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No Outono de 2003 os Animal Collective tocaram pela primeira vez em Portugal, no Festival Numero, na Gare Marítima de Alcântara. Em palco estavam só Avey Tare e Panda Bear (foi nesses dias que o músico se apaixonou por Lisboa e encontrou razões para mudar-se para cá) e tocaram grande parte do álbum Sung Tongs em acústico. Foi feérico, intenso e memorável. Nesses anos a sua música tinha uma base acústica e tocavam o esqueleto das canções ao vivo. O resultado era fantástico, como se pode ver nesta interpretação de “Winter’s Love” para o programa “This Is Our Music” da MTV em 2004:

Fala-se disto porque em Eucalyptus, álbum que Avey Tare traz na bagagem para o concerto desta terça feira em Lisboa, na Igreja St. George, remete muito para esses tempos, para o intenso e onírico som da guitarra que se deixou de ouvir nos álbuns de Animal Collective e que está um pouco ausente dos seus outros álbuns a solo. O concerto de hoje é único, porque é um regresso de Avey Tare aos palcos portugueses com um grande álbum na bagagem e porque é a sua única data na Europa (a digressão que tinha agendada foi cancelada há uns meses). A isto se chama de “privilégio”, sem tretas. E foi por isso que falámos com o artista:

Gravou este álbum em Los Angeles. O que o levou a essa decisão?
Estou sempre a mover-me de um lado para o outro. Quando comecei a pensar na música para Eucalyptus estava em Los Angeles, por isso a música foi inspirada por estar na Califórnia e andar por lá. Tendo a entrar na atmosfera do sítio onde estou. E, comigo, se vou para outros sítios, outros ambientes, eles começam a entrar em mim e a influenciar-me. Sinto que sou muito influenciado por isso, a música torna-se num anexo do ambiente onde estou. E queria guardar esse sentimento sul-californiano nas canções, uma espécie de estado mental californiano.

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E de que forma é que se sentiu influenciado?
Foram diferentes aspetos. Estar perto da costa, do oceano. Passei muito tempo junto da costa, fui muitas a vezes a locais como o Big Sur. E as canções estão nesse ambiente, são também sobre isso. Foram escritas de um modo muito transitório. Os ambientes despoletam isso em mim. Tendo a ver a música como parte de um ambiente transitório, é algo que ocupa um espaço. A música tem muito a ver com ocupar espaço para mim. Ao sentir o espaço, o ambiente, as pessoas à minha volta, penso que isso tem muitas semelhanças com o ambiente que transpus para o disco. E depois é tudo o que observo à minha volta na costa oeste, o movimento do oceano, a falta de chuva, os problemas com a seca, todo esse tipo de coisas entram em jogo.

Refere muito o oceano. Sente-se o movimento do mar nas canções e, depois de dizer, tudo faz ainda mais sentido para mim. Faz-me lembrar da primeira vez que os Animal Collective tocaram em Lisboa, antes do Sung Tongs.
Sim, lembro-me disso. Foi num festival não foi? Num edifício com alguns andares.

Sim, sim. Eucalyptus faz-me lembrar essa fase dos Animal Collective e com a música que andavam a fazer à volta de Sung Tongs, pelo lado acústico e o modo como toca guitarra. Estava a tentar fazer algo próximo desse período da sua vida?
Penso que isso faz parte do estilo como toco guitarra acústica. Foi algo que nasceu por tocar com o Noah [Lennox, o Panda Bear dos Animal Collective] e das jams que fazíamos no final dos anos 1990s e no início deste século. Comecei a tocar a guitarra de uma forma muito arrítmica. E por volta dessa altura, do “Danse Manatee” e do “Here Comes The Indian”, o meu estilo tornou-se algo flutuante, tem a ver com o modo como toco os acordes. O que faço em Eucalyptus é uma progressão disso mesmo. Queria experimentar com outras coisas neste álbum, a forma como as canções são construídas é totalmente nova para mim. Mas percebo o que dizes, o meu estilo de tocar guitarra tornou-se muito específico.

Mas também há algum tempo que não se fazia ouvir a tocar guitarra assim. O registo de guitarra no álbum é bastante diferente do passado, mas há uma fluência da qual alguma saudade.
É algo que sempre fiz, porque escrevo muitas canções na guitarra. Só que nos Animal Collective passámos a usar menos guitarras nos últimos álbuns e acabo por traduzir isso para outros instrumentos.

E encarou o que fez em Eucalyptus como um desafio?
Tinha o objetivo de criar mais espaço nas minhas canções. Nos últimos álbuns de Animal Collective, e de uma forma geral no meu trabalho com eles, as canções ficam muito cheias. E foi um desafio para mim fazer música sem esse sentimento de estar tudo cheio. Queria estar confortável com o mínimo de coisas, há algumas canções que são só guitarra acústica ou onde a minha voz é mais esparsa.

A sua voz também está mais clara, transparente, audível. Queria que a sua escrita também fosse mais transparente para o ouvinte?
As letras são importantes para mim. Nos Animal Collective tentamos tornar a voz num instrumento, para que não se imponha aos outros sons à volta. As melodias vocais são muito importantes para mim, bem como o que está a ser dito, porque carregam muito do que se passa e do que quero dizer. Neste álbum queria fazer-me ouvir mais e ter os sons da guitarra acústica a apoiar isso.

Há uma certa nostalgia nas letras que escreveu para Eucalyptus. Isso também é novo para si?
Li algures que as canções que ficam são sobre nostalgia. É um tema recorrente e muito importante. E leio muito sobre isso, por exemplo, sou muito influenciado pelo Tin Pan Alley. Muitos dos temas transportam uma certa tristeza, são sobre algo triste. Está ali o coração da música americana. É interessante, porque muita dessa música foi escrita por imigrantes, que vieram para os Estados Unidos e começaram a escrever sobre o sentimento de perda em relação à tua terra natal. Esse sentimento depois passou para muita música popular, os Beatles têm isso, por exemplo, essa espécie de doçura triste, nostalgia, e é algo que está muito presente em muitos escritores de canções que admiro. Na altura em que escrevi as canções estava a passar por muita coisa, perdi alguns amigos, saí de uma relação intensa, de dois anos, e as letras refletem isso. Essas experiências enquadram-se também nos ambientes que eu queria transpor, porque expressam aquilo que observo e a forma como interpreto a vida. Vejo isso como uma espécie de estações de sentimentos e emoções, períodos de tempo nos quais sentes uma miríade de coisas. E é preciso ter esperança que esses momentos passem, tens que te divertir e aceitar que eles passam. Estava a escrever sobre isso.

Uma curiosidade: porque é que decidiu editar Pullhair Rubeye [álbum de 2007 com Kría Brekkan, que toca no sentido inverso ao gravado] ao contrário?
Foi uma decisão algo louca. Íamos ouvir as fitas das gravações num reel-to-reel que tínhamos em casa. As fitas não estavam marcadas e, quando as colocámos, pusemos por acidente ao contrário. Começámos a ouvir e pareceu-nos ótimo. E pensámos que se calhar era assim que o álbum deveria sair e que depois, se as pessoas quisessem, poderiam metê-lo a tocar na forma original. Ainda pensámos em editá-lo nas duas formas, mas isso nunca chegou a acontecer.

Avey Tare toca esta terça feira, dia 21, em Lisboa, na Igreja de St. George, às 22h.