A oposição engoliu sapos, a esquerda ficou incomodada e — dos cinco maiores partidos portugueses — só o PS fez uma verdadeira festa com a eleição de Mário Centeno. PSD e CDS descreveram Centeno quase como a continuidade de Gaspar e Maria Luís. Já Bloco e PCP optaram por defini-lo como simples marioneta do poderio alemão no Eurogrupo. Quanto à solidez da “geringonça”, tudo na mesma.

O PSD tinha, nos dias que antecederam a eleição, optado pelo silêncio. Mas ainda antes da eleição ser oficial, informou os jornalistas de que faria uma declaração no Parlamento. Logo após a congratulação, quis pôr água na fervura na euforia socialista: “Não é a mesma coisa que ser presidente da Comissão Europeia ou secretário-geral da ONU.” Ou seja: o feito de Centeno é inferior ao de Durão Barroso (ex-líder do PSD) ou António Guterres (socialista que o PSD apoiou). Mas logo acrescentou que é “um cargo relevante na construção europeia.”

PSD: Eleição de Centeno começou com Passos

A estratégia do PSD passou depois por colar Mário Centeno à ideia de rigor orçamental associada a PSD e CDS. Duarte Pacheco destacou que “não é possível presidir ao Eurogrupo e depois prevaricar dentro de casa”. Ora, isso dá uma “garantia” ao PSD que “as políticas de rigor orçamental e de consolidação orçamental não vacilarão” e que o país vai “continuar no rumo que foi iniciado em 2011 e que permitiu a Portugal ganhar a credibilidade que hoje permitiu a um compatriota presidir ao Eurogrupo”. Duarte Pacheco quis assim também parte dos louros da eleição de Centeno: foi o caminho começado pelo governo de Passos e Portas que permitiu a eleição de Centeno.

O CDS lembrou também que as divergências com Centeno não são ao nível de rigor (e metas) das contas públicas, mas em matéria de “transparência”. O deputado e porta-voz democrata-cristão, João Almeida, prometeu que o partido vai manter “a nível nacional” uma “oposição ao PS, ao seu Governo e, designadamente, às opções que tem tomado em matéria de finanças públicas”.

Os centristas vão também avaliar com “muita atenção a coerência que existirá ou não entre aquilo que foi dito pelo PS nos últimos anos e aquilo que será agora o desempenho de Mário Centeno no Eurogrupo, relativamente ao euro”.

Questionado sobre se a eleição não esvazia as críticas da oposição, João Almeida respondeu que essa questão “tem de ser feita a PCP e Bloco de Esquerda”. Isto porque são os partidos de esquerda que “apoiam um Governo que defende o contrário do que eles defendem, e apoiam um ministro das Finanças que faz o contrário do que eles querem e que agora até foi escolhido pela Europa que Bloco de Esquerda e PCP abominam, como arauto disso tudo”.

Esquerda desvaloriza porque, no fim, manda a Alemanha

Os partidos à esquerda do PS mostraram-se pouco entusiasmados com a eleição de Centeno. A líder parlamentar interina do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, acha que o ministro socialista nada pode fazer contra o poderia alemão: “A pergunta que os portugueses fazem é se será Mário Centeno, por ser português e pertencer ao PS, pode fazer a diferença nesta instituição que só tem representado ataques à democracia e mais austeridade. Entendemos que prevalece a natureza da instituição”.

O Bloco lembra que nunca um português num lugar de destaque significou vantagens para Portugal. Recordou que enquanto Durão Barroso foi presidente da Comissão Europeia foi imposto ao país um “violentíssimo programa de austeridade” e com Vítor Constâncio como vice-governador do Banco Central Europeu Portugal foi “obrigado a entregar o Banif ao Santander”. Para o Bloco, “o problema não está na presidência do Eurogrupo, está no Eurogrupo, que é um grupo informal de ministros das Finanças que não estava previsto nos tratados, mas que concentra em si um enorme poder (…) e, muitas vezes, pondo em causa decisões democráticas” de outros países.

