Os protestos que se alastraram a várias localidades da Palestina depois de o Hamas e de outros movimentos islâmicos terem apelado a uma nova revolta popular (“intifada”) contra Israel já fizeram, pelo menos, um morto, confirmou o Ministério da Saúde palestiniano. Mahmoud Al-Masri, de 30 anos, morreu depois de ter sido baleado por militares israelitas na região de Khan Younis, em Gaza, onde outras quatro pessoas terão ficado feridas. Al-Masri chegou a ser transportado para o hospital, mas acabou por morrer devido aos ferimentos graves.

O Ministério da Saúde chegou a confirmar uma segunda vítima mortal, também devido a ferimentos de bala, informação que foi posteriormente retirada. O porta-voz do Ministério, Ashraf al Qedra, esclareceu que o segundo homem chegou de facto a sofrer uma paragem cardíaca, mas que os médicos conseguiram reanimá-lo.

De acordo com al Qedra, a contagem dos feridos devido aos confrontos na Palestina ultrapassa agora os 100. Contudo, o Days of Palestine, um site de notícias sobre a região, fala em 300. Na localidade de Kadum, perto de Qalqilya, dez palestinianos ficaram feridos depois de o exército israelita ter disparado balas de borracha contra os manifestantes, conta o Hareetz, citando dados do Crescente Vermelho palestiniano, que assistiu ainda dezenas de pessoas por inalação de gás lacrimogéneo. Na Faixa de Gaza, houve, pelo menos, cinco feridos na sequência das várias manifestações violentas.

Em Ramallah, Hébron, Belém e outras localidades, cerca de três mil manifestantes atiraram pedras e cokctails molotov aos militares que se encontravam nos postos de controlo israelitas, que responderam com gás lacrimogéneo, balas de borracha e fogo real.

O exército de Israel confirmou que se registaram “protestos violentos em cerca de 30 localidades na Judeia e Samaria e na Faixa de Gaza” e que na Cisjordânia os manifestantes queimaram pneus e lançaram bombas incendiárias e pedras contra as forças de segurança. Além disso, os militares informaram que houve, pelo menos, cinco feridos — um número muito inferior ao avançado pelos organismos palestinianos — e seis detidos. Na Faixa de Gaza, contudo o exército deu conta de confrontos em seis pontos e 60 feridos, todos devido a munição real, dois dos quais de “gravidade extrema”.

Em Jerusalém, porém, verificaram-se poucos incidentes. Depois da oração principal na Esplanada das Mesquitas, as ruas da Cidade Velha ficaram meio desertas, assim como os bairros adjacentes. Registou-se apenas um confronto breve entre dezenas de palestinianos e polícia, que resultou apenas em montras partidas. Os polícias repeliram os manifestantes com bastões e cassetetes, fazendo com que estes fugissem para as ruas adjacentes. Algumas pessoas foram detidas junto ao Portão de Damasco, em Jerusalém.

Dois rockets lançados em direção a Israel

Dois rockets foram disparados durante a noite desta sexta-feira em direção a Israel a partir da Faixa de Gaza, refere o Hareetz, que adianta que alguns relatos falam num anterior ataque a bases do Hamas na região. O primeiro míssil foi intercetado pelo sistema de defesa israelita que, pouco tempo depois, identificou o segundo projétil. Não se sabe onde é que os rockets terão caído.

Este é o segundo relato de lançamentos de rockets em direção a Israel nos últimos dias. Na quinta-feira, foram também disparados dois projéteis.

Estados Unidos dizem-se empenhados na paz e criticam ONU

Durante a reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Nova Iorque, convocada para esta sexta-feira devido ao anúncio de Trump, a embaixadora norte-americana Nikki Haley garantiu que o país continua empenhado no processo de paz no Médio Oriente e acusou a organização de “hostilidade contra Israel”. Considerando que esta existe “desde há muitos anos”, Haley convidou a ONU a aceitar “o óbvio” e reconhecer Jerusalém como capital de Israel. “As Nações Unidas danificaram mais as possibilidades de uma paz no Médio Oriente do que as fizeram avançar. Não participaremos nisso”, referiu.

