Ganhou a alcunha de “crocodilo” pelo estilo brutal e implacável, embora furtivo, com que enfrentou todos os que ousaram atravessar-se no seu caminho. Dele já disseram que nunca avisa — limita-se a morder e a destruir os adversários, à semelhança do animal que lhe deu o petit nom. Emmerson Mnangagwa, de 75 anos, vai ser o novo Presidente do Zimbabué, depois de ter destituído Robert Mugabe e de ter neutralizado a sua principal adversária, Grace Mugabe, a mulher que provocou a queda do ditador. Consumada a transição, a grande expectativa é perceber que tipo de transformações pode imprimir Mnangagwa: será a troca de um tirano por outro?

A fama de Emmerson Mnangagwa precede-o. Terá nascido em 1942, embora existam fontes que garantam ter nascido em 1946. Juntou-se ao movimento nacionalista contra o regime de “Apartheid” imposto pelo governo da então Rodésia. Segundo um longo perfil traçado pela New Statesman, Mnangagwa treinou como guerrilheiro no Egito e na China, participou em ações de sabotagem contra o governo de Ian Smith, incluindo a explosão de um comboio perto das Cataratas Victoria.

Aos 19, escapou milagrosamente à execução apenas porque a pena de morte só era aplicável a maiores de 21. Passou uma década na prisão, onde foi mantido em isolamento durante três anos. Os rituais de tortura a que foi sujeito incluíam não raras vezes sessões de espancamento que lhe roubaram a audição no ouvido esquerdo. Numa rara entrevista concedida à mesma New Statesman, admitiu que não conseguia recordar esses tempos. “A minha tortura foi tão má que, se falar sobre isso, não consigo evitar chorar”.

Na prisão, partilhou a cela com o próprio Robert Mugabe, a quem se juntaria no movimento de guerrilha. Depois de conquistada a independência, ocupou vários cargos de decisão nos governos nomeados pelo ditador, como ministro da Segurança Social, das Finanças e da Defesa. Chegou à vice-presidência em 2014, já depois de ter sido presidente do Parlamento daquele país.

Seguidor da igreja Metodista, tornou-se adepto do Chelsea, por causa da estrela costa-marfinense Didier Drogba. Tem nove filhos e casou duas vezes — a primeira mulher morreu de cancro em 2000. Mas esta aparente normalidade contrasta com a violência dos seus métodos.

Em 2000, Blessing Chebundo, um homem que ousou desafiar Mnangagwa numas eleições parlamentares em que concorriam os dois no mesmo círculo, sobreviveu por pouco a uma tentativa de homicídio orquestrada por apoiantes do “crocodilo”, que o mergulharam em petróleo. Em 2008, Mnangagwa foi o principal responsável pela perseguição brutal aos apoiantes de Morgan Tsvangirai, o candidato presidencial que venceu Mugabe na primeira volta e que foi obrigado a desistir perante o lastro de vítimas inocentes que foi ficando pelo caminho. Nessa época, a violência atroz que promoveu foi tal que mereceu sanções dos Estados Unidos e da União Europeia por violação dos direitos humanos.

Um rasto de violência que terá começado muito antes. Embora nunca o tenha admitido publicamente, é apontado como um dos responsáveis pelos massacres de Gukurahundi, conduzidos pelo exército do país e que vitimaram mais de 20 mil pessoas.

Ainda que não seja possível apurar com segurança a fortuna que acumulou, Mnangagwa é seguramente uma das pessoas mais ricas do continente. Terá começado a construir essa fortuna ainda durante a guerra civil da República Democrática do Congo, já no final da década de 90, depois de ter participado no saque de diamantes naquele país. Na província Mindlands, onde nasceu e onde controla a exploração das minas de ouro, é conhecido como “O Padrinho”, numa referência clara aos métodos brutais da máfia.

A guerra com Grace Mugabe

Tido há muito como um dos possíveis sucessores de Robert Mugabe, Emmerson Mnangagwa foi mantendo uma guerra surda com Grace Mugabe, a quem nunca faltou a ambição de suceder ao marido. Ainda assim, a carreira política do “crocodilo” sofreu uma reviravolta em 2004, depois de ter sido afastado da direção do partido por conspirar para o lugar de vice-presidente de Mugabe.

