Sérgio Conceição dixit: o único intocável no FC Porto chama-se Jorge Nuno Pinto da Costa. E percebe-se porquê: em 35 anos como presidente dos dragões, que é como quem 12.974 dias no cargo (sem paralelo em qualquer outra parte do mundo, sobretudo a este nível), 1.741 jogos, 1.172 vitórias. Ufa, até cansa só de contar. Mas a face mais visível desse percurso que colocou o conjunto azul e branco num patamar elevado até em termos europeus são os 58 títulos: há Campeonatos, Taças de Portugal, Supertaças, Ligas dos Campeões, Ligas Europa, Supertaça Europeia, Taças Intercontinentais. Falta o Mundial de Clubes, onde nunca participou. E a Taça da Liga.

Criada na temporada de 2007/08, já teve como vencedores o V. Setúbal, o Benfica (sete vezes), o Sp. Braga e o Moreirense na última temporada. FC Porto nunca, apesar das finais perdidas em 2010 e 2013. Parece mesmo uma maldição. E, neste caso, não é apenas pela falta de troféus: desde 28 de janeiro de 2015 que os dragões não conseguem sequer vencer uma partida a contar para a Taça da Liga.

Após esse triunfo com a Académica, que confirmou a passagem às meias-finais da prova, os azuis e brancos foram derrotados pelo Marítimo por 2-1, em abril (e com um dos golos a ser apontado por Marega, então nos insulares). Seguiram-se mais seis jogos sem vitórias: 1-3 em casa com o Marítimo em novembro de 2015; 0-1 fora com o Famalicão em janeiro de 2016; 0-2 fora com o Feirense em janeiro de 2016; 0-0 em casa com o Belenenses em novembro de 2016; 1-1 em casa com o Feirense em dezembro de 2016; 0-1 fora com o Moreirense em janeiro de 2017; e, esta noite, 0-0 em casa com o Leixões. Oito encontros seguidos sem alcançar esse objetivo.

Esta é uma maldição com 32 meses e 27 dias que continua a contar. Ainda assim, e como se percebeu pelo discurso antes e depois do encontro, Sérgio Conceição está apostado em vencer esta competição, embora seja agora obrigado a vencer P. Ferreira e Rio Ave (por margens confortáveis, não vá o Leixões somar também sete pontos). Que seria a 59.ª, numa altura em Pinto da Costa que atravessa o maior jejum do seu reinado (Supertaça em agosto de 2013).

Ficha de jogo

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FC Porto-Leixões, 0-0

2.ª jornada do grupo D da Taça da Liga

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Vasco Santos (AF Porto)

FC Porto: José Sá; Maxi Pereira, Felipe, Diego Reyes, Layún; André André, Óliver Torres; Hernâni (Corona, 66′), Otávio (Brahimi, 72′), Galeno (Marega, 67′) e Aboubakar

Suplentes não utilizados: Casillas, Marcano, Alex Telles e Sérgio Oliveira

Treinador: Sérgio Conceição

Leixões: André Ferreira; Jorge Silva, Jaime, Ricardo Alves, João Lucas; Stephen, Luís Silva; Evandro Brandão, Bruno Lamas (Ofori, 90′), Breitner (Youssouf Sow, 78′) e Kukula (Derick, 62′)

Suplentes não utilizados: Yerjet, Huang Wei, Saná e Okitokandjo

Treinador: João Henriques

Ação disciplinar: cartão amarelo a Ricardo Alves (24′), Breitner (44′), Evandro Brandão (71′) e Felipe (90+2′)

Com uma autêntica revolução da baliza para a frente (José Sá continuou como titular, Casillas voltou a ir para o banco e Vaná não entrou nos convocados) que promoveu oito alterações e manteve apenas Felipe e Aboubakar no onze, a primeira parte do FC Porto foi o reflexo do resultado com que se chegou ao intervalo: zero.

Houve mérito do Leixões (e aqui um parênteses mais do que justo para destacar as muitas centenas, senão mesmo milhares, de adeptos que se deslocaram de Matosinhos ao Dragão), uma equipa que ocupa o quarto lugar da Segunda Liga mas que tem princípios de jogo interessantes, está bem organizada e é muito inteligente na ocupação de espaços sem bola, mas muito demérito de uma equipa azul e branca sem chama, sem aquele fio de jogo enraizado a que estávamos habituados na presente temporada e com as individualidades desaparecidas: Aboubakar não teve bola, Galeno nunca entrou no jogo coletivo, Hernâni não arrancou uma jogada, Óliver foi lento na primeira fase de construção e só Otávio, quando deixava a esquerda para ocupar terrenos centrais, conseguia emprestar algum génio a uma equipa sem genialidade.

Por isso, não houve uma única oportunidade flagrante nos 45 minutos iniciais. E os 14 remates (9-5) registados em termos estatísticos eram enganadores porque quase nenhum foi enquadrado com a baliza ou levou perigo. Diego Reyes e Felipe, na sequência de livres laterais, Luís Silva e Breitner, após tentativas de meia-distância, foram os que tiveram a mira menos torta. E ainda houve um míssil muito por cima de Galeno após uma boa jogada.

O intervalo fez bem ao FC Porto (que é uma maneira bonita de dizer que os jogadores devem ter ficado com as orelhas a arder com a reprimenda de Sérgio Conceição): teve mais velocidade, maior intensidade e outra disponibilidade na primeira fase de pressão, traduzida pelo aumento de segundas bolas ganhas. Ainda assim, esse domínio mais acentuado teve apenas dois cabeceamentos de Galeno e Aboubakar por cima como maiores momentos de perigo junto da baliza de André Ferreira (que ia revelando alguma atrapalhação nesses mesmos lances).

A meio do segundo tempo, os dragões começaram a colocar o arsenal do costume na frente, com as entradas de Corona, Marega e Brahimi. Aí sim, o FC Porto teve oportunidades flagrantes para desfazer o nulo, sobretudo as bolas que Corona (73′) e Reyes (79′) atiraram ao lado, mas o resultado não se alterou. Uma maldição é uma maldição e esta parece que veio para ficar, ao mesmo tempo que premiou o excelente jogo do Leixões, uma equipa num fantástico momento com o novo treinador (oito vitórias em dez jogos para João Henriques) e com futebol e ideias de jogo de Primeira Liga.