Ainda se lembra daquele jogo que os miúdos fazem com uma série de papelinhos com nomes num saco que vão sendo tirados como sorteio? Agora imagine que em vez de nomes estavam empresas, negócios ou quadros de Van Gogh ou Picasso: foi dessa forma que os irmãos Eyal e Iden dividiram a fortuna (e que fortuna…) do pai, Sammy Ofer, quando morreu em 2011. Assim não houve zangas nem chatices. E, hoje, ambos são dos homens mais ricos entre israelitas. Nem um nem outro tinham qualquer ligação ao futebol e ao desporto até agora – Iden Ofer é o novo acionista do Atl. Madrid.

Numa altura menos confortável para a tesouraria dos colchoneros (só o novo estádio Wanda Metropolitano custou mais de 300 milhões de euros), e com a dívida a ascender aos 483 milhões de euros – que será reduzida de forma substancial quando os responsáveis fecharem a venda dos terrenos do antigo recinto Vicente Calderón, que irão render entre 150 e 200 milhões de euros –, o israelita agora radicado em Londres avançou com 50 milhões de euros para um aumento de capital que alterou as percentagens detidas pelos proprietários: a dupla Miguel Ángel Gil e Enrique Cerezo ficaram com cerca de dois terços das ações; o grupo chinês Wanda, liderado por Wan Jianling, passa a ter 18%; e Ofer assegura 15%, provavelmente através da Quantum Pacific.

Mas o apoio do novo acionista não ficará por aqui: além dos 50 milhões de euros já investidos, deverá entrar com mais 50 milhões, provavelmente na forma de patrocínio, como acontece no caso da Wanda que paga dez milhões por ano pelo naming do novo recinto. Curiosamente, o Atl. Madrid já tinha uma ligação a Israel através do main sponsor da camisola, a Plus 500, que acordou desembolsar 42,5 milhões de euros por quatro temporadas, de acordo com a informação publicada esta quinta-feira pelo El País.

Ainda assim, entende-se o porquê desta operação por parte do conjunto da capital espanhola (além da injeção de dinheiro, há a possibilidade de entrar com mais força e implementar-se no mercado americano), mas ninguém conseguiu ainda perceber o interesse de Ofer pelo clube e por futebol. Só havia uma ligação do milionário ao desporto conhecida: pagou 600 mil euros pela réplica da Bola de Ouro ganha por Cristiano Ronaldo em 2013 no âmbito da gala solidária “Make a Wish”. Mais do que isso, nada que alguém saiba.

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Dono de uma da maiores frotas de embarcações do mundo, Idan Ofer, de 62 anos, tem negócios ligados às infraestruturas, aos recursos normais e às telecomunicações, como explica um perfil do El Mundo. E, apesar da análise do Financial Times que defendia que “as segundas gerações de multimilionários nunca geram muita simpatia”, a verdade é que o israelita é alguém reconhecido pela positiva na sociedade, sobretudo pelas doações que está acostumado a fazer (com os 40 milhões de dólares à London Business School, onde estudou depois de ter saído da Universidade de Haifa) e pela tentativa de ajudar no processo de paz entre Israel e Palestina.

A viver em Londres, após passagens por Ásia, Nova Iorque e um regresso ao país de nascença para liderar a Israel Corp., um grupo de empresas estatais, o nome de Idan Ofer apareceu no escândalo dos Panamá Papers, por ter uma companhia no paraíso fiscal nas Ilhas Virgens Britânicas. Recentemente, o jornal israelita Haaretz ligou-o também ao recente Paradise Papers, embora não tenha adiantado grandes pormenores sobre o assunto.