John Cook-Jong Lee não tem largado por um instante o seu paciente mais famoso. O cirurgião conduziu as duas intervenções a que foi sujeito o militar norte-coreano que fugiu da Coreia do Norte e cruzou a zona desmilitarizada rumo a sul, a 13 de novembro. Oh tem assistido a séries televisivas — gosta particularmente de CSI –, mas não tem visto as notícias. Além da recuperação física, o cirurgião está preocupado com a recuperação psicológica do militar, que já teve pesadelos com um regresso a Pyongyang.

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Numa das paredes do quarto em que Oh está internado, Jong Lee pendurou uma bandeira da Coreia do Sul. É uma espécie de cartão de boas-vindas para o militar de 24 anos que, a 13 de novembro, pegou num jipe das Forças Armadas, acelerou a fundo em direção à zona desmilitarizada entre as duas Coreias e terminou a fuga a pé até alcançar território sul-coreano. Estava gravemente ferido, atingido pelos disparos dos militares a norte.

Ao médico que o operou, Oh — o nome de família é a única informação pessoal divulgada até ao momento — agradeceu a ajuda dos sul-coreanos. Inclusive, a transfusão de 12 litros de sangue que recebeu nas duas intervenções, o dobro daquilo de que o corpo humano guarda, tal era a extensão e gravidade dos seus ferimentos.

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Tendo entrado para as Forças Armadas aos 17 anos, o militar já confessou ao seu médico que não quer voltar a pegar numa arma. Ao notar o cabelo cortado ao estilo marines do militar, o cirurgião perguntou-lhe porque não se alistava nas forças sul-coreanas. “Ele sorriu e disse que nunca voltaria ao sistema militar”, contou Jong Lee ao Guardian, numa entrevista concedida no seu gabinete, a alguns pisos de distância de onde o militar recupera.

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À porta do quarto do militar estão, em permanência, elementos das forças especiais de Seul. A segurança também está a ser acompanhada pelos serviços secretos. A recuperação do trauma psicológico que Oh sofreu é uma das preocupações da equipa médica que o segue. O militar já confessou que teme que as autoridades sul-coreanos o devolvam ao regime de King Jong-un. O médico assegurou-o de que isso não acontecerá. “Este tipo da Coreia do Norte não vai a lado nenhum, vai ficar na Coreia do Sul”, garantiu Jong Lee.

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Para já, não vai sequer sair do hospital. O cirurgião diz que é “um homem forte”. Além dos ferimentos provocados pelos disparos dos militares do norte que lhe provocaram graves danos em vários órgãos — foram-lhe retiradas quatro balas do corpo — , Oh chegou ao hospital, transportado num helicóptero militar norte-americano, com um quadro clínico complexo: tuberculose, hepatite B e uma enorme quantidade de parasitas nos intestinos.

O militar tem estado protegido da explosão mediática que se seguiu à sua fuga. Tem assistido a alguns filmes, como o thriller franco-americano Transporter 3 ou as comédias de Jim Carrey, e a séries televisivas como o CSI.

As marcas físicas vão ficar para o resto da vida. Sobretudo por causa dos ferimentos no cólon, que teve de ser reconstruído em sete zonas diferentes. Se recuperar da intervenção, quando sair do hospital, Oh será colocado num centro de readaptação social e receberá um apoio financeiro anual de cerca de 7.650 euros anuais. Vai receber casa, formação escolar e formação profissional.

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