A acidificação oceânica, resultante das emissões de dióxido de carbono, vai afetar, direta ou indiretamente, toda a vida marinha, alerta um relatório do projeto BIOACID que será apresentado na Conferência das Alterações Climáticas das Nações Unidas, em novembro.

O conjunto de estudos feitos nos últimos oito anos contaram com a participação de mais de 250 cientistas e indicam que as espécies marinhas em estado de infância serão mais prejudicialmente afetadas. Os autores dos estudos da BIOACID, cuja síntese será apresentada no próximo mês, na conferência que se realizará em Bona, na Alemanha, referem que algumas espécies poderão beneficiar diretamente deste aumento de acidez, mas que ainda assim poderão ser prejudicadas por alterações na cadeia alimentar.

A síntese revela, contudo, que quase metade das espécies marinhas reagiram negativamente a alterações moderadas na concentração de dióxido de carbono no mar, que resulta em maior acidez oceânica. Desde 2009 que a equipa de cientistas da BIOACID estuda a acidificação oceânica e como esta pode afetar a vida marinha nas diferentes fases da vida, a cadeia alimentar e a capacidade evolutiva e adaptativa das espécies ao oceano mais ácido.

Num estudo publicado em agosto de 2016, a equipa de cientistas submeteu bacalhau do mar Báltico e do mar norueguês a condições de acidez oceânica que as espécies poderão encontrar no final do século e concluiu que quem mais sofre são os recém-nascidos, cuja mortalidade duplicou sob condições mais ácidas durante os primeiros 25 dias pós-eclosão, fase fundamental para o recrutamento de população.

Uma das autoras do estudo sobre o bacalhau, Catrionna Clemmensen, da GEOMAR, refere que os resultados mostram que a acidificação deve ser tida em conta “nas projeções de stocks” e “na gestão de stocks de peixe” como o bacalhau, que é uma espécie “comercialmente importante”. “Só isto nos permitirá definir limites realistas para a pesca e evitar sobrepesca e o esgotamento de stocks de peixe”, acrescentou.

Os oceanos estão 26% mais ácidos desde o início da Revolução Industrial, passando de um pH de 8.1 para um pH de 8.2. A acidificação acontece com a dissolução dos combustíveis fósseis na água, que produzem ácido carbónico e baixam o pH da água. Os níveis de acidez marinha vão piorar ainda mais graças ao aquecimento global, à poluição, ao desenvolvimento das cidades ao longo da costa, aos fertilizantes agrícolas e à sobrepesca, indica a investigação.