O Eurogrupo, defende Mariana Mortágua, tem sido “porta-voz de interesses alemães” e Mário Centeno — apesar de ter tido em Portugal “a sua ação muito condicionada pelos acordos celebrados à esquerda, nomeadamente com o BE” — tem cumprido “as metas impostas por Bruxelas, indo muitas vezes além”. Ainda assim, Mortágua diz que não está em causa a posição conjunta: “Nada mudou”; “[o acordo] é para valer”.

Também o PCP, através do eurodeputado João Ferreira, garantiu que “combaterá” eventuais tentativas do Governo ou do PS de utilizarem a eleição de Centeno como desculpa para não responderem “ao problema do insuficiente investimento público, da melhoria dos serviços públicos, do combate à injustiça fiscal e do aumento dos salários”.

Quanto ao acordo de esquerda, ele não depende desta eleição, mas da medida em que “estão ou não a ser recuperados os direitos e em que medida se está ou não a responder a problemas candentes do país”. Para o PCP “não há propriamente nada de novo” nesta eleição embora ela “encerre em si uma contradição entre o caminho aberto pela atual fase da vida política nacional, com os seus inegáveis reflexos positivos, e os compromissos associados ao cargo”.

Tal como o Bloco de Esquerda, os comunistas não acreditam que Centeno mude o rumo da política europeia. “Só uma ilusão desligada da realidade institucional da União Europeia (..) é que pode ver na designação do ministro das Finanças português uma qualquer alteração das políticas e opções da União Europeia”, advertiu João Ferreira.

PS e Governo radiantes com eleição

No PS, foi o deputado João Galamba que falou, a partir do Parlamento, para dizer que a eleição foi de “uma boa notícia para Portugal e uma excelente notícia para a Europa” porque Mário Centeno “é um ministro das Finanças que não cortou salários, pensões e que conseguiu mostrar em Portugal e na Europa que era possível uma alternativa política cumprindo as metas orçamentais”.

Em maio, em entrevista ao Observador, o mesmo João Galamba tinha manifestado reservas sobre uma candidatura de Centeno ao Eurogrupo, temendo as implicações que isso teria internamente.

Centeno no Eurogrupo? “Prefiro que esteja dedicado ao país”

Agora, Galamba já considera que Centeno é a “figura correta” para liderar o Eurogrupo e nota que este é “mais um reconhecimento que a alternativa política era válida”. Centeno, sublinhou o deputado, “teve um papel primordial na execução dos orçamentos que corporizam essa alternativa”. “É bom para Portugal ver este percurso reconhecido e premiado mas também é bom para a Europa ter alguém no Eurogrupo que vai para a Europa com a visão e o currículo que conseguiu em Portugal”, acrescentou o deputado.

Galamba desvalorizou eventuais efeitos na “geringonça”, já que “não é o Eurogrupo que vem para Portugal, é Portugal que vai para o Eurogrupo com as políticas seguidas por Mário Centeno nos últimos dois anos”.

Da parte do Governo, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva foi dos primeiros a comentar eleição, apontando “uma grande vitória para Portugal, mas sobretudo para o Eurogrupo que precisa de formar, tão rapidamente quanto possível, um consenso”.

Eurodeputados destacam vantagem de ter Centeno no Eurogrupo

Paulo Rangel foi, ao longo dos últimos meses, dos políticos que mais duvidou que a eleição do português Mário Centeno fosse possível. Agora, o eurodeputado e vice-presidente do PPE considera a eleição “bastante positiva para Portugal”, destacando que ganha especial relevância numa altura em que se começa a “redesenhar a zona euro“.

Para Paulo Rangel — embora o país possa perder pelo papel de “arbitragem” a que Centeno está obrigado — Portugal ganha “pelo acesso que vai ter em primeira linha à informação, tendo mesmo informação privilegiada sobre a nova reforma da zona euro.” O eurodeputado do PSD acrescenta ainda que a eleição de Centeno é boa para o país do ponto de vista “reputacional“, até ao nível dos “ratings“.

