Os pais de Rodney são de Antígua, os de Emine têm raízes turco-cipiotras. O filho de ambos, que devia ter sido registado como Colin-Kazim Richards mas ficou Colin Kazim-Richards por engano do responsável que estava ao serviço (é mesmo assim, o erro foi na hifenização), nasceu em Leytonstone, Londres. Mas é internacional turco. E acaba de sagrar-se campeão brasileiro pelo Corinthians. Bem-vindo ao livro de aventuras do avançado que foi durante muitos anos conhecido pela alcunha do “miúdo da Coca-Cola”.

“Não sou o miúdo da Coca-Cola, sou o Colin Kazim-Richards. Não gosto disso porque é tudo o que as pessoas parecem saber dizer”, destacou em entrevista à Four Four Two.

Não, não se trata de nenhuma ligação a uma publicidade ou a um concurso de técnica individual. Mas também não andamos longe: depois de ter começado a jogar futebol aos nove anos no modesto Interwood, e das passagens por Queens Park Rangers e Arsenal, Kazim-Richards acabou por ser dispensado e estreou-se como sénior aos 17 anos no Bury. Fez uma grande temporada, despertou o interesse de clubes maiores mas acabou no Brighton & Hove Albion por 250 mil libras pagas pela marca de refrigerantes.

Como explicava uma reportagem da Folha no início de outubro, as coisas em Bury nem sempre foram fáceis, fosse pela pressão de não ter propriamente uma vida desafogada em termos financeiros, fosse pelo comportamento dos próprios companheiros, que lhe cortavam os atacadores e faziam furos nas calças enquanto treinava. Mais tarde, por ser um dos poucos negros em Bury, considerou tratar-se já de racismo.

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Patrocínio? Investimento? Não, concurso. Nessa altura, havia um sorteio onde o clube do vencedor poderia ter essa verba à disposição para contratar esse jogador e, por sorte, Aaron Berry era do Brighton & Hove Albion. O jovem Kazim-Richards foi o escolhido, mas nem chegou a aquecer o lugar: um ano depois, rumou ao Sheffield United. E foi no final dessa temporada que abriu uma década de mala às costas, naturalizado turco.

“Respeito Inglaterra. Não é que tenha dado nada aos meus pais, mas foram uma plataforma e a partir cabia-nos a nós fazer algo com isso. 95% falhou nisso, eu tenho sorte porque o meu pai e a minha mãe foram persistentes comigo e consegui fazer algo da vida, mas muitos dos meus primos e amigos estão presos ou mortos”, disse ao The Guardian.

O avançado transferiu-se para os turcos do Fenerbahçe em 2007 (ganharia a primeira de 37 internacionalizações nesse ano), afirmou-se em definitivo mas, em 2010, acabou por ser traído por uma mentira: após notícias que davam conta de uma saída noturna num dia em que a equipa jogava (estava castigado, por isso ficou fora dos convocados), a direção do clube lançou um comunicado a desmentir o caso depois de falar com o jogador mas, no dia seguinte, surgiram fotografias que mostravam o contrário. Por isso, o internacional foi emprestado aos franceses do Toulouse seis meses. Regressou, o Fenerbahçe não renovou contrato e foi o primeiro jogador a transferir-se de forma direta para o rival Galatasaray, num misto de coragem… e loucura.

Por não ser titular indiscutível e querer mais minutos, esteve ainda cedido aos gregos do Olympiacos (sagrou-se campeão) e aos ingleses do Blackburn antes de assinar pelo terceiro clube turco da carreira, o Bursaspor. Seguiram-se passagens por Feyenoord (Holanda) e Celtic (Escócia, onde ganhou o Campeonato), rumou ao Coritiba e sagrou-se agora pelo Corinthians em ano de estreia, onde serviu de reserva do artilheiro-mor Jô.

Casado com uma brasileira que trabalhava no aeroporto de Genebra (cruzaram-se numa viagem do Fenerbahçe à Suíça, em 2009), Kazim-Richards está na 13.ª equipa que representou em sete países distintos, desta vez com o sucesso que nunca tive antes: juntou agora o Campeonato do Brasil ao Campeonato Paulista.

O jogador tem um passado complicado e marcado por algumas tragédias: o irmão que sofria de Síndrome de Edwards e morreu quando Colin tinha três anos; entre os três primos mais próximos, um teve um ataque cardíaco a jogar futebol, outro morreu de acidente de viação e outro teve uma hemorragia cerebral. É por isso que Kazim-Richards dá tanto valor à vida. E, no Brasil, sente-se agora, com 31 anos, feliz e realizado.