A China está a mobilizar financiamentos de milhares de milhões de dólares a projetos no Irão. Pequim está a apostar numa entrada forte na economia iraniana, aproveitando as dificuldades dos concorrentes europeus em encontrar bancos que estejam disponíveis para financiar investimentos no país.

A informação é avançada pela agência Reuters que cita altos responsáveis do Governo e da indústria iraniana. A economia do país está a viver anos de liberdade relativa depois se ter livrado de parte das sanções internacionais, na sequência do acordo nuclear assinado ainda durante o tempo de Barack Obama. O Irão está a agora a atrair um fluxo sem precedentes da China para investimentos em infraestruturas, que vão desde os comboios aos hospitais. Esta é aliás uma estratégia seguida pela China em outros países produtores de petróleo, como Angola.

O fundo de investimento do Estado, o CITIC Group, criou uma linha de crédito de 10 mil milhões de dólares (8,4 mil milhões de euros), enquanto o China Development Bank está a equacionar conceder empréstimos de 15 mil milhões de dólares (12,6 mil milhões de euros). “É bom que as empresas europeias se apressem a entrar no Irão, se não a China vai ficar com tudo”, avisou Ferial Mostofi, o presidente da comissão de investimento da Câmara de Comércio do Irão, à margem de um encontro sobre investimento na Itália.

O dinheiro posto à disposição pela China constitui de longe a maior declaração de intenção de investimento de qualquer país no Irão, em contraste com a falta de projetos e dinheiro de promotores ocidentais, desde que Trump foi eleito no final de 2016. Os financiadores deste lado receiam que o Presidente norte-americano cumpra as ameaças de deitar por terra o acordo que permitiu restabelecer as relações económicas e financeiras da economia iraniana com o resto do mundo. Em outubro, Donald Trump anunciou que não ia continuar a certificar o acordo nuclear com o Irão nos seus termos atuais — dado assim espaço ao Congresso para votar a saída dos EUA do compromisso firmado em 2015.

Os responsáveis iranianos, citados pela Reuters, dizem que os negócios da China inserem-se no plano de Pequim que ambiciona construir uma novo corredor — autoestradas, comboios, portos e centrais elétricas — de ligação do pais à Europa e à África, acelerando o caminho para uma expansão do comércio. A iniciativa Belt and Road tem associado um investimento de 124 mil milhões de dólares (104 mil milhões de euros).

De acordo com os jornais iranianos o dinheiro, concedido em yuans e euros pela linha de crédito do CITIC, vai ser usado para projetos de transportes, gestão de água e saneamento e energia.

O Irão, um dos maiores produtores de petróleo, tem uma população de mais de 80 milhões e uma classe média com um padrão de vida ocidentalizado e com poder de compra, o que faz do país uma potência regional com margem para se tornar ainda mais forte. O país tem vindo a disputar com a Arábia Saudita a hegemonia na região, a nível político, militar e religioso, o que tem sido visível em vários conflitos armados — como o caso da Síria e Iémen — e disputas de poder, como o recente caso do Líbano. Por outro lado, o risco do regresso das sanções continua bem no ar, o que trava a entrada em força de investidores internacionais, sobretudo os que vêm do ocidente.