A 4.023 quilómetros da América do Sul, dois glaciares seguram o destino do planeta Terra tal qual o conhecemos. Numa remota região da Antártica, conhecida como Pine Island Bay, os glaciares Pine Island e Thwaites estendem-se por 241 quilómetros. Vão derreter. Só não se sabe quando.

Os dois glaciares são dos maiores – e dos que estão a derreter mais rápido – em toda a Antártica. Num artigo do princípio do ano, a Rolling Stone chamava-lhes “os glaciares do Apocalipse”. Juntos, funcionam como uma tampa que segura gelo suficiente para subir o nível médio das águas em 3 metros: uma quantidade que iria afundar qualquer cidade costeira no planeta. Por este motivo, descobrir o quão rápido vão derreter é uma das questões científicas mais importantes do mundo neste momento.

Para chegar a essa resposta, os cientistas têm analisado o fim da última Idade do Gelo, há mais ou menos 11 mil anos, quando as temperaturas globais subiram até aos níveis em que se encontram atualmente. As más notícias é que todas as provas dizem que, nessa altura, Pine Island e Thwaites derreteram rapidamente e inundaram todas as linhas costeiras mundiais. Os especialistas concluiram que o veloz colapso aconteceu devido a algo chamado “instabilidade marinha de penhascos de gelo”. Mas o que é isto?

Nesta zona da Antártica, o oceano é mais profundo, por isso, cada vez que um iceberg se separa cria penhascos cada vez maiores. O gelo, cada vez mais pesado, faz pressão nestes penhascos – que acabam por não aguentar o seu próprio peso e colapsam. Quando começarem a cair, é impossível pará-los.

Nos últimos anos, os glaciólogos da NASA têm chegado à conclusão de que esta instabilidade causada pelos penhascos de gelo vai desintegrar toda a zona oeste da Antártica ainda este século, numa janela de 20 a 50 anos, muito mais rápido do que alguma vez se pensou. A cada minuto, penhascos do tamanho de arranha-céus vão colapsar e entrar dentro de água. O resultado é simples: uma catástrofe global de proporções que nunca vimos.

Um colapso integral de Pine Island e Thwaites irá provocar a subida das marés, a inundação das linhas costeiras, o desaparecimento de cidades em todo o mundo e milhões de refugiados climáticos.

Grande parte destas novas descobertas pertence a dois climatólogos, Rob DeConto e David Pollard. Um estudo publicado pela dupla de cientistas na revista Nature foi o primeiro a ter em conta a instabilidade dos penhascos de gelo e a ameaça que significam para o mundo. DeConto e Pollard recusaram a hipótese de o nível médio das águas do mar subir 90 centímetros em caso de degelo rápido e garantiram que o mais provável é que suba 1,80 metros. O pior cenário possível, os três metros, acontece se as emissões de dióxido de carbono se mantiverem nos níveis atuais.

Se subir 90 centímetros, as cidades de New Orleans, Houston, New York e Miami ficarão completamente inundadas. Países do Pacífico, como as ilhas Marshall, perderiam grande parte do seu território. No caso mais provável, o dos 1,80 metros, 12 milhões de norte-americanos ficavam desalojados e Xangai, Bombaim ou Ho Chi Minh deixam de existir. Com três metros, o território onde vivem centenas de milhões de pessoas em todo o mundo ficaria debaixo de água. A Florida seria inabitável, Nova Iorque e New Jersey ficariam totalmente inundadas duas vezes por mês e a simples mudança da lua seria suficiente para agitar as marés em direção a casas e edifícios.