O eurodeputado não acredita que a eleição prejudique o trabalho de Centeno como ministro das Finanças em Portugal e até pode ser positivo, já que é a garantia que “Portugal manterá um caminho de sustentabilidade das finanças públicas“. “Tendo o presidente do Eurogrupo, o país não deverá ter derrapagens orçamentais”, acrescenta o social-democrata.

Já o eurodeputado do CDS, Nuno Melo, diz que Mário Centeno terá de ter cuidado para não ter uma posição “esquizofrénica” com a liderança do Eurogrupo: “Não pode exigir ao outros o que não pede para si”. Já não tem sentido, para o centrista, que o Governo agora mantenha em relação à Europa a atitude do “inimigo externo”, e recorda que “António Costa perdeu as eleições a dizer que Portugal “tinha de falar grosso” em Bruxelas. “Agora tem lá uma voz que é a sua, do seu ministro das Finanças”.

Apesar de fazer estes reparos, Nuno Melo congratula-se com a vitória do Governo português: “É sempre uma vantagem ter portugueses em cargos institucionais europeus, mais ainda em áreas de decisão fundamentais. A eleição saúda-se, não invalidando o resto”.

Do lado do PS, a eurodeputada Maria João Rodrigues acredita que o país também ganha com a eleição de Mário Centeno como presidente do Eurogrupo, “numa altura em que se debate o esperado pacote de reforma da União Monetária. É bom que este debate seja conduzido por alguém mais atento às necessidades de um país como o nosso”.

Ao Observador, a socialista sublinha que está é “a reforma com maior vulto desde a criação do euro” e vai acontecer com Centeno na liderança do grupo informal de ministros das finanças dos países onde circula a moeda única. A eleição do ministro português é vista pela eurodeputada como uma oportunidade de ter “um presidente capaz de ouvir as várias partes e depor a zona euro a funcionar como projeto de convergência de uma política económica, crescimento, investimento e criação de emprego a uma escala mais vasta”.

Maria João Rodrigues acredita que Centeno vai contribuir para “refazer a unidade de muitos anos de crise em que a zona euro funcionou num processo de divergência económica, social e política”. E que em Portugal o ministro vai continuar a “manter o país na senda da responsabilidade orçamental. Vai ter de manter essa credibilidade, mas conciliada com a promoção do crescimento”.

Marcelo diz que “o que interessa é que foi”

Já o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, saudou a eleição de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo, considerando-a “um sinal importante e positivo”, mas reiterando que traz mais responsabilidades para Portugal. “Não foi à primeira, foi à segunda, o que interessa é que foi”, declarou o chefe de Estado.

Marcelo Rebelo de Sousa já tinha comentado a eleição de Mário Centeno, antes mesmo da contagem dos votos, face às declarações do atual titular do cargo de presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que deu como certo que o seu substituto seria o ministro português das Finanças. Em declarações aos jornalistas, a seguir a um almoço num centro social, o Presidente da República afirmou que Portugal vai passar a ter “uma voz mais forte” nas instituições europeias, mas também “um preço de exigência acrescida” em termos financeiros.

Confirmada a eleição de Mário Centeno, o chefe de Estado voltou a falar à comunicação social, declarando: “É um sinal importante e positivo para o país, para ao Governo, para o ministro, e eu penso que também para a Europa. É um momento de alegria para todos os portugueses”.

Agora, passa-se à fase seguinte, que é garantir que não nos esquecemos de contribuir para a Europa, mas também de termos cá em Portugal uma política financeira firme, consequente, sem desvios nem aventuras, porque o ministro das Finanças chega a presidente do Eurogrupo por ser ministro das Finanças de Portugal”, acrescentou.

Marcelo Rebelo de Sousa disse ainda que “não há bela sem se não”, defendendo que, neste caso, “belo é o aumento de influência de Portugal na Europa, é belo a Europa ver Portugal com outra consideração muito diferente daquela com que via há dois anos quando tinha dúvidas sobre este Governo e a sua política”. Já o senão “é uma responsabilidade. Agora que temos a presidência do Eurogrupo, somos ainda mais responsáveis do que éramos anteriormente. Portanto, não pode haver nem descuidos nem aventuras em matéria financeira em Portugal”.