Sublinhando que os Estados Unidos da América “continuam empenhados no processo de paz” no Médio Oriente e que o Governo norte-americano quer “um acordo negociado”, Haley disse compreender “a preocupação dos membros em convocarem” a reunião de emergência. “Mudar é difícil, mas nunca devemos duvidar do que a verdade pode fazer”, afirmou. Contudo, garantiu que “não é coincidência que os históricos acordos de paz entre o Egito e Israel, entre a Jordânia e Israel, tenham sido assinados no relvado da Casa Branca”. “Se e quando houver um acordo de paz, é bem provável que também seja assinado no relvado da Casa Branca. Porquê? Porque os Estados Unidos tem credibilidade nos dois lados.”

A embaixadora norte-americana explicou ainda que Trump “não tomou posição sobre os limites das fronteiras” de Jerusalém, Gaza ou Cisjordânia. O “status quo quanto aos locais sagrados mantém-se”, sublinhou. “Para aqueles que que se preocupam de boa fé com o futuro da paz entre israelitas e palestinianos deixem de novo garantir-vos que o Presidente e esta administração mantêm-se empenhados no processo de paz. Os Estados Unidos não se limitam a assistir enquanto Israel e injustamente atacada nas Nações Unidas e os Estados Unidos não aceitarão sermões de países que carecem de qualquer credibilidade no que diz respeito ao tratamento das duas partes.”

“As nossas ações visam fazer avançar a causa da paz”, garantiu Nikki Haley. “Queremos um acordo negociado” (EPA/JASON SZENES)

A Palestina, por seu turno, considerou que a decisão dos Estados Unidos de “recompensar a impunidade de Israel mina e desqualifica o seu papel de liderança na procura de paz na região”. “De facto, a retumbante rejeição desta decisão provocatória pelos lideres mundiais indica a injeção de todas essas políticas ilegais e toda a imensa preocupação que envolve as implicações perigosas desta decisão, incluindo as expectativas de paz e segurança na região, e não só”, afirmou o embaixador palestiniano na ONU, Riyad Mansour.

Do outro lado, Danny Danon defendeu que, contrariamente ao que as Nações Unidas sempre têm feito, Donald Trump apoiou o direito que Israel tem a Jerusalém, retificando “erros históricos”. “Este concelho teve a audácia de dizer que a presença de Israel no Muro das Lamentações em Jerusalém não tem, e passo a citar,’ qualquer validade legal’. Depois, a UNESCO aprovou uma resolução declarando que Israel não tem quaisquer direitos históricos legais em qualquer ponto de Jerusalém”, afirmou o embaixador israelita. “É por isso que a decisão do Presidente Trump foi tão importante. Os estados unidos tiveram a coragem e o bom-senso de retificar estes erros históricos.”

A reunião de urgência do Conselho de Segurança, composto por 15 membros, foi solicitada pela Suécia, França, Itália, Reino Unido, Bolívia, Uruguai, Egito e Senegal. Vários destes Estados consideram que a decisão norte-americana viola as resoluções da ONU.

ONU, “particularmente preocupada” com violência, desbloqueia 2,2 milhões de dólares para ajudar Gaza

Nickolay Mladenov, coordenador especial das Nações Unidas para o processo de paz no Médio Oriente — que falou por videoconferência a partir de Jerusalém durante a abertura da reunião das Nações Unidas desta sexta-feira –, admitiu que a organização está “particularmente preocupada com os riscos de uma escalada de violência” na Palestina.

Durante a intervenção, Mladenov recordou que os movimentos palestinianos apelaram a três “dias de raiva” devido à decisão dos Estados Unidos, salientando que esta também aumenta o risco de “radicalização perigosa”. O responsável, que pediu aos dirigentes mundiais que “demonstrem sabedoria” e que ajudem manter a calma na região, reiterou que qualquer estatuto de Jerusalém deve surgir do diálogo direto entre israelitas e palestinianos e advertiu para os riscos que possam surgir de “ações unilaterais”.

