Carvão e água, a receita básica que sustenta uma locomotiva a vapor. Na frente, sujo e de ingrato fato-macaco, o maquinista insiste com a pá, mantendo a segurança da viagem em velocidade cruzeiro. Entre os passageiros está um puto eterno de calções aos rodopios, pé-coxinho, a entreter a malta com solos gloriosos de duas notas ou com todas as notas.

Dia 18 de novembro, a locomotiva parou e os sinos do inferno ressoam para receber Malcolm Young, motor e líder dos AC/DC, que chega sem paragens ou limite de velocidade, como quem sempre anunciou acelerar. A banda já não era a mesma, não depois da saída de Brian Johnson, deste irmão Young e das substituições de baterista e vocalista (Axl Rose incluído na confusão). Tudo infernal mas não fiquem tristes. Se Malcolm nos ensinou alguma coisa é que esse lugar dantesco é questão de perspetiva — e sobretudo, um fabuloso estado de espírito. Afinal, “Hell ain’t a bad place to be”.

Em junho de 2009, o comboio descarrilado passava pelo palco do estádio de Alvalade, em Lisboa. Apesar do boné de maquinista ser marca registada do vocalista Brian Johnson, a tarefa árdua de locomover e dirigir os instrumentos estava no homem imóvel de manga cava, que assim de relance, até podia ser o nosso mecânico de Carnide. A batida estável, segura e previsível abria o espaço para o irmão caçula, Angus Young, ser o herói da guitarra que nasceu para ser — com a menor quantidade de acordes possíveis, pois os heróis não se medem aos palmos, muito menos aos acordes.

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Hoje sabemos que essa digressão com o cenário do comboio fora dos carris foi a última de Malcolm, que nas gravações do álbum Black Ice, de 2008, apresentava os primeiros sinais de demência, que o afastaram definitivamente do grupo em 2014.

“Não existe ninguém como ele [Malcolm]”, confessou Slash no ano passado, para a revista Guitar Player. “Vejam, até o Keith Richards o adora, o Keith Richards odeia toda a gente”.

Na aparente prisão de trabalhar apenas numa fórmula de progressão blues, ao lado do icónico irmão, Malcolm demonstrou como a mesma receita pode ser servida sempre de maneira diferente ao freguês, mas também sempre igual. Uma variedade de riffs que se confundem uns com os outros e que, ao mesmo tempo, conseguiram lugar garantido no Olimpo imortal das canções cujos primeiros acordes as denunciam de imediato.

Começamos o air guitar e o aceno complacente com cara de mau para o colega de lado. Sempre foi assim com os AC/DC e a culpa (também) é de Malcolm Young. “Back in Black”, “Highway to Hell”, “Thunderstruck”, “Whole Lotta Rosie”, “Let There Be Rock”, venha o diabo e escolha: e ele vem mesmo, normalmente a cantar rimas pouco líricas, nada educadas, até de mau gosto. Sempre sobre sexo e mulheres, sempre com zero de gentileza. Primeiro com as letras do falecido Bon Scott e depois com o célebre substituto, Brian Johnson.

“As canções deles são populadas por strippers, prostitutas e homens jovens com ereções inquebráveis. Eles são mesmo horríveis. Man, eu adoro AC/DC”. O testemunho de uma fã para o Guardian é tão fácil como é verdadeiro. Ou seja, concentremo-nos sobretudo nas guitarradas e menos nos trocadilhos do marinheiro perdido na costa, Bon Scott. Ou então não. A obsessão dos irmãos Young pelas mulheres é uma narrativa possível para explicar a vontade dos dois em pegar nas guitarras e conquistar o mundo, ou no mínimo, Sydney, Austrália, onde moravam com o irmão mais velho, George Young, que morreu no mês passado.

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Além de ser o produtor de grande parte dos álbuns da banda, George Young era dos Easybeats, banda fundamental de rock australiano, conseguindo o feito de ter um hit de sucesso na Swinging London dos anos 60, abrindo um importante precedente para os irmãos.

Resumindo, George era um ídolo adolescente na Austrália, e os dois irmãos cresceram rodeados de groupies, acampadas em frente à casa dos pais — onde, convém dizer, ainda coabitavam outros cinco irmãos. A família gerou ainda, entre outros, o sobrinho Stevie Young, que vestiu a roupa de maquinista de Malcolm na última visita da banda em Portugal.

Na casa dos pais era muita parra e pouca uva, porque aos irrequietos irmãos as groupies não ligavam nenhuma. A solução foi formar uma banda e compor o próprio material, com o aval de George, que entretanto desiste da vida de pop star e decide servir de mentor, incorporando Bon Scott na formação, essencial para colocar palavras suficientemente bem-dispostas na conversa de guitarras entre Malcolm e Angus, diálogo esse que nunca procurou ser adulto.

George estava sempre ocupado com a produção, o negócio e a expansão da banda. Bon Scott queria encarnar da melhor forma possível o narrador das canções nas atitudes mais reprováveis que podemos imaginar. Angus, a criança gigante que até hoje usa o uniforme escolar, tinha o papel de prender a atenção da plateia, dar a estrelinha, o jogo bonito, pedindo em troca apenas leite e chocolates. Sobrava para Malcolm ser o trabalhador da banda, o Bill Wyman, o John Paul Jones, o George Harrison dos AC/DC. Sim, são tudo exageros, mas é para explicar a ideia: era ele quem arregaçava as mangas, marcava os horários dos ensaios, das gravações e encurralava no quarto o irmão elétrico “High Voltage” para comporem novo material.

Antes do sucesso, Malcolm trabalhava todos os dias numa fábrica de sutiãs. Tendo em conta o reportório da banda, obviamente faz todo o sentido, mas neste caso interessa mais porque lhe impôs uma mentalidade de operário que manteve toda a vida. Talvez para comprovar o papel de adulto na banda, alimentou durante anos uma muito madura dependência do álcool, que acabou por resolver no final dos anos 80, único período que esteve afastado do grupo.

Recordemos a formação de outros tempos. Um concerto dos AC/DC era um ritual com tantas surpresas como a missa de domingo: já conhecemos o reportório, o padre entra, amor ao próximo, hóstia, etc, e estão todos perdoados, que traduzindo em rock’n’ roll é Angus rodopiando no chão, nas cavalitas do vocalista, duck walking e, claro, o strip tease até ficar de cueca na canção de engate “The Jack”.

Durante a prima donna dos riffs, “Whole Lotta Rosie” (canção sobre a prostituta que “não é exatamente bonita” “nem exatamente pequena”), era esperado que o público participasse finalmente na cerimónia. Ta na na na na na, tocam de forma estridente os dois irmãos ao mesmo tempo, Ta na na na na na. “Angus”, responde sempre o público, “Angus”, combustível para o puto eterno correr desenfreadamente e ficar apenas uma pessoa ao fundo, imóvel, de fato-macaco, a colocar carvão na canção, ta na na na na na, o mesmo movimento mecânico até acabar o número, ta na na na na na.

https://www.youtube.com/watch?v=I479175fe4k

Uma proposta: que celebremos este dia, ouçamos novamente o riff inicial de “Whole Lotta Rosie” e, pelo menos por uma vez, entreguemos a canção ao maquinista, a peça crucial para mexer o comboio mais estável da história de rock. Ta na na na na na, “Malcolm”, ta na na na na na, “Malcolm!”

Malcolm Young foi compositor ou co-compositor de todas as canções incluídas neste artigo