Durante muitos anos, Osvaldo Silva tinha como um dos pontos altos da temporada o Torneio Internacional da Pontinha. Por ele passaram futuros craques como Ricardo Quaresma, com quem teve uma história nessa prova: ao intervalo, e depois de meia hora em que o jogador se andou a agarrar demasiado à bola (tinha 11 aninhos, alguém pode levar a mal?), o brasileiro agarrou numa bola e passou ao extremo. “Seu bobo… Esta é para ti, para andares lá jogar sozinho. A outra fica para os teus colegas jogarem”. O agora jogador do Besiktas e campeão europeu de seleções ficou a torcer-se todo por dentro, mas decidiu essa final… jogando com toda a equipa.

Mas porquê recordar essa figura de Osvaldo Silva (de quem ainda é complicado arranjar fotos, caso tenha estranhado a imagem desta peça)? Porque o brasileiro é a figura comum mais marcante entre FC Porto e Leixões, que se encontraram esta noite pela 33.ª vez na história no Porto (desta feita, para a Taça da Liga).

Nascido em Belo Horizonte, o avançado que às vezes recuava para médio-ofensivo (ou aquilo que hoje chamaríamos de ’10’, essa raridade do futebol moderno) chegou ao FC Porto com 23 anos anos na temporada de 1957/58. Logo a abrir, conquistou a Taça de Portugal; na época seguinte, festejou o Campeonato pelos dragões com o húngaro Bella Guttmann no comando. Estavam nessa equipa nomes como Américo, Monteiro da Costa, Perdigão, António Teixeira, Carlos Duarte ou José Maria Pedroto, que se tornaria numa das figuras mais marcantes dos azuis e brancos. Mas essa formação, no seu todo, ficaria conhecida por outra razão: só apenas 19 anos depois é que o clube voltaria a ganhar a Primeira Liga, naquele que é o maior jejum da história.

Em 1959/60, após o título, mudou-se para o Leixões. Ficaria três temporadas em Matosinhos. E também aqui deixaria a sua marca em termos históricos: em julho de 1961, conquistou a Taça de Portugal, único troféu na história do clube além da Segunda Liga, frente ao FC Porto numa final disputada em pleno Estádio das Antas (2-0).

Depois do Leixões, Osvaldo passaria ainda quatro anos pelo Sporting (onde ganhou Campeonato, Taça e Taça das Taças, em 1964, naquela que é a única conquista europeia dos leões), antes de acabar a carreira com um ano no Olhanense e outro no Ac. Viseu. Foi nesses clubes que começou a carreira de treinador, antes de voltar a Alvalade como adjunto, ter uma curta passagem de forma interina como técnico principal (no ano em que Alfredo Di Stéfano comandou o Sporting mas apenas durante alguns dias…) e apostar naquilo onde marcaria a diferença: as camadas jovens, nomeadamente as equipas de infantis (11 e 12 anos) que orientou durante anos a fio.

Foi nessas funções que, além de ter treinado Quaresma, Caneira ou Lourenço, entre tantos outros, teve um papel decisivo na contratação de Cristiano Ronaldo pelo Sporting: foi o brasileiro (com Paulo Cardoso) que assinou a ficha de avaliação do talento madeirense que já soma cinco troféus de melhor do mundo, depois de ter sido observado por Aurélio Pereira. “Jogador de talento fora de série e tecnicamente muito evoluído. É de destacar a capacidade de drible em movimento ou parado”, escreveu. E acertou na mouche.

Osvaldo Silva morreu em agosto de 2002 com 68 anos, vítima de doença prolongada, e quer FC Porto, quer Leixões, além do Sporting, fizeram questão de deixar mensagens emotivas pelo percurso do avançado em cada um dos clubes. Para muitos, o brasileiro que chegou a Portugal há 60 anos ainda pode ser um desconhecido, mas, à sua maneira, conseguiu tornar-se um herói por onde passava, como jogador, treinador e observador.

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