Marcelo afastou a chuva na chegada à ilha de Santa Maria. O Presidente aterrou e aproveitou a meteorologia para dizer que não queria “chover no molhado” sobre a moção de censura ao Governo, chumbada no dia anterior no Parlamento. “Mais que suficiente”, disse, para assegurar a estabilidade do Governo. Mas, com Marcelo, há sempre um mas. O alerta laranja até foi levantado na ilha, mas não nos avisos do Presidente ao Governo. Entre a primeira parte da visita oficial aos Açores, realizada em junho, e a que começou esta quarta-feira — que dura até sábado — houve Pedrógão, Tancos, o 15 de outubro e mais de 100 mortes. A pergunta foi direta: “O que mudou relações entre o Presidente e o Governo?”. Marcelo não deu uma resposta institucional, nem disse que estavam na mesma, limitou-se a dizer que não ia “estar a comentar realidades que não interessam aos Portugueses“.

A realidade que não interessa aos portugueses é, precisamente, as relações, que estarão piores, entre Belém e São Bento. O Presidente mostrou que ainda estava (pelo menos publicamente) zangado com o Governo, devido à gestão dos incêndios. Antes disso, já tinha dado mais avisos. É certo que o Presidente disse que o Parlamento “reafirmou claramente a sua confiança no Governo” e que “o Governo propõe-se desenvolver um conjunto de medidas definindo-as e depois executando-as, para uma grande prioridade nacional”. Porém, não disse ter a certeza que o Executivo de António Costa as vai executar, e ficou-se por um desejo em vez de uma profissão de fé: “Eu desejo e todos desejamos que o Governo esteja à altura dessa confiança parlamentar.”

Marcelo insistiu que passada a fase de “clarificação” da estabilidade da maioria parlamentar, o ambiente político convida “a passar a uma nova fase”. E essa nova fase, explica Marcelo, “é a de esperar do Governo e esperar dos partidos políticos estarem à altura da confiança parlamentar e sobretudo das expectativas altas e das exigências dos portugueses. É isso que nós esperamos”. Mais um aviso.

Aqui e ali, lá vieram mais indiretas nas entrelinhas. Na visita à Santa Casa da Misericórdia de Vila Porto, Marcelo aproveitou estar a cheirar um licor fabricado no local, para uma metáfora alusiva aos seus afetos e à sua maneira de ser. Que são os mesmos pelos quais António Costa pediu desculpas no final do Conselho de Ministros extraordinário sobre os incêndios. Ao aproximar a garrafa do nariz, o Presidente começou por comentar: “Isto aquece a alma a quem precisa”. Mas logo complementou: “Não é que a minha alma precise de ser aquecida…

E não precisa. Pouco antes, deteve-se junto a idosas que faziam recortes em esponjas coloridas. “Deixe cá ver se tenho jeito”, atirou o Presidente enquanto recortou um círculo. O momento foi aproveitado para mais uma indireta sobre o poder que quer ter como chefe de Estado, longe de ser meramente simbólico. Foi espicaçado por uma jornalista: “É o Presidente corta-fitas?”. Ao que Marcelo respondeu: “Isso já não se usa”. O termo era utilizado para definir Américo Tomás, no tempo do Estado Novo, como um presidente figurativo em quem o Governo mandava. Ora, esse não é o estilo do Presidente Marcelo.

Um Presidente que também não esquece os equilíbrios. Aterrou no arquipélago sem um pingo de chuva. Que foi muito mais escassa do que previam as condições meteorológicas. O Presidente mantém Costa debaixo de olho — o tal aviso laranja — mas não quer falar sobre a estabilidade governativa nem coesão da “geringonça”. E para isso usou a meteorologia. Sobre se preferia uma moção de confiança em vez de censura, foi claro: “Se não está a chover, não vamos agora chover no molhado. Sei que gostam imenso de voltar atrás e repisar os temas, mas [o chumbo da moção] é mais do que suficiente”.

Mas Marcelo já faz a contagem decrescente, ao jeito de “é só mais um pouco do atual Governo”. O Presidente lembrou que “o Governo tem pela frente até ao fim do seu mandato, até ao fim da legislatura, já menos de dois anos. Nesse ano e onze meses, além de outros objetivos fundamentais para o país, há uma nova prioridade instante [combate aos incêndios], e que os acontecimentos tornaram ainda mais urgente ou mais premente”. Ou seja: Marcelo avisa que vai ficar de olho no Governo.

E chama a oposição a jogo. O Presidente da República acredita que a discussão em torno da floresta e dos incêndios “é uma a tarefa que vai mobilizar não apenas o Governo”, mas espera que também “um conjunto amplo de partidos políticos e de parceiros económicos e sociais num quadro de um verdadeiro pacto”. E, aí mandou uma indireta aos que no PSD não querem o partido a fazer “pactos” (com a força semântica que a palavra “pactos” tem), ao acrescentar outros sinónimos: “Consenso, convergência, regime, chamem-lhe o que quiserem. E é isso que neste momento nos deve motivar: ver que medidas serão e como serão executadas.”

Na rua, Marcelo voltou a ser estrela. Até quem protesta o aplaude. À chegada ao Centro de Formação Aeronáutica, 50 professores esperavam Marcelo para protestar contra a colocação de professores. O Presidente fez questão de cumprimentar todos. Um a um. Esperasse quem esperasse. Limitou-se a dizer-lhes “obrigado”. Quando chegou ao fim da fila e se afastou, todos o aplaudiram. Tem sido assim por todo o país. Manifestações pacíficas, só com sorrisos para o Presidente.

Dentro do centro aeronáutico, Marcelo mostrou-se sempre muito interessado. Numa das demonstrações que fez, até tirou uma tampa com estrondo. Saltou literalmente a tampa. E Marcelo criticou o cicerone: “Mandou-me puxar com força eu puxei”. No fim, fez questão de compor tudo como se fosse um lego. “Deixe estar que depois nós colocamos”, disse o responsável do espaço. Mas Marcelo não se conteve. “Não. Eu ponho a tampinha, eu ponho a tampinha”. E pôs.

Apesar da parafernália. Já não há mergulhos no Tejo. Havia uma simulação de saída de um avião em caso de emergência. Muitos, nas comitivas, perguntaram: O Presidente vai descer? Os seguranças e os assessores foram claros: “Não”. Até à última, com Marcelo, nunca se sabe. Marcelo ainda subiu as escadas para o falso avião, espreitou cá para baixo, mas conteve-se. Desta vez, foi institucional. Informal, mas não tanto.

O 10 de junho nos Açores (e no país de Trump)

Se com o Governo da República — é assim que o Governo nacional é referido nas ilhas — as relações estão piores, Marcelo continua num clima de entendimento com Vasco Cordeiro. O presidente do Governo regional lembrou que tinha sugerido que, além dos Estados Unidos, o próximo 10 de junho fosse comemorado também nos Açores. Marcelo anunciou esta quarta-feira que ia fazer a vontade ao socialista. As comemorações do 10 de junho de 2018 serão assim nos Açores e nos Estados Unidos, onde os açorianos são maioritários na comunidade portuguesa.