Emmerson Mnangagwa tomou posse esta sexta-feira como Presidente interino do Zimbabué, numa cerimónia que oficialmente colocou um ponto final dos 37 anos de poder de Robert Mugabe, o primeiro chefe de Estado daquele país após a independência, conquistada em 1980.

O ex-vice-presidente, cuja demissão precipitou o golpe militar que a 15 de novembro precipitou o fim do consulado de Robert Mugabe, tomou posse numa cerimónia no Estádio Nacional, na cidade capital de Harare, perante uma multidão de aproximadamente 60 mil pessoas.

“Eu, Emmerson Dambudzo Mnangagwa, prometo, enquanto Presidente da República do Zimbabué, ser fiel ao Zimbabué, obedecer, apoiar e defender a Constituição e todas as leis do Zimbabué, promover tudo o que permitir o avanço do Zimbabué e opor-me a tudo o que possa prejudicá-lo”, disse o líder de 75 anos.

A cerimónia contou com a presença de alguns líderes africanos, como é o caso da maioria dos países com quem o Zimbabué faz fronteira: o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi; o Presidente da Zâmbia, Edgar Lungu; e o Presidente do Botswana, Ian Khama. O Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, não esteve presente, uma vez que recebe nestes dias a primeira visita oficial por parte do seu homólogo angolano, João Lourenço.

Depois do juramento, continuaram as festividades no Estádio Nacional do Zimbabué. A arena desportiva foi sobrevoada por aviões da Força Aérea do país e houve salvas de tiros de canhão em honra do novo Presidente.

Robert Mugabe terá sido convidado mas faltou à cerimónia

O agora ex-Presidente, Robert Mugabe, terá sido convidado para a cerimónia, juntamente com a sua mulher, a primeira-dama Grace Mugabe, que não é vista em público desde 14 de novembro. Porém, nenhum deles esteve presente no Estádio Nacional do Zimbabué esta sexta-feira. Na véspera, foi-lhes concedida imunidade diplomática.

Segundo o jornal zimbabueano News Day, Robert e Grace Mugabe foram os dois convidados para a cerimónia, mas ainda não é certo que comparecerão ao evento. De acordo com fontes daquele jornal, chegou a estar planeada uma revista às tropas conjunta de Robert Mugabe e Emmerson Mnangagwa, a seguir à qual seria feita a transferência de poderes do Presidente demissionário para o Presidente designado.

A cerimónia começou às 8h30 locais (6h30 de Lisboa) e contou com a convocatória dos cidadãos por parte do ZANU-PF, o partido com o qual Robert Mugabe governou ao longo dos últimos 37 anos, alguns deles em coligação. “Venham e sejam testemunhas da História em movimento, os nossos primeiros passos numa nova era e num país melhor conduzido pelo nosso adorado camarada ED Mnangagwa”, proclamaram os organizadores num cartaz afixado em Harare.

A principal prioridade de Mnangagwa, 75 anos, é a reconstrução da economia do país. O Zimbabué luta contra o crescimento lento, uma inflação crescente e um desemprego em massa (90%).

“Queremos o crescimento da nossa economia, queremos empregos”, declarou o novo homem forte do Zimbabué no seu primeiro discurso, na quarta-feira, algumas horas depois de ter regressado de um breve exílio na África do Sul. Durante muito tempo considerado o delfim de Mugabe, Mnangagwa foi demitido a 6 de novembro — por intervenção da então primeira-dama que esperava suceder ao marido — e abandonou o país por razões de segurança.

O seu afastamento provocou na noite de 14 para 15 de novembro um golpe dos militares, que se opunham à chegada ao poder de Grace Mugabe. Face à profunda crise do país, as expectativas da população são enormes, mas a chegada ao poder de Emmerson Mnangagwa também suscita preocupações, tendo em conta o seu passado de quatro décadas no aparelho de segurança zimbabueano, que executou o “trabalho sujo” do ex-presidente.

A organização de defesa dos direitos humanos Amnistia Internacional pediu ao novo líder do Zimbabué que “evite regressar aos abusos do passado”. “O próximo governo deverá encetar rapidamente as necessárias e urgentes reformas nas Forças Armadas e na Polícia, as principais armas da repressão de Mugabe” bem conhecidas de Mnangagwa, defendeu, por seu turno, a Human Rights Watch.

Quanto ao principal partido da oposição, o Movimento para a Mudança Democrática (MDC) disse estar “cautelosamente otimista” em relação ao próximo líder do país. Embora referindo esperar que Mnangagwa “não vá imitar e replicar o regime mau, corrupto, decadente e incompetente de Mugabe”, o MDC prometeu acompanhar atentamente as próximas decisões do novo presidente “particularmente em relação ao desmantelamento de todos os opressivos pilares da repressão que foram criados pelo regime cessante”.