A PSA fez um aparente favor aos americanos da General Motors (GM), quando decidiu comprar por 1,3 mil milhões de euros a sua divisão europeia, a Opel/Vauxhall. E foi um favor porque estes perdiam consecutivamente dinheiro há 15 anos e a coisa prometia eternizar-se.

Agora, tendo terminado a avaliação da real situação da Opel/Vauxhall, bem como dos seus bens, das fábricas às plataformas, passando pelas mecânicas, eis que o grupo francês dirigido pelo português Carlos Tavares quer regressar à mesa das negociações. Não para comprar mais nada, mas sim para exigir a devolução de 50% da verba que pagou pela Opel. Tudo porque acha que a GM não foi verdadeira em relação àquilo que declarou no acto da venda.

Segundo a Automotive News, o problema reside nas motorizações da Opel, que a PSA acusa de estarem muito abaixo das que a PSA fabrica e abaixo igualmente do standard do segmento, especialmente no que respeita as emissões de CO2. Sucede que, de acordo com as normas europeias, os motores estão obrigados a não ultrapassar os 95 gramas de CO2 (a média da gama) a partir de 2021 e Carlos Tavares não acredita que seja possível à Opel manter-se abaixo desta fasquia com os motores que possui. Isto ao contrário do que acontece com a PSA. É por isso que acusa a GM de ter mentido, ou no mínimo omitido, o simples facto de os motores actualmente ao serviço da Opel/Vauxhall não conseguirem cumprir as exigências de Bruxelas, o que obriga a fortes investimentos que não estavam previstos no contrato de venda.

Vai haver guerra

A ‘descoberta’ já levou a PSA a anunciar que se vai ver obrigada a montar os seus motores (melhores em matéria de CO2) nos carros alemães e ingleses, o que está por trás da exigência da devolução de um valor entre 711 e 948 milhões de dólares. David Caldwell, o porta-voz da GM, declinou comentar a acusação da PSA, mas não negou a exigência dos franceses e, muito menos, a acusação de falsas declarações.

Após 2021, cada unidade vendida que não cumpra os limites de emissões de CO2, obriga a marca a pagar 95 euros de penalização, o que é uma facada no orçamento de um fabricante que produz anualmente vários milhões de veículos. As multas são tão graves que podem colocar o próprio futuro dos construtores em causa.

Além dos motores estarem abaixo das expectativas em termos de emissões de CO2, a PSA contava com as vendas do Opel Ampera-e (com motor eléctrico e, logo, não poluente) para baixar a média das emissões da marca. A GM defende-se afirmando que perderia mais de 11 mil dólares por cada Ampera-e comercializado, e daí que não só tenha suspendido as vendas na Europa do Opel, baseado no Chevrolet Bolt, como tenha obrigado a um incremento superior a 6 mil dólares no preço pelo qual o Ampera-e é proposto.

Mas a PSA já sabia. Ou não?

Nos dias que antecederam a venda à PSA, a CEO da GM, Mary Barra, afirmou que os motivos da venda da Opel aos franceses se prendiam com as “dificuldades da sua divisão europeia em lidar com as crescentes exigências regulatórias”, o que, segundo ela, tinha tornado o “negócio da Opel/Vauxhall cada vez mais difícil”. Logo, a PSA deveria suspeitar que algo se passava.

Se este aviso à navegação da GM não chegava, a PA Consulting publicou em Novembro de 2016 um estudo em que apontava que a Opel estaria em vias de falhar a meta das emissões por 3,7 gramas, valor que subiria para 6 g se fossem descontadas as projectadas vendas de 20.000 unidades do Ampera-e, uma vez que o modelo eléctrico só vendeu 1.500 antes da suspensão e incremento de preço por parte da GM, ainda segundo a Automotive News.

Situação pior do que o esperado

Defende-se a PSA que, se bem que as dificuldades da Opel já fossem conhecidas, e aparentemente negociadas com a GM, a verdade é que a situação do fabricante europeu se revelou ainda pior do que expectativas mais pessimistas. De acordo com o grupo francês, a Opel estava em rumo para falhar os objectivos por mais de 10 gramas, muito mais do que o gigante americano apresentou na mesa das negociações, o que expõe a Opel a multas que podem ascender a mil milhões de dólares, ou seja, quase tanto quanto a PSA pagou pela divisão europeia da GM.

Ao que parece, o gigantesco desvio pode ficar a dever-se a uma esperança exagerada na vendas de versões com motores diesel, menos poluentes em CO2, o que faria reduzir a média da marca. Além disto, a PSA sabe agora que a GM impediu os responsáveis pela Opel de fornecer à PSA elementos da empresa, além dos avançados pela GM nos termos do negócio, o que vai levar os franceses a avançar, em quase três anos, para a utilização de plataformas e motores franceses nos modelos da Opel, estratégia que inicialmente estava agendada apenas para 2027.

Ai pagas, pagas…

Meses depois de finalizar o negócio, que hipóteses tem a PSA de obrigar a GM a devolver uma parte significativa do que recebeu, caso os franceses consigam provar que os americanos forneceram informações falsas, ou menos correctas, durante as negociações? Para surpresa geral, os franceses têm hipóteses de serem compensados. E bastantes.

O acordo PSA/GM previu o pagamento inicial de 770 milhões de dólares, mais 794 milhões em garantias, que se poderiam depois transformar em acções da PSA. Mas antecipava igualmente que, caso algumas das partes se sentisse defraudada pelas informações prestadas pela outra parte, que reduzissem o valor do bem a adquirir, seriam pagas compensações. E como uma das questões colocada pelos franceses durante as negociações foi “é a Opel capaz de cumprir os limites impostos para as emissões de CO2 em 2021?”, que teve como a resposta da GM um claro “sim”, o caso está aparentemente arrumado. A dúvida é se será antes ou depois de visitar a barra do tribunal.