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Incêndios

Pirocumulonimbo, a monstruosa e rara tempestade que se repetiu a 15 de outubro

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Nunca tinha sido registado mais do que uma vez no mesmo ano e no mesmo país. Mas pode ser o motor que explica como é que os incêndios de 15 de outubro foram tão poderosos. Chama-se pirocumulonimbo.

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Os incêndios que deflagraram entre a Pampilhosa da Serra e a Sertã a 15 de outubro podem ter-se propagando mais rapidamente por causa de uma tempestade semelhante àquela que agravou os fogos de Pedrógão Grande em junho: o pirocumulonimbo, uma nuvem de dimensões gigantescas que pode acontecer quando há interação de um incêndio com a atmosfera. Mas este é um fenómeno raro, explicou ao Observador o investigador Paulo Fernandes: nunca tinha sido registado duas vezes no mesmo país e no mesmo ano. E pode ter servido de catalisador dos fogos na zona centro do país.

Fenómenos como este ocorrem se um incêndio interage com a atmosfera quando ela está muito instável, tal como aconteceu em Pedrogão Grande. Quando a atmosfera oferece pouca resistência à subida do ar, uma grande nuvem de desenvolvimento vertical pode atingir mais do que 10 quilómetros de altitude e com ela arrastar enormes quantidades de energia libertadas pelo fogo. O pirocumulonimbo foi observado em fotografias e dados atmosféricos recolhidos em Pedrogão Grande, onde esta nuvem atingiu os 14 quilómetros de altitude e deu origem ao downburst, os ventos de grande intensidade que se movem de cima para baixo e depois se espalham em todas as direções ao chegar ao solo, ao encontrar uma frente fria. Agora, Paulo Fernandes — perito da Comissão Técnica Independente que estudaram os acontecimentos de junho — diz que tudo se pode ter repetido na zona centro do país, quatro meses depois.

Para que uma nuvem pirocumulonimbo aconteça não basta que haja um incêndio e uma atmosfera instável. Conforme explicou Paulo Fernandes ao Observador, é preciso uma grande quantidade de biomassa para arder (que serve como combustível), um teor de humidade muito baixo, ventos muito fortes e um terreno inclinado.

Todas essas condições estavam reunidas nos locais afetados pelos incêndios a 15 de outubro: havia uma grande área florestal em chamas, a vegetação estava muito seca por causa do calor, a humidade no ar rondava os 15%, os terrenos eram inclinados e o furacão Ophelia havia criado ventos fortes que chegaram a ultrapassar os 100 km/h de velocidade.

O pirocumulonimbo não está na origem dos incêndios de 15 de outubro, mas pode ter surgido em consequência deles e torná-los ainda mais colossais: quando os fogos ficam à mercê de tempestades como estas tornam-se “menos previsíveis, com maior capacidade de propagação e com maior probabilidade de emitir projeções” que os expandam ainda mais, descreve Paulo Fernandes.

Além disso, também tornam os incêndios mais turbulentos porque se alimentam dos ventos vindos da tempestade e criam ainda mais correntes de ar. Tudo isso coincide com os testemunhos que o investigador recolheu nas regiões afetadas pelos fogos: por lá, a população fala de ventos muito fortes, árvores com troncos largos partidas ao meio, persianas arrancadas das janelas e enroladas a árvores a longas distâncias e em raios no meio dos incêndios. No entanto, são precisos mais estudos para chegar a conclusões sobre o que aconteceu nos incêndios de há duas semanas.

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