Tive uma Ideia

Craft Wallet. As carteiras de alumínio portuguesas que renderam 60 mil euros em oito meses

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Investiram 100 euros e em oito meses faturaram 60 mil euros a vender carteiras de alumínio. No arranque da segunda campanha de 'crowdfunding', a Craft Wallet está presente em 27 países.

A nova campanha para angariação de fundos da Craft Wallet em menos de uma semana já teve mais de 700 financiadores

Miguel Morgado fazia peças em alumínio para motas e um dia pensou: “Porque não fazer uma carteira?”. Dois anos depois, esgota o produto que criou assim que o disponibiliza online e vende para mais de 27 países. Em oito meses, faturou 60 mil euros. Com a ajuda de Pedro Andrade, o sócio que se tornou no seu melhor amigo, lançou a segunda campanha de crowdfunding (financiamento coletivo) da empresa na quinta-feira e em menos de uma semana conseguiu mais de 10 mil euros de investimento, duplicando o valor inicial que pretendia.

O Pedro e o Miguel têm cinco anos de diferença, como Steve Jobs e Steve Wozniak, que fundaram a Apple. Como os históricos empreendedores de Silicon Valley, Pedro conheceu Miguel já este tinha criado a Craft Wallet, mas precisava de ajuda para vender as carteiras de alumínio. “Conheci o Miguel num evento ‘cerveja grátis, conhece pessoas'”, diz Pedro. “Vi-o e perguntei-lhe: o que é que fazes?”. O Miguel respondeu-lhe que tinha uma carteira e mostrou-a. “Peguei nela e disse que podíamos melhorar aqui, aqui e aqui”, conta Pedro. Os amigos acreditam de tal forma na qualidade da Craft Wallet que oferecem garantia vitalícia aos utilizadores que comprem as carteiras.

A Craft Wallet começou em 2015, quando Miguel tinha 23 anos. Nos tempos livres que tinha “ia desenvolvendo o projeto por piada”, adianta. “No fim do dia, em vez de ir para casa fazer um puzzle, ia desenvolver um produto”, brinca Miguel. Foram precisos sete meses para completar o primeiro protótipo da carteira.

A Craft Wallet é uma carteira minimalista com capacidade para seis cartões. Um pequeno acessório em pele permite transportar também moedas e notas.

O design final da primeira versão também contou com a ajuda da namorada de Miguel. Estudante de arquitetura, “sempre foi ótima aluna”, diz o empreendedor. “Foca-se mais no percurso académico do que no profissional”, afirma, confessando que a namorada foi crucial para enviar e montar as 800 carteiras que vendeu na primeira campanha de crowdfunding. Cada carteira custa entre 30 e 50 euros.

Para lançar a empresa, Miguel investiu 100 euros em publicidade no Facebook. Só depois de gastar este dinheiro é que percebeu como funcionava o negócio onde acabava de entrar: “Eu não tinha noção do mercado que era este tipo de carteiras, só depois de fazer os anúncios no Facebook é que comecei a ser bombardeado pela minha concorrência”, contou.

Na altura, já tinha começado o crowdfunding e até pensei que se calhar nem valia a pena”, diz Miguel

A concorrência não foi o único problema de Miguel. “A primeira carteira vinha com um defeito na borracha. Nos testes parecia aguentar-se, mas passado um ano passou a deteriorar-se”, conta. O prejuízo foi avultado: “Perdemos imenso dinheiro, tivemos de enviar carteiras novas a todos os primeiros clientes”.

A primeira campanha de investimento decorreu no site Indiegogo, uma plataforma semelhante ao Kickstarter para iniciar projetos, e Miguel conseguiu arrecadar 26 mil euros, mais 36% do que o objetivo inicial. Mas no final das contas, tendo em conta as devoluções que tiveram de ser feitas, o lucro foi irrisório.

O encontro com Pedro e a fase 2.0 da Craft Wallet

Em Maio de 2016, a empresa já estava lançada, mas era só uma campanha de crowdfunding e um produto, explica Pedro. Foi nesse mês que conheceu Miguel, que contava apenas com a ajuda da namorada. O fundador da Craft Wallet estava longe de imaginar que seria Pedro o responsável pela ideia que o levaria a faturar 60 mil euros em oito meses.

