico assumido da atual direção socialista, tendo expressado a sua visão contrária no último congresso do PS. Francisco Assis, eurodeputado do PS, reagiu à atuação do Governo no caso dos incêndios aos microfones da Rádio Renascença na véspera da demissão da ministra da Administração Interna. Disse que a “reação política” aos incêndios foi “completamente desastrosa” e defendeu que ministra deveria “transmitir tranquilidade e segurança” em situações de tragédia como esta.

Na altura, ainda o Presidente da República não tinha falado e a ministra não tinha formalizado o seu pedido de demissão, Francisco Assis dizia que a demissão da responsável máxima pela Administração Interna era “inevitável”, demorasse isso “mais ou menos tempo”.

Assis: ministra da Administração Interna vai “inevitavelmente” demitir-se

O eurodeputado disse ainda que o relatório da Comissão Técnica Independente que analisou os incêndios de Pedrógão Grande era um documento “muito crítico”. “Há reformas profundas a fazer, que exigem um consenso vasto no país”, defendeu o eurodeputado socialista, acrescentando que era preciso tomar “decisões de cárter político” no imediato com base nas conclusões e recomendações do relatório.

Ana Gomes. “Não percebi o António Costa, e o que percebi, não quero perceber”

Outra eurodeputada socialista que não conseguiu ficar em silêncio foi Ana Gomes. Logo a seguir à declaração de António Costa no pico da tragédia deste domingo e segunda-feira, Ana Gomes escreveu na sua página de Twitter que não “percebia” o que o primeiro-ministro estava a dizer, ou se percebia, não queria perceber.

Referia-se às primeiras palavras de António Costa no rescaldo da tragédia, em que disse, entre outras coisas, que “não podemos iludir os portugueses sobre a produção imediata de resultados” e que “nada poderá ficar como antes”. Mas na madrugada de segunda-feira, Costa tinha usado palavras que custaram mais a ouvir: não há “soluções mágicas”, os governos não têm “varinhas mágicas”, e situações como esta vão “seguramente repetir-se”. Não houve um pedido de desculpas à população — e isso foi notado à esquerda e à direita. O pedido de desculpas só surgiria mais tarde, na quarta-feira, em pleno debate quinzenal, quando Costa foi instado pelo PSD a fazê-lo. Ainda assim, foi um pedido de desculpas forçado. “Se quer ouvir um pedido de desculpas, eu peço desculpa”, mas depois clarificou que a palavra “desculpa” usa enquanto cidadão, porque enquanto primeiro-ministro prefere usar a palavra “responsabilidade”.

Mais tarde, ao jornal Expresso, Ana Gomes explicaria melhor a sua incredulidade. “Quem encarna o Estado tem que assumir as responsabilidades do Estado. Tem de agir com cabeça fria, mas também de mostrar que tem coração”, dizia àquele jornal.

António Galamba e Pedro Adão e Silva

Também o comentador político e ex-dirigente do PS Pedro Adão e Silva se manifestou logo na segunda-feira no Twitter, dizendo que a ministra “já devia ter saído”. “Depois de Pedrógão, a ministra não tinha condições. Ganhou meses com a comissão independente e no dia em que foi conhecido o relatório devia ter saído do Governo”, escreveu. E continuou as críticas no espaço de comentário na RTP3.

A declaração de Costa ao país na segunda-feira foi o principal alvo das críticas. “O que eu espero é que desde logo use essa palavra, tragédia, que comece por um ato de contrição em nome do Estado, que mostre empatia em relação às pessoas que sofreram e depois que parta para uma solução. Só teve esta última parte”, disse o comentador na RTP3, criticando por um lado o primeiro-ministro e, elogiando, por outro, o discurso emotivo do Presidente da República que serviu para realçar o contraste.

Também António Galamba, ex-dirigente do PS próximo de António José Seguro na última disputa interna do partido, criticou a postura de António Costa. “Fora declarações inaceitáveis perante a realidade, que é dramática”, disse também ao Expresso. “Se olharmos para os últimos treze anos, para os atos terroristas que aconteceram na Europa, nós só temos dois em vinte eventos que tiveram mais mortos do que aqueles que já foram registados este ano em Portugal”, notou, sublinhando que isso exige outra atitude da parte do secretário-geral do PS: “exige senso nas palavras e uma ação coerente”. “Quem está no Governo tem de ter dimensão para perceber que às vezes tem de reconhecer que houve erros, que decorrem de pessoas que fazem parte da estrutura do Estado”, sublinhou criticando sobretudo as nomeações para a Proteção Civil.

“Cabe ao Governo dar a sensação e a perceção de que podem confiar no Estado, e o Estado falhou”, acrescentou ainda, repetindo as palavras usadas pelo PSD e pelo CDS.

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