É sempre, ou quase sempre, ele a dar à estampa na manhã seguinte. As crónicas rezam sobre as suas façanhas. E tantas são as vezes que se destaca dos outros que como ele vestem – sobretudo por agitar as redes e é desse agitar que resulta a vitória –, que se lhe dispensa o apelido e é apenas “o” Bas: Bas resolve, Bas isto, Bas aqueloutro… Sempre o Bas. Sempre. Mas este domingo à tarde, não. Desculpem mas não.

Bas esteve em Paços de Ferreira desde o início, como esteve (“cativo” que é do onze como nenhum outro) nas últimas quarenta e duas partidas. E até remataria. E desgastou a defesa adversária. E pressionou. Golos? Nenhum. E, assim, urge destacar na crónica dois “invisíveis” que, não é de agora, têm sido como os imprescindíveis de Brecht:

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis”.

Para Jérémy Mathieu e Rodrigo Battaglia, sempre de dentes cerrados, olhos despertos e peito acelerado, sempre com uma derradeira gota de suor para escorrer no rosto, um derradeiro corte – que ambos são mais de cortar na defesa do que de germinar no ataque –, “toda a vida” é até o árbitro apitar. E quando Tiago Martins apitou, ainda Jérémy estava no relvado e Rodrigo havia saído para o banco, olhando às estatística (não fosse o romantismo trair-nos ou toldar-nos a razão) a estatística não engana: o argentino foi o melhor do Sporting (além do golo, não errou dribles – e fartou-se de driblar em correrias doidas desde a defesa até onde a linha fosse derradeira e tivesse que travar –, quase não erraria um passe e evitou muitos do adversário nortenho) e o francês, defensivamente, esteve intransponível — rente à relva como pelo ar.

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Paços de Ferreira-Sporting, 1-2

Estádio da Capital do Móvel, em Paços de Ferreira

Árbitro: Tiago Martins

Paços de Ferreira: Mário Felgueiras; Bruno Santos, Marco Baixinho, Miguel Vieira e João Góis; Vasco Rocha (Luiz Phellype, 88’), Mateus (Bruno Moreira, 58’) e Pedrinho; Mabil, Xavier (Hêndrio, 80’) e Welthon

Suplentes não utilizados: Rafael Defendi, Rui Correia, André Leal e Gian

Treinador: Petit

Sporting: Rui Patrício; Piccini, Coates, Mathieu e Fábio Coentrão; William Carvalho, Battaglia (Bryan Ruiz, 72’) e Bruno Fernandes (André Pinto, 91’); Gelson Martins, Acuña (Bruno César, 56’) e Bas Dost

Suplentes não utilizados: Salin, Ristovski, Podence e Rafael Leão

Treinador: Jorge Jesus

Golos: Battaglia (20’), Gelson Martins (75’) e Marco Baixinho (90′)

Ação disciplinar: Cartão amarelo para Mateus (3’), Acuña (3’), Pedrinho (49’), Piccini (62’), Gelson Martins (69’), Marco Baixinho (86’), Rui Patrícia (94′) e Mabil (94′)

O jogo começaria “quentinho” na Mata Real. Logo aos três minutos, Mateus vai disputar a bola com Acuña a meio-campo, esquece-a por completo e agride à cotovelada o argentino do Sporting. O árbitro Tiago Martins mostra amarelo ao jogador do Paços, o que é francamente curto, e ao do Sporting, o que é um disparate. Adiante. Três minutos depois, João Góis vê Mabil a desmarcar-se na grande área do Sporting, a escapar-se nas costas de William, coloca lá a bola rendondinha, o avançado recebe-a no pé direito e, rodando, chuta de esquerdo. Patrício defende. Jesus esbraceja contra tanta facilidade defensiva. A primeira ocasião era pacense.

O Sporting reagiu ao minuto oito. E quuuuuase chegou ao primeiro da tarde. Coentrão procura Bruno Fernandes na grande área, o passe é longo e feito ainda no meio-campo recuado do Sporting, João Góis tenta cortar mas, disparatadamente, acaba por fazê-lo para trás e isola Gelson na área. O extremo rematou, só tinha o guarda-redes Felgueiras por diante, mas acertaria na rede lateral. Por fora. Dez minutos depois, outra vez Coentrão (elogie-se: boa exibição do lateral) e outra vez o perigo a rondar a baliza de Felgueiras. Sobe pela esquerda, cruza rasteiro para a grande área, Baixinho escorrega e não consegue o corte, e a bola chega a Dost. O holandês dribla o outro central do Paços, Miguel Vieira, deixa-o estatelado na relva e remata de pé esquerdo. O guarda-redes pacense defende.

Depois, aos vinte minutos, chegaria o primeiro golo. Canto à direita de Bruno Fernandes, William desvia de cabeça ao primeiro poste e isola Rodrigo Battaglia no segundo. O argentino também cabeceia mas Felgueiras defende. Coates tenta a recarga, Dost também, nenhum deles a consegue e, à terceira, Battaglia coloca mesmo a bola dentro da baliza. O Paços de Ferreira pediu fora-de-jogo (a repetição não permite ver com clareza se está ou não) de Battaglia, o árbitro Tiago Martins consultou o VAR e validaria mesmo o golo do argentino.

Nada mais há a escrever da primeira parte. E só vinte minutos após o recomeço houve perigo que merecesse as linhas que se seguem. Coentrão cruza desde a esquerda, Miguel Vieira corta de cabeça para fora da grande área e, à entrada desta, Bruno Fernandes remata de primeira. Acertaria em cheio no poste esquerdo. A bola voltaria a Bruno mas, à saída de Felgueiras, não conseguiria bater (tentou uma “chapéu”) o guarda-redes do Paços.

Ao minuto setenta e um, outra vez o ferro a evitar o golo. Canto de Góis à direita, Mabil salta mais alto no primeiro poste e, de cabeça, acerta com estrondo da barra. O Paços não se rendia – e não rendeu até final.

Battaglia, o melhor, nem precisou de concluir o jogo. Saiu ao minuto setenta e dois. E entrou (regressado do “desterro” de Alcochete) Bryan Ruiz. O costa-riquenho não vestia a camisola do Sporting desde maio.

O resultado avolumar-se-ia. À esquerda, minuto setenta e cinco, Coentrão e Bruno César entendem-se às mil maravilhas, tabelam, Coentrão cruza para a grande área e encontra Gelson lá dentro. A marcação era apertada. Mas Gelson rodou (o gesto técnico do extremo é uma delícia) e deixou-a para trás. Depois, rematou cruzado e bateu Felgueiras na baliza do Paços. Longos, looooongos novecentos e oitenta e nove minutos depois – o último golo fora ao Olympiacos –, Gelson Martins voltou a “molhar a sopa”.

Em cima do gongo, minuto noventa, o Paços reduz. E esse seria o resultado final: 1-2. Canto de Mabil à direita, Bruno Moreira desvia de cabeça (sem marcação) no primeiro poste e Patrício faz uma defesa in extremis. Nada poderia fazer aquando da recarga de Baixinho.

Contas feitas, o líder Porto (que na próxima semana, sexta à noite, recebe o Benfica no estádio do Dragão) está a somente dois pontos de distância. Quanto ao Sporting, mesmo com Bas em “claro” na ficha do encontro, teve Jérémy Mathieu e Rodrigo Battaglia em destaque e, claramente, nesta altura apresenta mais “estofo” de líder do que o Porto de Conceição – pelo menos o da Vila das Aves.