Os filmes de super-heróis sucedem-se e repetem-se. Sejam da Marvel ou da DC, contam todos a mesma história. Um super-herói, ou um grupo de super-heróis, combate(m) um vilão que pode ser extraterrestre, mais para o sobrenatural ou para o “high tech”, ou então de carne e osso, que ameaça a Terra e/ou o planeta/local de origem de um (ou mais) dos super-heróis. Estes, depois de andarem às turras uns com os outros ou de meditarem gravemente sobre a sua condição e/ou o seu lugar na ordem das coisas, juntam-se, enfrentam e derrotam a(s) ameaça(s) e ficam à espera do que lhes darão para fazer no próximo filme. Que será, está claro, muito parecido com aquele que acabaram de protagonizar.

[Veja o “trailer” de “Liga da Justiça”]

Este “Liga da Justiça”, de Zack Snyder (que só rodou parte do filme e saiu do projecto devido ao suicídio de uma das filhas, sendo substituído por Joss Whedon) segue à risca este Modelo 1 (e único) dos filmes do género. A ameaça à Terra chama-se aqui Steppenwolf, uma criatura alienígena de características demoníacas que comanda um exército de criaturas robótico-insectóides, os Parademónios, é interpretada em “motion capture” por Ciarán Hinds e anda à procura de três caixas criadas por uma tecnologia superior, que, juntas, conferem um poder inimaginável a quem as tiver. E como costuma acontecer com estes vilões de topo de gama da maldade, Steppenwolf tem uma voz cava de quem precisa urgentemente de chupar uma embalagem inteira de rebuçados do Dr. Bayard.

[Veja as entrevistas com os seis principais intérpretes]

Com o fim de enfrentar o chifrudo Steppenwolf e os seus horrores alados, Batman (Ben Affleck, sempre canastrão esteja ou não a usar o uniforme do Homem-Morcego) convence a Mulher-Maravilha (Gal Gadot), Flash (Ezra Miller), Cyborg (Ray Fisher) e Aquaman (Jason Momoa) a formar a Liga da Justiça, que é uma espécie de geringonça de super-heróis, só que competente, desinteressada, com verdadeiro sentido do serviço público e agradável à vista – sobretudo Gal Gadot, que deixa as irmãs Mortágua a anos-luz de distância. Lá para a frente no enredo, a Liga da Justiça vai receber um sexto membro, que toda a gente, mesmo quem segue estes filmes só por alto já adivinhou quem é, porque a surpresa não é o forte deste formato cinematográfico. (A propósito, Henry Cavill personifica o melhor Super-Homem desde Christopher Reeve).

[Veja imagens do filme]

https://youtu.be/n3ZIxIWGJ8I

De resto, é o chover no molhado digital e vistoso que um orçamento de 300 milhões de dólares permite. O vilão farta-se de fazer basófia antes de levar o que está mesmo a pedir, os super-heróis picam-se uns aos outros e gerem as suas questiúnculas pessoais antes de porem mãos à obra e tudo se resolve com a habitual espectacularidade monótona, barulhenta e destruidora movida a efeitos especiais, obra de uma legião de técnicos que prolongam cada vez mais a duração dos créditos finais. Jeremy Irons surge de novo num impassível Alfred cuja competência se estende da copa à coordenação da alta tecnologia produzida pelas empresas de Bruce Wayne, e Amy Adams continua a ser a melhor Lois Lane de todas.

[Veja os bastidores de “Liga da Justiça”]

Saliente-se que “Liga da Justiça” tem uma inverosimilhança imperdoável. Steppenwolf instala a sua hedionda base na Rússia, no coração de uma central nuclear desactivada, algo a que o presidente Putin reagiria de imediato enviando uns caças e lançando uns quantos mísseis nucleares. Ora no filme, não há nem sombra do governo russo ou das suas forças armadas. Na ficção como na realidade, os EUA continuam a menorizar e a desconsiderar grosseiramente o Kremlin. A fita termina com cenas dos próximos capítulos, que anunciam o regresso de um velho conhecido, e já dá mesmo para adivinhar o que aí vem. Ou não estivéssemos no previsível, familiar e repetitivo mundo dos filmes de super-heróis.