O BCP apresentou nesta segunda-feira lucros de 133,3 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, que comparam com prejuízos de 251 milhões de euros registados no mesmo período do ano passado. O banco não teve de fazer tantas provisões como no ano passado — cerca de metade, 629 milhões — e beneficiou de uma subida da margem financeira que se justifica pelo desaparecimento do empréstimo estatal e pela descida do custo dos depósitos.

A informação foi comunicada à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e foi apresentada pelo presidente-executivo do banco, Nuno Amado, em conferência de imprensa em Lisboa. Nuno Amado está em final de mandato (termina em dezembro) e, questionado pelo Observador à margem da conferência de imprensa, o responsável indicou, sobre a possível continuidade, que “é preciso perguntar aos acionistas” mas disse acreditar que “há vontade” para que o presidente-executivo do banco possa continuar à frente do banco.

A principal explicação para a subida dos lucros (face aos prejuízos do ano passado) é o aumento da margem financeira, a diferença entre o que o banco recebe pelos juros cobrados e o que paga pelo seu financiamento (depósitos, BCE, etc). A amortização da última tranche do empréstimo público, que tinha juros onerosos perto de 10%, ajuda a que a margem financeira tenha aumentado, bem como a descida dos custos dos depósitos: a margem financeira subiu 9% em Portugal e 18,5% nas operações internacionais.

Somando a margem financeira com as comissões (400 milhões, +2,1%), e subtraindo os custos operacionais, chegamos ao que o banco chamada de resultado “core”, ou seja, nuclear. Esse resultado aumentou de 665,8 milhões para 823 milhões, o que teve um impacto de 157 milhões nos resultados líquidos (que foram de 133,3 milhões).

Por outro lado, o BCP registou cerca de metade das imparidades e provisões que tinha feito nos primeiros nove meses de 2016: 629 milhões de euros colocados de lado até setembro de 2017 para ajudar o banco a reduzir os ativos não-rentáveis. Nos primeiros nove meses, a “limpeza” tinha envolvido provisões superiores a 1.100 milhões de euros.

BCP reduz exposição a ativos não-rentáveis

O banco tem procurado reduzir a exposição a ativos não rentáveis, nomeadamente créditos em incumprimento. Gráfico: BCP

O banco salientou que o valor em créditos e outras exposições não rentáveis baixou em 1,4 mil milhões — para um valor na ordem dos 7,2 mil milhões. Nuno Amado sublinhou que esse valor, “crucial”, já está abaixo dos 7,5 mil milhões que eram o objetivo do banco para o final de 2017.

As comissões aumentaram 2,1% e superaram a fasquia dos 400 milhões de euros, numa tendência que é comum a todos os bancos do setor. E onde são cobradas essas comissões? 115 milhões com cartões e transferências, 118 milhões com crédito e garantias, 71 milhões com bancassurance, 67 milhões com contas e 26 milhões com “outras comissões”.

“Demasiados custos” com contribuições para fundos nacionais/europeus

Tal como na conferência de imprensa do trimestre anterior, Nuno Amado insurgiu-se contra os custos que os bancos têm de suportar com o fundo de resolução português (que “resolveu” o BES e o Banif), com o fundo de resolução europeu e com o fundo de garantia de depósitos. Nas contas destes nove meses já estão contabilizados 58 milhões para estas rubricas, um custo “demasiado” elevado que pesa nas contas do banco e que Nuno Amado espera ver ajustado, um dia.

A este propósito, o presidente-executivo lembrou que, “ao contrário do que por vezes se lê, o BCP entre juros e comissões contribuiu com mais de 1.000 milhões de euros” para o erário público, com os juros que pagou pelo empréstimo estatal concedido durante o programa da troika.

“Estamos a trabalhar para ser o maior banco privado com base em Portugal, com estrutura acionista equilibrada e uma situação patrimonial robusta”, afirmou Nuno Amado, sublinhando que está a ser possível ter “sucesso na implementação do plano de redução de exposições não-rentáveis”.

Num comentário importante para os acionistas, o presidente do BCP indicou que não está nos planos atuais distribuir dividendos a partir destes lucros.

Nuno Amado comentou, ainda, o Orçamento do Estado dizendo que é “indispensável que haja uma redução da dívida face ao PIB” e sugeriu a criação de um calendário de objetivos de redução da dívida pública, independentemente dos partidos ou das políticas. “Ninguém quer voltar a passar” pelo que passou no passado, disse Nuno Amado.