Todos nos lembramos dos tempos em que Mario e Sonic competiam pela atenção do público, numa luta que todos achávamos que ia durar para sempre. É claro que a nossa definição de “sempre” num mercado e numa área que dava ainda os primeiros passos era estranho de se definir, mas a derrocada da Sega funcionou como uma chamada de atenção a todos. Percebemos que, afinal, as mascotes e as marcas não eram imortais, por muito que os nossos sonhos pueris nos quisessem fazer acreditar no contrário. Do fulgor que todos sentimos com Sonic nos anos 1990, quase tudo se esfumou com a desistência da gigante Sega de desenvolver consolas, e focar-se apenas na criação de videojogos.

Jogar Sonic numa consola da Nintendo era algo impensável e era o equivalente futebolístico ao Eusébio ir jogar para o Sporting. Mas com o foco da Sega em desenvolver apenas software, era inevitável começámos a ter os primeiros passos de corrida do Sonic nas plataformas da eterna rival.

A transição para os jogos tridimensionais foi a sentença de morte qualitativa de Sonic. Shigeru Miyamoto tinha conseguido pegar no seu Mario e reinventá-lo em 3D no magnânimo Mario 64, recriando e redefinindo o que deveriam ser os videojogos enquanto área, mas Sonic demonstrava que o seu plano era unicamente bidimensional. Há uma série de fatores que vêm automaticamente ao de cima: a velocidade, os níveis bidimensionais ricos, coloridos e diversificados, numa adaptação do dinamismo do pinball mesclado com um videojogo de plataformas. Todos estes elementos são diametralmente opostos a tudo o que a Sonic Team, o estúdio responsável pelas criações do famoso ouriço, criou desde os tempos áureos da Mega Drive.

Sonic Forces, recém-lançado para PC, Nintendo Switch, Xbox One X e PlayStation 4 é a conclusão de todo este sentimento de falta de rumo que tem pautado as últimas duas décadas de criações da mascote da Sega. Neste caso, o foco está num enredo atabalhoado e pós-apocalíptico, onde os maiores vilões de Sonic conseguem derrotá-lo e enclausurá-lo, conduzindo ao reino do caos no seu mundo. Cabe-nos a nós criarmos um personagem customizável dentro da estética deste mundo e encarnarmos o papel de heróis na ausência de Sonic.

Apesar de tecnicamente mais avançado, Sonic é um dos jogos mais desinspirados. O sentimento de velocidade, dinamismo e desafio são retirados em prol de um sistema de “carril” em que o nossos personagem vai a correr sempre em frente, ora de perfil, ora visto de costas, mas sobre o qual pouca agência temos. A tentativa desesperada da Sonic Team em conseguir reinventar Sonic para o mercado contemporâneo demonstra o quão alheados da realidade estão.

Ainda há meses Sonic Mania demonstrou que o verdadeiro brilho da série são todas as características que fizeram dela uma propriedade que rendeu milhões e não estas tentativas de fazer dos seus jogos o que eles não são. Tentar misturar um jogo de corrida “em carris” com alguns elementos de ação estão tão longe de Sonic que chega a ser constrangedor ver mais uma tentativa falhada de criação de algo de um personagem que foi outrora tão importante.

Além da bicefalia criativa, dividida entre atribuir elementos “inovadores” e responder às vontades dos fãs, Sonic Forces é um dos jogos mais medíocres que a série já possuiu. E isto é dizer muito de uma série que já teve lançamentos atrozes como Sonic and the Black Knight, de 2009 e Sonic Lost World, de 2013.

Com um enredo insípido, e um level design tão esquecível (dificilmente conseguimos descrever um dos trinta níveis que compõem o jogo), Sonic Forces é uma terrível aposta, especialmente se pensarmos que, meses antes, Sonic Mania se “reencontrou” com a fórmula da personagem. A necessidade da Sonic Team de permitir que criemos o nosso avatar e fazer dele parte do mundo de Sonic soa excessivamente a fan service para ser um verdadeiro e honesto contributo para o jogo. A tentativa de agradar os fãs resultou apenas na criação de mais um jogo medíocre de Sonic.

Sonic merecia mais, pela importância histórica que tem, e nós também que queremos reencontrar-nos e redimir-nos definitivamente com o personagem. Resta-nos Sonic Mania como opção (ou no Netflix a série Sonic Boom, que é mais respeitosa com o personagem do que a própria adaptação a videojogo). Aliás, mais do que a maioria dos últimos jogos criados sob o seu nome.

Ricardo Correia, Rubber Chicken