A contestação alastrou neste domingo a diferentes cidades do Paquistão após a fracassada dispersão no sábado de um protesto islamita às portas da capital, enquanto o exército parece hesitar em intervir na crise. No final da tarde, cerca de 5.000 manifestantes ocupavam o eixo rodoviário entre Islamabad e a cidade vizinha de Rawalpindi, o dobro dos militantes que os primeiros grupos de militantes que a polícia e paramilitares tentaram desalojar no sábado, mas sem sucesso.

Na megalópole portuária de Karachi, a polícia dispersou hoje diversos grupos de pessoas que protestavam ocupando locais que se recusavam a abandonar (protestos designados por ‘sit-ins’) mas prosseguiam sete outros protestos que mobilizavam cerca de 5.000 manifestantes, segundo as autoridades locais. A mesma situação foi registada em Lahore, onde perto de 3.000 manifestantes se concentram hoje em diferentes zonas da cidade, segundo a polícia municipal. O movimento também abrangeu outras cidades paquistanesas.

No sábado, as forças da ordem foram incapazes de dispersar o ‘sit-in’ que desde 6 de novembro bloqueia a principal autoestrada de acesso a Islamabad, e que tem provocado gigantescos engarrafamentos de tráfego em direção à capital. A operação, com o recurso a gás lacrimogéneo e balas de borracha e que suscitou comentários críticos pela sua impreparação, registou um balanço de pelo menos sete mortos e 230 feridos. Reforçou ainda a determinação dos manifestantes.

No sábado, o Governo apelou ao poderoso exército paquistanês para ajudar as autoridades a “manter a ordem no território de Islamabad”, mas os militares ainda não se exprimiram publicamente, e apenas foi detetado um helicóptero a sobrevoar o protesto.

Os manifestantes responderam ao apelo do grupo religioso pouco conhecido Tehreek-i-Labaik Ya Rasool Allah Pakistan (TLYRAP) e há cerca de três semanas começaram a montar tendas no importante cruzamento de Faizabad. Exigem a demissão do ministro da Justiça, Zahid Hamid, na sequência de uma polémica em torno de uma emenda constitucional, entretanto retirada, e relacionada com a muito controversa lei sobre a blasfémia, questão muito sensível no Paquistão.

Em conferência de imprensa na noite de hoje, o líder dos TLYRAP, Khadim Hussain Rizvi, pediu que os membros do executivo, designadamente o ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif e o atual chefe do Governo, Shahid Khaqan Abbasi, sejam perseguidos por “terrorismo”, e apelou a uma greve geral para segunda-feira.

Para os paquistaneses, a apreensão aumentou após a autoridade reguladora do audiovisual ter suspendido no sábado a difusão de cadeias televisivas, uma medida anulada hoje, e enquanto permaneciam perturbações no acesso às redes sociais.