Tive média de 18 no secundário, mas cheguei à faculdade e fiquei mesmo desiludido. Em Gestão ensinam-te a gerir o valor que já existe, não te ensinam a criar valor novo”, explica Pedro ao justificar a mudança para o curso de Marketing.

Pedro, que tem 21 anos, é do Funchal, já deu aulas em orfanatos na América do Sul e geriu a comunicação digital de uma organização não governamental em África. “Foram experiências que me ajudaram bastante na Craft Wallet, nós não tínhamos recursos e tive de aprender a desenrascar-me”, explica o agora cofundador e diretor de Marketing da empresa.

O Pedro viveu até aos 18 anos na Madeira e desde os 12 anos que sonhava criar uma startup. Ajudou a criar o design da nova versão 2.0 da Craft Wallet

Da mesma forma que Steve Jobs ajudou o Wozniak a vender o primeiro computador Apple – o Apple I, criado e desenhado por Wozniak -, Pedro ajudou o Miguel a vender mais carteiras. O site foi redesenhado e prepararam mais Craft Wallets. Para este novo investimento foram necessários dois mil euros, que Miguel conseguiu vendendo uma das suas paixões: a mota.

A maior dificuldade da segunda remessa de carteiras foi com o fabricante. Miguel e Pedro queriam fabricar as carteiras em Portugal, mas viram-se forçados a escolher a China para fazer as peças da Craft Wallet.

Quando as pessoas nos ouvem falar em China pensam que fomos pela opção mais barata, mas a mais barata era em Portugal”, dizem os empreendedores.

“Só escolhemos produzir as carteiras na China porque é onde conseguimos ter mais profissionalismo e qualidade.” A saga passou por cinco fabricantes portugueses que se atrasavam constantemente com pedidos. “Tínhamos sempre atrasos de pelo menos três meses”, explica Miguel.

Em novembro de 2016, começaram a vender as carteiras. Até junho deste ano, a faturação foi de 60 mil euros. Depois esgotaram. “Fazíamos 300 a 400 carteiras e esgotavam logo, só houve um mês em que tivemos stock durante o mês inteiro”, conta Miguel. Com mais de duas mil carteiras vendidas para os Estados Unidos (que representa 80% do negócio) e mais 27 países, a maior dificuldade continua a ser a produção.

A última edição da Craft Wallet foi redesenhada para ser mais resistente e vai ser fabricada pela própria startup

Para evitarem mais atrasos e terem um produto 100% português, Miguel e Pedro esperam que em novembro consigam adquirir aquele que será o maior investimento da empresa: a máquina que produz as peças das carteiras. O objetivo já não passa só por vender carteiras de alumínio, passa por “serem concorrentes da falta de profissionalismo que sentiram em Portugal”, dizem os empreendedores.

Os próximos passos: chegar aos 300 mil euros

De ideia para preencher os tempos livres a um produto que esgota mal fica disponível, os jovens empreendedores apostam de novo no crowdfunding. Optam por este método porque “o nosso maior ativo é a comunidade”, diz Pedro. As expectativas são ambiciosas: ultrapassar os 300 mil euros em financiamento.

Com a adesão dos consumidores às carteiras, a equipa já teve de crescer e ganhou mais um cofundador, Diogo Pereira, que é chefe de operações. Com Guilherme Tavares (gestor de desempenho) e Tomás Fonseca (gestor de comunidade) a Craft Wallet conta com cinco membros. Têm idades entre os 19 e os 25 anos. Segundo Pedro e Miguel, entre os 6 e os 25, mas porque adicionam o Chuck, um labrador castanho, como responsável pela segurança.

A dois meses do fim da campanha no Indiegogo, a Craft Wallet está de volta ao mercado. A única forma de adquirir uma carteira é através da campanha e pode demorar até quatro meses a chegar. No futuro, Pedro e Miguel contam vendê-las em quase todas as lojas. Para já, é preciso ficar na fila de espera que já tem quase mil pessoas em menos de uma semana.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.

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