Depois do vestido branco e dourado ou azul e preto, que dividiu os internautas em fevereiro de 2015, o novo dilema em destaque nas redes sociais é se o leitor consegue ouvir algum som num gif silencioso, que mostra postes de eletricidade a “saltar à corda” — sim, é insólito.

O gif foi originalmente criado em 2008 pela conta de Twitter @IamHappyToast e, desde então, tem circulado na internet. Já antes foi motivo de debate no Reddit, em 2013, e no Imgur, em 2011. Também o Buzzfeed selecionou o gif, em 2013, como uma das 26 imagens capazes de “quebrar o nosso cérebro”.

Quase dez anos depois de ter sido criado, o insólito e misterioso gif é notícia em diferentes meios internacionais — da espanhola Verne à inglesa BBC –, depois de a professora universitária Lise DeBruine, do Instituto de Neurociências e Psicologia da Universidade de Glasgow, o ter partilhado com a seguinte pergunta na legenda: “Alguém sabe porque conseguimos ouvir este gif?”.

À pergunta colocada pela professora responderam, em formato sondagem, mais de 250 mil pessoas — a maior parte admitiu ter, de facto, ouvido alguma coisa. Uma pesquisa rápida pelos comentários entretanto publicados permite perceber que existem diferentes reações, uma das mais interessantes levanta a seguinte questão: “Estou a ter dificuldade em perceber se teria ouvido alguma coisa se não tivesse lido a sugestão no tweet [de que iria ouvir algo]”.

No Twitter, Lise DeBruine conta que várias pessoas fizeram o exercício com os filhos: “Alguns ouvem, outros sentem-no e outros não ouvem nem sentem nada”. A professora já admitiu, após várias trocas de respostas, que a sua explicação preferida é que o gif desencadeia o reflexo acústico, “que por norma é desencadeado pela fala ou por ruídos altos”.

O reflexo acústico é “um estímulo que pode vir de fora ou que pode ser provocado internamente pela pessoa, que vai criar um reflexo na área acústica do cérebro o que, por sua vez, resulta na estimulação”, explica ao Observador Pedro Ferreira Alves, neuropsicólogo no Instituto Terapêutico Analítico Psicologia Aveiro (ITAPA).

A explicação dada está longe de ser consensual. Outro utilizador da rede social Twitter diz que, na sua opinião, é o facto de a imagem tremer que é responsável por todo o efeito — é precisamente esta a explicação que parece fazer mais sentido para o criador do gif. “O facto de ter movimento provoca sempre uma reação acústica”, acrescenta Pedro Ferreira Alves.

À BBC, DeBruine disse não ter uma resposta clara: “Pensei que alguns cientistas da área, que sigo no Twitter, me conseguissem explicar isto de imediato, mas parece que há muitas explicações plausíveis e que não há um consenso claro”.

Também a BBC aborda a sugestão de um utilizador de Twitter, Chris Fassnidge, cujo doutoramento em psicologia na City University, em Londres, é precisamente sobre este campo de atuação. É ele quem fala numa teoria a que o seu laboratório chama de “ouvido visual”. “Suspeito que este fenómeno esteja intimamente relacionado com o que chamamos de Resposta Auditiva Evocada Visivelmente [Visually-Evoked Auditory Response, em inglês].”

O neuropsicólogo Pedro Ferreira Alves explica que a Reposta Auditiva Evocada Visualmente consiste no facto de as “imagens visuais evocarem sensações, memórias e experiências”, pelo não é preciso “ter um som explícito para que o possamos reproduzir internamente”.

Para o especialista, ambos os conceitos fazem sentido, mas Pedro Ferreira Alves prefere falar na complexidade da consciência humana. “Não podemos olhar para o fenómeno como uma parte isolada do cérebro”, garante, remetendo o assunto para a “capacidade de abstração do ser humano”, de maneira a dar sentido ao que vemos. Em causa está a capacidade “de criar ilusões que tem que ver com a educação formal que recebemos, que não está acessível a todos”.

É precisamente a capacidade de abstração que permite ao ser humano ir além da sua “experiência imediata”, ir além dos que os seus olhos vêm. “Quando uma imagem produz movimentos familiares, o cérebro cria a sua própria banda sonora”.