“Todos os Sonhos do Mundo”

É a primeira vez que a realizadora francesa de ascendência portuguesa Laurence Ferreira Barbosa (“As Pessoas Normais não Têm Nada de Especial”, “Odeio o Amor”) vem fazer um filme a Portugal, e o tema de “Todos os Sonhos do Mundo” tem precisamente a ver com a lusodescendência. Paméla (interpretada pela estreante Paméla Ramos), filha de emigrantes em França, é uma jovem com uma forte ligação ao país dos pais e passa sempre as férias de Verão com estes e a irmã mais velha na aldeia onde nasceram. Mas em França, onde acabou o liceu, anda numa inquietação à procura de perceber o que quer fazer na vida, e apesar de respeitar os progenitores e de partilhar os seus valores, não quer que sejam eles a determinar o seu futuro.

Dividindo a rodagem entre França e o nosso país, e recorrendo quase unicamente a actores não-profissionais, Laurence Ferreira Barbosa (cuja entrevista pode ler aqui) assina um filme sensível, inteligente e cheio de compreensão pelas suas personagens, sem caricaturas nem estereótipos (estamos longe de “A Gaiola Dourada”), sobre aquilo que une e divide as diferentes gerações da lusodescendência em França, os que viram as costas a Portugal e os que o acarinham, e sobre uma rapariga cheia de sonhos e posta entre dois mundos, mas que não abdica de nenhum deles.

“O Outro Lado da Esperança”

O finlandês Aki Kaurismaki cruza duas histórias no seu novo filme: a de um vendedor de camisas de Helsínquia que passa o negócio e compra um restaurante, e a de um refugiado sírio ao qual não é concedido asilo político e foge do abrigo onde foi colocado pelas autoridades finlandesas. “O Outro Lado da Esperança” é, mais uma vez, Kaurismaki chapado, dos diálogos lacónicos e do humor de cara séria e com um toque “nonsense” (as sucessivas metamorfoses “étnicas” do restaurante) ao estilo directo e de câmara teimosamente fixa, mais a banda sonora cheia de rock e “blues” dos anos 50 e um punhado de actores que já são família. E como sempre, o mundo tal como o realizador o descreve é bruto e duro, mas há pessoas com compaixão e decência que servem de contrapeso. O único senão da fita é o seu simplismo político e ingenuidade humanista, ainda por cima numa altura em que os terroristas islâmicos entram na Europa sob a capa de refugiados.

“Thor: Ragnarok”

O terceiro filme da série da Marvel dedicado ao Deus do Trovão da mitologia nórdica é, inesperadamente, assinado realizador e actor neozelandês Taika Waititi, mais conhecido pelos seus filmezinhos “indie” (“Eagle vs Shark”, “O Que Fazemos nas Sombras”) e frequentador habitual de festivais da especialidade como Sundance. E Waititi injecta sentido de humor, comédia, auto-irrisão, num género que prima pela solenidade banhuda e pela auto-importância oca. Por isso é que em “Thor: Ragnarok”, o Thor de Chris Hemsworth perde o seu fiel martelo mágico e os seus longos cabelos louros, Hulk perde a memória, Loki que tem que dar uma ajuda para salvar o dia e o filme é puxado para a banda de “Guardiões da Galáxia”. “Thor: Ragnarok” foi escolhido pelo Observador como filme da semana, e pode ler a crítica aqui.