Perante o cenário de seca que o país vive, o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, admitiu que o consumo de água possa ser racionado durante o período da noite em algumas localidades. Essa possibilidade, avançada em entrevista ao jornal i (link ainda indisponível), pode concretizar-se em alguns municípios. “Admito que em algumas situações concretas isto possa acontecer em períodos noturnos, por exemplo, porque isso até teria vantagem de, em redes de municípios com perdas de água importantes, pelo menos no período noturno não perderiam água“, afirmou o secretário de Estado.”

O ministro do Ambiente veio entretanto clarificar que o racionamento de água, devido à seca, é “uma hipótese teórica”, mas não faz qualquer sentido pensar nessa medida agora, porque está “no fim da linha”. Para João Matos Fernandes, que falava em Évora aos jornalistas, “as medidas de racionamento [de água] estão no fim do fim da linha e não faz nenhum sentido pensar nelas agora. Estamos a fazer tudo para que a água nunca falte, em conjunto com as autarquias, e o que é fundamental é as pessoas pouparem água”.

Confrontado com as declarações do secretário de Estado publicadas esta terça-feira, Matos Fernandes diz que Carlos Martins “admite a vaga possibilidade” desse racionamento de água, “durante algumas horas” por dia, em “algumas autarquias onde a água está mesmo quase, quase a faltar” e “em situações muito específicas”.

Ministro do Ambiente: racionamento de água é medida “no fim da linha”

A suspensão da água durante a noite é “uma hipótese teórica. Não é esse o nosso caminho”, afirmou, esclarecendo também, caso a medida tenha de avançar, “não é o Governo que raciona”.

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Fonte do Ministério do Ambiente já tinha adiantado ao Observador que o racionamento é um cenário de último recurso para locais muito específicos e sempre articulado com as autarquias que são as responsáveis pelo abastecimento. Há uma semana e meia, o secretário de Estado do Ambiente tinha afastado, em entrevista ao Observador, um cenário geral de racionamento da água, considerando, com base em experiências internacionais, que isso não seria eficaz.

Carlos Martins. “Para repor os níveis de água precisaríamos de um ano com chuva acima da média”

Considerando o atual período de seca como o mais longo que o país já viveu, Carlos Martins recomenda ainda que as populações adquiram novos hábitos de consumo e se habituem a gastar menos. Sugere agora, na entrevista ao i, que os “municípios e as entidades gestoras dos serviços de água devem reduzir as pressões de água”.

Quando se reduz a pressão, por cada minuto que temos a torneira aberta, acaba por haver um menor débito e portanto estamos a fazer uma poupança induzida por essa perda de pressão. O que é mais importante é o autocontrolo das pessoas, ou seja, para que não sejam vítimas de racionamento, elas próprias têm de ter comportamentos de melhor consumo e uso da água, serem mais eficientes”, salientou.

Entre as medidas sugeridas pelo secretário de Estado destacam-se a toma de banhos mais rápidos ou mais espaçados no tempo, a utilização mais disciplinada dos sanitários, não fazer lavagens de dentes, mãos ou loiça com água a correr e fazer regas de jardim com água já usada e durante a noite.

Recorde-se que, de acordo com dados do próprio regulador da água (ERSAR), quase metade da água tratada para uso humano acaba por ser utilizada para fins menos nobres, como a rega ou lavagem de ruas e carros.

Quase metade da água tratada para uso humano é gasta em regas ou para lavar carros e ruas

Questionado sobre se a falta de água pode vir a causar aumentos nas faturas da água e da eletricidade, Carlos Martins disse que “este ano ainda não, porque os preços são regulados anualmente pela entidade reguladora, que é independente e não depende do Governo.”

No que diz respeito à energia elétrica não consigo ter essa avaliação, mas a ERSAR, neste caso a ERSE, que é o regulador para os serviços elétricos, ponderará se a EDP, não produzindo energia a partir da solução hídrica, terá custos superiores ou inferiores recorrendo à solução eólica, à solução solar, ao carvão ou ao gás. Portanto, essa é uma matéria sobre a qual nós não temos conhecimento detalhado, mas seria tentado a dizer que não vai haver esse agravamento, mesmo nos quatro municípios mais afetados”, disse.

Carlos Martins destacou também que a chuva prevista para esta semana é insuficiente para fazer face à seca “mais longa que Portugal já viveu”.

Veremos se com o evoluir do tempo, se as medidas que começam esta semana – mais camiões a transportar água da Aguieira para Fagilde, mais camiões a transportar água do Planalto Beirão e da Barragem das Águas do Norte para os reservatórios de Mangualde, Nelas e Viseu – nos permitirão ter uma situação mais tranquila”, salientou.

O secretário de Estado do Ambiente lembrou também que a Comissão de Gestão de Albufeiras já iniciou um intenso programa de comunicação na comunicação social e nos multibancos, no “sentido de levar as pessoas a comportamentos mais adequados”. Sobre potenciais prejuízos, Carlos Martins destacou que o ministério “não tem esses dados apurados”. “Acredito que o Ministério da Agricultura acompanhe de muito perto essa situação. Nas reuniões que temos de caráter interministerial, esse assunto tem sido suscitado”, indicou.

De acordo com o índice meteorológico de seca do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a 15 de novembro, verificou-se um aumento da área em situação de seca extrema em todo o território de Portugal Continental. Segundo o IPMA, a 15 de novembro cerca de 6% do território estava em seca severa e 94% em seca extrema.