Mais uma baixa na Altice? Claudia Goya pode estar de saída da presidência executiva da Portugal Telecom, apenas quatro meses depois de ter sido indicada para o cargo, segundo informação avançada pelos jornais Económico e ECO, mas entretanto uma fonte oficial da PT veio desmentir a saída da gestora, pelo menos da empresa.

Não comentamos rumores e negamos que Claudia Goya esteja de saída da empresa”. A mesma fonte não esclarece, contudo, se Goya vai manter o cargo de presidente executiva da PT Portugal, empresa que é controlada pelo grupo francês Altice.

As noticias que apontam para a substituição de Claudia Goya surgem poucos dias depois de uma chicotada psicológica na gestão do grupo francês que levou ao afastamento do presidente executivo. Michel Combes demitiu-se do cargo, apenas dois dias depois de ter estado em Portugal na Web Summit a representar a Altice, ao lado de Claudia Goya.

A presidente executiva da PT/MEO, que fez carreira na Microsoft Portugal, terá sido uma escolha de Combes. Goya assumiu a liderança pouco antes de ser anunciada a compra da Media Capital, a holding da dona da TVI, à Prisa, uma operação que envolve a PT/MEO, mas que é comandada pela Altice. Este negócio, garantiu ao Observador fonte oficial da Altice Portugal ainda esta segunda-feira, não será posto em causa pela turbulência que está a agitar o grupo francês nas últimas semanas.

Desde que tomou o controlo da PT Portugal, em 2015, a Altice já indicou dois presidentes executivos para a empresa: Paulo Neves, que agora é presidente não executivo (chairman), e Claudia Goya. Apesar do desmentido veiculado mais de uma hora depois das primeiras notícias sobre a substituição da presidente executiva, ainda não é claro se haverá ou não mexidas na estrutura portuguesa da Altice, em resultado da reorganização no topo do grupo francês.

Essas mudanças resultaram no reforço da posição do acionista português da Altice, Armando Pereira, que passou a dirigir em termos operacionais os negócios de telecomunicações para todos os mercados. A ascensão de Armando Pereira no grupo Altice terá sido um dos motivos para o desconforto de Michel Combes, o anterior presidente executivo, tendo alimentado rumores sobre a saída deste, meses antes de a mudança se concretizar.

Outra novidade de peso foi o regresso do fundador, Patrick Drahi, ao comando da Altice. O milionário francês assumiu o cargo de presidente não executivo e tem estado envolvido numa série de iniciativas para acalmar os mercados, depois de semanas de quedas acentuadas das ações em bolsa que fizerem a empresa perder cerca de metade do seu valor.

O pretexto foram os resultados do terceiro trimestre, abaixo do esperado e acompanhados de uma revisão em baixa do crescimento previsto das receitas e dos lucros. Foi um sinal de alarme para os investidores e analistas. E alimentou os receios de que a empresa, que cresceu com uma onda de aquisições financiada em dívida, estivesse com dificuldades em conseguir gerir os ativos adquiridos nos últimos anos e gerar o retorno necessário para amortizar uma dívida gigante da ordem dos 50 mil milhões de euros.

Na semana passada, Drahi e o novo presidente executivo procuraram travar os receios dos investidores com o anuncio de um realinhamento da estratégia. O regresso ao essencial, o foco na gestão operacional e na melhoria da relação com os clientes, sobretudo em França onde a operadora SFR tem estado a perder mercado, foram mensagens fortes no discurso. Os responsáveis do grupo francês prometeram, também, empenho em reduzir a dívida, com a paragem de novas compras e a venda de alguns ativos. Em cima da mesa está a alienação de infraestruturas como as torres de comunicações. Analistas afastam, para já, a venda de grandes ativos como a Portugal Telecom.

Apesar de as ações terem reagido bem no dia da apresentação (terça-feira passada), voltaram às quedas nas sessões seguintes, a ponto de a Altice ter feito um comunicado esta segunda-feira de manhã para responder às “especulações” de mercado e onde afirma não estar a preparar um aumento de capital. As ações do grupo, cotadas na bolsa de Amesterdão, começaram por reagir em forte alta com uma valorização de mais de 10%, mas acabaram por limitar o ganho a 5,2%. E ainda valem menos de metade do que há um ano. Há informações de que a empresa está a ser alvo de ataques especulativos de short-selling (investidores que estão a apostar na queda da cotação das ações).

Neste comunicado, a Altice dizia, ainda, que a Next, a maior acionista da empresa, não estava a vender ações. Assegurava ter uma margem confortável de liquidez e reafirmava o compromisso com a desalavancagem, afastando a realização de mais aquisições significativas.

Apesar desta promessa aos investidores, fonte oficial da Altice em Portugal garantiu ao Observador que a compra da Media Capital anunciada em julho deste ano é para prosseguir. O Observador questionou a Altice em França sobre o eventual impacto da nova estratégia financeira neste negócio de 440 milhões de euros que ainda não está fechado porque aguarda autorização da Autoridade da Concorrência, mas cuja estrutura financeira estará já toda montada.

A resposta chegou através de uma fonte oficial da Altice/PT em Portugal, que lembrou as palavras ditas pelo administrador financeiro, Dennis Okhuisen, na semana passada sobre o travão a novas compras.

“As afirmações do CFO (administrador financeiro) da Altice foram claras. O negócio Media Capital, salvo do ponto de vista regulatório, está concluído e é essencial para a estratégia global da Altice.”

Drahi tem-se desdobrado em inúmeras iniciativas. Falou aos investidores e reuniu-se com os representantes dos sindicatos e com os colaboradores do grupo em França. Segundo a imprensa francesa, o patrão da Altice terá abordado um conselheiro do presidente Emmanuel Macron para promover a realização de fusões entre as operadoras de telecomunicações. Mas a consolidação no setor não é bem vista pelas autoridades política e regulatória francesas. E os rivais da Altice estão menos interessados na proposta porque o mercado está a recuperar, uma retoma que está a passar ao lado da operadora SFR que é a maior operação de telecomunicações do grupo.

Para além de ter protagonizado várias e caras aquisições nas telecomunicações nos Estados Unidos e na Europa — em Portugal pagou 7.200 milhões de euros pela PT Portugal –, a Altice tem apostado num modelo de convergência entre operadoras e produtoras de conteúdos, que a tem levado à compra de empresas de media. É esta estratégia que está a querer aplicar em Portugal com a aquisição da Media Capital.