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A dirigente do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua lamenta que o ministro das Finanças, Mário Centeno, tenha falado em “saber merecer”, falando sobre as reposições de rendimentos. É a “retórica do país a viver acima das suas possibilidades”, acusa Mariana Mortágua, numa entrevista ao Público e à Rádio Renascença em que também acusa Marcelo Rebelo de Sousa de querer promover a criação de um bloco central em Portugal.

Centeno está a aparecer com uma “retórica da direita, perigosa e moralista”, acusa Mariana Mortágua. É a “retórica que a direita usou para justificar a austeridade – que é a retórica do país acima das suas possibilidades”.

É uma retórica que cola muito bem à ideia de que direitos em excesso podem provocar crise. E é uma ideia perigosa, que nos diz que quando a crise vem a culpa é dos trabalhadores e não de um sistema económico e financeiro que é demasiado instável. E foi isso que aconteceu na crise de 2007 quando, de repente, uma crise financeira foi apagada do mapa e se veio dizer às pessoas que a culpa era delas. Delas aqui, na Grécia, na Irlanda, em Espanha e na Itália. Em todos os países a história foi a mesma: os preguiçosos do Sul, demasiados privilégios”.

Na opinião de Mariana Mortágua, Mário Centeno tem vindo a comportar-se como alguém que “entende e reproduz em Portugal os condicionalismos e as regras que são as regras europeias”. “Nós discordamos desta visão demasiado focada numa política de restrição orçamental e achamos que o país tem crescido quando é possível recuperar rendimentos, direitos, quando é possível dar uma folga à economia para investir”, atira Mariana Mortágua.

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Achamos que há coisas que é necessário fazer ainda. Nomeadamente no mercado laboral – o mundo do trabalho foi muitíssimo atacado, a precariedade grassa no nosso país, os salários crescem menos do que a produtividade. E é necessário investir em serviços públicos – e é preciso dizer que o que está a ser executado não é o necessário, o que cria brechas. É preciso muito mais. Nestes aspectos, ambos muito condicionados por esta visão profundamente ideológica que tem a Comissão Europeia acerca do desenvolvimento das economias, Mário Centeno está de acordo com este enquadramento. E temos divergências que nos fazem questionar o caminho orçamental.

Sobre a questão orçamental mais controversa do momento, a reposição das carreiras dos professores, Mortágua defende que “ao começarmos a repor rendimentos e devolver direitos não podemos fazê-lo ignorando os direitos que foram congelados nesse período”.

No caso específico das carreiras, o que foi reivindicado pelos professores e pelos trabalhadores da AP é simplesmente poder ser reposicionado de acordo com os anos que trabalharam. É uma reivindicação legítima – e tem que ter reflexos no âmbito desta legislatura”.

A deputada do Bloco de Esquerda lembra que “o descongelamento das carreiras estava no acordo” que viabilizou o apoio parlamentar dos partidos da esquerda ao PS. “A proposta do BE diz que tem que acontecer no âmbito da legislatura, até 2019. A partir daí entendemos que a negociação tem que ser feita com os sindicatos. Respeitamos essas negociações – que estão a acontecer. Achamos que a nossa proposta no Parlamento contribuiu para que o Governo se sentasse à mesa com os sindicatos, para procurar chegar a uma solução. Estamos a acompanhar muito de perto, preocupados com a situação, mas não nos queremos sobrepor ou substituir a essas negociações”, remata a deputada.

Sobre Marcelo Rebelo de Sousa, que também comentou esta semana que não podemos achar que podemos voltar aos anos antes da crise, Mortágua diz que sempre lhe “pareceu que o Presidente e a sua ideia seria a ideia de reconstituição de um Bloco Central, para além de questões mais conjunturais”. Quando houver mudanças no PSD, “entre outras coisas”, é “expectável que essa aproximação venha a ser cada vez mais evidente no futuro”. E será que o PS vai cooperar nesse esforço? “Tudo dependerá da relação de forças. Não há cartas marcadas neste jogo, dependerá da força que cada partido tiver no futuro”.