Anna Konopka tem 84 anos. Vive em New London, New Hampshire, e é aí que recebe os seus pacientes. Tem os registos médicos – todos escritos à mão – guardados em dois armários. Dentro do escritório, a única tecnologia é um telefone fixo e um fax. Recebia 25 doentes por semana e assistia todos os que pudessem pagar 50 dólares em dinheiro. Mas agora já não pode.

A médica viu a licença ser-lhe retirada em setembro quando a Administração de Medicina de New Hampshire pôs em causa o seus métodos, as suas decisões e a capacidade de receitar medicamentos. Especificamente, é acusada de deixar a mãe de uma criança completamente responsável pela sua medicação e falhar no tratamento diário da menina com esteróides.

A menina, de sete anos, sofria de asma crónica e era paciente de Anna Konopka desde os 18 meses. A médica conta que a rapariga apareceu com uma taquicardia e achou que era uma consequência da asma, acabando por lhe receitar um fármaco diferente. Na avaliação final em que retira a licença a Konokpa, a Administração de Medicina considera que a médica não confirmou o diagnóstico da criança com exames adicionais nem recomendou um cardiologista à família.

Eu não vou mandar os meus pacientes a este médico ou a este médico. Eu trato tudo. Tenho experiência suficiente e posso tratar qualquer doença”, disse Anna Konokpa ao Washington Post, acrescentando que só recorria a outros especialistas quando achava que era preciso.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Ao jornal norte-americano, a médica diz que tem a certeza de que a licença lhe foi retirada por não usar – nem querer – a tecnologia para diagnosticar os pacientes ou introduzir as receitas no sistema online do Estado de New Hampshire. Konopka, que possuía a licença médica há 55 anos, garante que todos os doentes tratados com analgésicos recebiam pequenas dosagens e que, sem as suas receitas, estariam em dor constante.

“Eles não têm ideia do que estão a fazer com este sistema eletrónico. Os burocratas que não sabem medicina, estão a passar esta ideia de que este tipo de dor pode passar sem narcóticos”, acusa a médica. “Eu receito uma quantidade pequena de oxicodona e eles vivem lindamente. Podem trabalhar e alguns deles não trabalhavam há vários anos”.

Anna Konopka defende que a medicina moderna encoraja os médicos a usar registos eletrónicos para diagnosticar pacientes e que não quer aprender a fazê-lo, já que se sente competente o suficiente para saber o que se passa com um doente ao examiná-lo ou falar com ele. “Mesmo que eu soubesse usar o sistema, não o faria. Não posso comprometer a saúde de um paciente por um sistema. Recuso-me”, garante.

Anna Konopka nasceu na Polónia em 1933 e tentou inscrever-se na escola de medicina mas foi impedida pelo regime, já que recusava alistar-se no Partido Comunista. Acabou por conseguir entrar na instituição a meio dos anos 50. Emigrou para os Estados Unidos em 1961, trabalhou no St. Catherine’s Hospital, em Brooklyn, e abriu a própria clínica privada em 1989. A médica de 84 anos interpôs um recurso e está a tentar recuperar a licença mas a Administração Médica mostra-se irrevogável na decisão.