Filipe Augusto lesionou-se no aquecimento, Douglas e Samaris fizeram penáltis desnecessários, Raúl Jiménez atirou um brinde ao poste. Visto assim, podia acontecer mais alguma coisa? Podia: Svilar, que tinha travado o primeiro castigo máximo, ainda fez outro autogolo que adiantou o Manchester United em cima do intervalo.

Esta é a história do estranho caso do Benfica, o Dr. Jekyll que anda com o Mr. Hyde escondido nas costas (com uns pozinhos de Lei de Murphy pelo meio a adensar a parte cénica, mas neste caso é uma ideia que tanto se pode aplicar à bola que deu o primeiro golo aos red devils como à facilidade com que a defesa se consegue perder na profundidade) na derrota por 2-0 no Teatro dos Sonhos, Old Trafford. Mas esta também é a história de uma equipa que se estava a tentar habituar a marcar presença na fase a eliminar da Champions e, em quatro jogos, tem mais autogolos do guarda-redes do que golos na baliza adversária.

Rui Vitória não ficou convencido com a derrota na Luz há duas semanas e voltou a apostar na mesma estrutura em Inglaterra, com a colocação de três médios e um avançado mais móvel na frente. Ainda assim, teve de jogar o seu plano B antes do início do encontro com a lesão de Filipe Augusto e a entrada de Samaris no onze inicial. Mais uma alteração forçada entre outras que tinham promovido a chamada de Douglas e Jardel ao jogo pelos castigos de André Almeida e Luisão. Mas não foi por aqui que o Benfica perdeu com os red devils.

Ficha de jogo

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Man. United-Benfica, 2-0

4.ª jornada do grupo A da Liga dos Campeões

Old Trafford, em Manchester

Árbitro: Gediminas Mazeika (Lituânia)

Man. United: David De Gea; Darmian, Bailly, Smalling, Daley Blind; McTominay, Matic; Juan Mata (Herrera, 68’), Lingard (Mkhitaryan, 46’), Martial (Rashford, 75’) e Lukaku

Suplentes não utilizados: Romero, Lindelöf, Luke Shaw e Ashley Young

Treinador: José Mourinho

Benfica: Svilar; Douglas, Jardel, Rúben Dias, Grimaldo (Eliseu, 64’); Fejsa, Samaris, Pizzi (Jonas, 78’); Salvio, Diogo Gonçalves e Raúl Jiménez (Seferovic, 74’)

Suplentes não utilizados: Júlio César, Lisandro López, Cervi e Zivkovic

Treinador: Rui Vitória

Golos: Svilar (45’, p.b.) e Blind (78’, g.p.)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Rúben Dias (6’), Bailly (24’), Lingard (26’), Salvio (69’) e Samaris (77’)

Martial, com um livre direto que passou por cima da trave de Svilar, deixou o primeiro aviso (7′), mas seria Samaris, o grego que quando está sem confiança parece ter alergia à baliza, a fazer das fraquezas forças e a arrancar o remate inicial com algum perigo à baliza de De Gea (8′). O jogo estava equilibrado (embora nem sempre bem jogado) e o jovem guarda-redes encarnado fez questão que assim continuasse depois de um disparate de Douglas, que voltou a cair nas fintas de Martial (neste caso, literalmente) e cortou uma bola com a mão na área quando estava no chão. No duelo francófono entre miúdos, o belga travou a tentativa do francês e manteve o nulo (15′).

Foi um tónico importante para os encarnados (que jogaram de cinzento). Tão importante que, em muitos períodos da metade inicial, os comandados de Rui Vitória ganharam o corredor central, bloquearam as principais zonas de construção do adversário e conseguiram circular bola para o mais inspirado de todos, Diogo Gonçalves. E a primeira iniciativa do miúdo não podia ter corrido melhor: jogada da esquerda para o meio, remate em arco ao ângulo e fantástica parada do espanhol De Gea (18′).

O Manchester United era mais forte na capacidade que tinha em chegar à área quando metia as transições, o Benfica aguentava o jogo com mais bola, esticando o jogo, mas à procura de uma profundidade que andou sempre perdida (e quando Pizzi, por exemplo, conseguia fazer diagonais entre linhas, ou o passe saía comprido ou o médio era abalroado por Bailly, como aconteceu num lance onde, havendo o mesmo critério, podia ter sido marcada outra grande penalidade). Perigo, só dos red devils: Lukaku obrigou Svilar a nova intervenção apertada antes de cabecear em zona privilegiada por cima (30′ e 32′), Martial também andava desafinado (42′).

Estávamos a caminho do intervalo, mas o azar estava prestes a bater à porta. E sim, aqui não há outro tema possível a não ser azar: Matic rematou forte e rasteiro fora da área, a bola embate no poste, ressaltou nas costas de Svilar e encaminhou-se para a baliza das águias (45′). Se no encontro na Luz o autogolo tinha sido um claro erro próprio, aqui foi mesmo falta de sorte. Mas as que contam são as que entram e, no resultado, marcava 1-0.

No segundo tempo, as equipas pareceram entrar mais desligadas, às vezes deixando até quebrar o jogo, até que apareceu de novo o miúdo Diogo Gonçalves com pelo na venta de meter inveja a muitos dos “homens” que por ali andavam (e aqui é impossível passar ao lado da pobre exibição de Douglas), a atirar forte de fora da área para nova grande parada de De Gea (60′). Parecia que a bola não queria entrar, mas cinco minutos depois veio essa certeza: aproveitando uma balda de Bailly à entrada da área, Jiménez recuperou a bola mas acertou no poste.

Estávamos a chegar ao momento de todas as decisões, aos 15 minutos finais onde claramente Rui Vitória ia apostar tudo (já tinha trocado Raúl Jiménez por Seferovic). Mas foi nessa altura que o Benfica sofreu o segundo golo, com Rashford a agarrar na bola na esquerda, a furar rumo à área e a sofrer um toque desnecessário de Samaris. Houve uma conferência, Blind ficou como o marcador e desta vez não falhou, elevando para 2-0 (78′). Jonas entrou pouco depois para o lugar de Pizzi, mas a história já estava contada e não mais se ia alterar.

Como se percebe, aconteceu um pouco de tudo. Mas não foi em Old Trafford que o Benfica perdeu a hipótese de chegar aos oitavos-de-final da Champions: foi na derrota caseira com o CSKA Moscovo, um adversário ao alcance dos encarnados; foi na goleada sofrida em Basileia, um adversário ao alcance dos encarnados. Agora, as águias, que somam quatro derrotas noutros tantos encontros, têm de vencer os últimos dois jogos e com uma conjugação cósmica de resultados quase impossíveis para ficar na Europa. Mas se o Dr. Jekyll continuar a andar com o Mr. Hyde escondido nas costas, o melhor mesmo é concentrar baterias no Campeonato…