Quando chegou ao Benfica vindo do Rio Ave, Filip Krovinovic não fugiu à habitual praxe do plantel do Benfica e, no estágio que os encarnados realizaram no Algarve, subiu a uma cadeira e revelou dotes de cantor com uma música de MC Kevinho. Imagina um croata a interpretar o “Quando ela bate com a bunda no chão”? Foi o que aconteceu. A adaptação ia decorrendo da melhor forma, mas um problema que o levou para a sala das operações acabou por atrasar o resto do processo: a afirmação. Algo que, passados uns meses, começa agora a aparecer.

Após um início abaixo do expectável não só no Campeonato mas também, ou sobretudo, na Liga dos Campeões, Rui Vitória utilizou o jogo de Guimarães para lançar o croata nas costas de Jonas, com a dupla função de ajudar um corredor central muito longe daquele que era composto por Fejsa e Pizzi e, em paralelo, como conferir outro tipo de movimentações no último terço envolvendo o goleador Jonas. Hoje, quando não se esperava, repetiu essa disposição. Tem coisas boas e más, mas é sobretudo um plano B candidato a ser a principal opção.

A verdade é que, no dia em que Jonas podia festejar o 100.º golo com a camisola do Benfica, tudo girou à volta de Krovinovic, o jogador a quem chamavam em Vila do Conde Crakinovic. Porque é por causa dele que os alas têm movimentos diferentes do que era normal e que o jogo ofensivo ganha muito maior mobilidade. Nem sempre resultou, é certo (e com Rafa a continuar a anos-luz do que já mostrou é complicado…), mas prometer ser uma aposta de Rui Vitória daqui para a frente, como primeiro ou segundo plano. E o croata cresce muito em termos de influência, como se viu nos terrenos que percorreu no lance que resultou no segundo golo do triunfo por 2-0.

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Ficha de jogo

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Benfica-V. Setúbal, 2-0

4.ª eliminatória da Taça de Portugal

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: João Capela

Benfica: Bruno Varela; Douglas, Luisão, Jardel, Grimaldo; Samaris (André Almeida, 86′), Pizzi (Keaton Parks, 71′), Krovinovic; Rafa, Cervi e Jonas (Raúl Jiménez, 82′)

Suplentes não utilizados: Paulo Lopes, Salvio, Gabriel Barbosa e Seferovic

Treinador: Rui Vitória

V. Setúbal: Cristiano; Arnold, Semedo (João Teixeira, 68′), Pedro Pinto, Nuno Pinto; Podstawski, André Sousa (Vasco Sousa, 65′), Nenê Bonilha; Costinha, João Amaral (Edinho, 81′) e Gonçalo Paciência

Suplentes não utilizados: Trigueira, André Pedrosa, Willyan e Bernardo Morgado

Treinador: José Couceiro

Golos: Cervi (25′) e Krovinovis (81′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Podstawski (36′) e Pizzi (45′)

O encontro começou movimentado e com uma entrada interessante do V. Setúbal, a procurar as costas de Luisão e Jardel para explorarem a velocidade das unidades mais ofensivas. Bonilla, num remate forte fora da área que passou perto da trave do regressado Bruno Varela, deixou o primeiro aviso. No entanto, o Benfica respondeu bem e, ainda antes da primeira metade, teve duas boas oportunidades para inaugurar o marcador, por Krovinovic (7′) e Jonas (16′), ambas bem travadas por Cristiano. Mas onde era certinho que os sadinos tremiam era mesmo nas bolas paradas (cantos ou livres), como se viria a confirmar poucos minutos depois.

Na sequência de um canto batido por Pizzi no lado direito do ataque, o lance estratégico preparado em treino saiu na perfeição e, após a simulação de Luisão deixando passar a bola por entre as pernas na área, Cervi encheu o pé esquerdo de fora da área e atirou sem hipóteses para Cristiano, inaugurando assim o marcador (25′).

Por norma, o grande mérito das equipas que conseguem causar surpresas com os grandes passa pelo retardar ao máximo do primeiro golo sofrido; no caso do V. Setúbal, essa resistência durou apenas 25 minutos. No entanto, os comandados de José Couceiro tiveram um enorme mérito na forma como nunca se desligaram do encontro nem desorganizaram setores, podendo mesmo empatar num remate de João Amaral ao lado (34′).

No segundo tempo, mantendo as linhas compactas e a exploração da profundidade, os sadinos conseguiram esticar mais o jogo e tiveram outra eficácia nas zonas de pressão que iam criando, o que permitia ter mais bola e em zonas mais avançadas. Logo a abrir, André Sousa (47′) e Gonçalo Paciência (48′) visaram a baliza de Varela, um dos melhores do Benfica; pouco depois, João Amaral (58′) e Arnold/Semedo (59′) não conseguiram marcar no lance mais perigoso até ao momento, em que Bruno Varela defendeu o remate e a posterior recarga.

Rui Vitória deu ao americano Keaton Parks a possibilidade de se estrear pela equipa principal, entrando para o lugar de Pizzi aos 71′ numa altura em que o jogo estava tudo menos arrumado. Até que chegou o minuto 80, um minuto que será dos mais longos do futebol nacional por tudo aquilo que teve envolvido.

Tudo começou quando João Amaral surgiu isolado em velocidade apenas com Bruno Varela pela frente. O avançado sadino tentou colocar a bola por baixo das pernas do guarda-redes, que evitou o golo, e sofreu um toque quando ia à procura da bola para fazer a recarga, ficando a reclamar grande penalidade. O Benfica veio para a frente e a jogada começou na direita: passou pelos pés de Douglas, Rafa e Keaton Parks até mudar para o flanco esquerdo, Cervi cruzar e Krovinovic marcar. Pormenor: Krovinovic esteve em todos os momentos da jogada.

Depois dos triunfos de Sporting e FC Porto, também o Benfica garantiu o apuramento para a quinta eliminatória da Taça de Portugal. Mas este jogo (nem sempre bem jogado) será recordado por outras razões. Vai uma aposta?