A travessia no deserto chegaria ao fim em 2008, quando foi escolhido por Mugabe para ser uma espécie de coordenador da campanha presidencial. Foi igualmente nomeado para liderar o Comando Conjunto de Operações, um órgão que juntava todos os responsáveis pela segurança do país e que terá servido para perseguir, ameaçar e matar os opositores de Mugabe. Uma posição que lhe permitiu reunir poder e influência junto das altas chefias militares que usaria mais tarde para derrubar o ditador.

Paralelamente, começou a desenhar-se um braço de ferro entre Grace Mugabe e Joice Mujuru, vice-Presidente de Mugabe desde 2004. Dez anos depois, Grace terá convencido o ditador, cada vez mais paranoico e debilitado, a afastar Mujuru, por suspeitas de estar a conspirar contra Mugabe. A destituição de Joice Mujuru abriu a porta a Emmerson Mnangagwa, que assumiu finalmente o cargo de vice-Presidente. Começava aí a guerra surda com Grace Mugabe.

Apoiada por um grupo de “jovens turcos” conhecido como “Geração 40 ou G40”, Grace Mugabe — que chegou a assumir publicamente o desejo de suceder a Robert Mugabe — terá tentado tudo para derrubar Emmerson Mnangagwa, incluindo, como recorda o The Guardian, uma tentativa de assassinato — algo que a mulher do ditador sempre negou.

Mas o “crocodilo” não estava disposto a perder o poder que tanto lhe custara a conquistar. Apoiado pela fação Lacoste — marca cujo símbolo é um crocodilo –, Mnangagwa terá lançado várias investigações criminais contra os líderes da G40, com o único objetivo de intimidar e perseguir os adversários.

Hoje, é evidente para todos que quem venceu a guerra pela sucessão a Mugabe foi Emmerson Mnangagwa e não a mulher do ditador. Mas, durante muito tempo, ninguém sabia verdadeiramente para que lado podia tombar o tabuleiro do poder no Zimbabué. A vitória de Mnangagwa pode ser atribuída ao declínio económico do país, ao descontentamento entre militares e agentes de segurança e à própria decadência de Mugabe, a braços com os sinais cada vez mais evidentes do avançar da idade. Assim que se tornou claro que as principais chefias militares estavam com Mnangagwa, o destino da família Mugabe estava traçado.

A 7 de novembro, Robert Mugabe e a mulher ainda tentaram um último golpe, ordenando a destituição de Emmerson Mnangagwa da vice-presidência do país. Mas de nada valeu. Dias depois, Mnangagwa seria o homem responsável pelo fim da era Mugabe, depois de 37 anos no poder.

O que pode trazer Mnangagwa ao Zimbabué?

Nessa rara entrevista que deu à New Statesman, em janeiro de 2017, Mnangagwa teve uma tirada que mereceu o destaque da publicação: “O capital vai para onde se sente confortável, e se o [o país] é frio corre para um que lhe dá um clima melhor” — uma frase que Robert Mugabe dificilmente pronunciaria.

Nessa altura, o então vice-Presidente do Zimbabué falou na necessidade de relançar os laços do país com a comunidade internacional, de combater o problema de corrupção que atravessa todo o regime, apostar e desenvolver o setor agrícola e de atrair investimento estrangeiro para o país, num modelo de governação mais próximo ao da China.

Há ainda sinais de uma aparente abertura para refundar o sistema democrático, envolvendo os partidos da oposição. Mas o estilo brutal com que Mnangagwa enfrentou todos os adversários ao longo da sua vida, abrem poucas perspetivas de uma verdadeira revolução para o país.

Ainda assim, o “crocodilo” parece já ter conquistado o apoio tácito do setor empresarial do país e de países como a África do Sul e da China, que querem estabilidade na região. A comunidade internacional, sugere a mesma publicação, parece mais disposta a aceitar uma transição de poder mais suave, de que o processo disruptivo que coloque em causa a segurança dos territórios circundantes. Nem que para isso tenha de ignorar os crimes humanitários cometidos por Emmerson Mnangagwa,