Esta sexta-feira, foi também anunciado que um alto dignitário das Nações Unidas, que se encontra alocado ao território palestiniano, libertou cerca de 2,2 milhões de dólares (cerca de 1,9 milhões de euros) para serem distribuídos por várias organizações e programas na Faixa de Gaza. Segundo o site da ONU, esta ajuda humanitária foi autorizada por Robert Piper, o Coordenador para Ajuda Humanitária e Desenvolvimento de Atividades das Nações Unidas, e será canalizada, principalmente, para a área da saúde neonatal.

Protestos estendem-se a outros países

No dia em que o Conselho da Segurança da ONU se reúne de emergência para analisar o tema, os protestos não se ficaram apenas pela Palestina. Na quinta-feira, foram organizadas manifestações em frente aos consolados norte-americanos na Turquia — onde o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, se mostrou especialmente crítico de Donald Trump, acusando-o de de lançar o Médio Oriente para um “círculo de fogo” — e na Jordânia. Esta sexta-feira, foi a vez de a Indonésia e a Malásia se juntarem aos protestos, o que levou as delegações diplomáticas a emitir alertas de segurança em ambos os países.

O Presidente da Indonésia, Joko Widodo, e o primeiro-ministro da Malásia, Najib Razak, condenaram na quinta-feira a decisão de Trump e pediram que reconsiderasse a sua postura. Cerca de 88% dos mais de 260 milhões de indonésios são muçulmanos, enquanto 61% dos quase 30 milhões de malaios professam o Islão.

Na Indonésia, alguns manifestantes queimaram a bandeira norte-americana em frente à embaixada dos Estados Unidos, em Jacarta, onde se reuniram com cartazes e emblemas da Palestina. “Nahdlatul Ulama (NU) condena os Estados Unidos e Israel por invadir a cidade de Jerusalém”, podia ler-se num dos cartazes. A NU é a maior organização independente muçulmana da Indonésia, o país com maior número de seguidores do Islão. Em declarações à agência de notícias Efe, o porta-voz da polícia de Jacarta, Argo Yuwono, estimou que a manifestação juntou cerca de 500 pessoas.

Em Surabaia, a segunda maior cidade indonésia, algumas centenas de pessoas concentraram-se em frente ao consulado norte-americano.

Em Kuala Lumpur, capital da Malásia, um protesto reuniu, pelo menos, mil pessoas, que gritaram palavras de ordem contra o Presidente norte-americano e queimaram figuras e fotografias de Trump junto à vedação da embaixada dos Estados Unidos da América, noticiou o jornal Malasiankini. O protesto contou com a participação de líderes e membros do partido governamental, o UMNO, grupos que representam a maioria de etnia malaia e a religião muçulmana e ainda organizações não governamentais islâmicas.

As embaixadas norte-americanas na Indonésia e na Malásia pediram aos cidadãos norte-americanos para tomarem precauções e “evitarem zonas de manifestações”.

Durante a tarde, registaram-se também manifestações no Reino Unido e na Suécia.

Turquia aumenta segurança nas embaixadas israelita e norte-americana

A polícia turca aumentou as medidas de segurança nas representações diplomáticas de Israel e dos Estados Unidos, perante o provável reforço dos protestos. As embaixadas em Ancara e Istambul estão protegidas por barreiras metálicas, agentes e veículos anti-motins, que estão situados próximo dos edifícios.

O colégio alemão de Ancara, perto da embaixada dos Estados Unidos, fechou antes da hora normal e mandou os alunos para casa antes que comecem os protestos, o que poderá acontecer quando terminar a oração de sexta-feira, cerca do meio-dia.

Representação Palestiniana nas Nações Unidas denuncia decisão de Trump

Representantes Palestinianos na ONU afirmam que a decisão de Trump em reconhecer Jerusalém como a capital de Israel “descredibiliza a vontade de estabelecer a paz na região”.

O embaixador palestiniano Riyad Mansour disse na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU que “uma parte não pode monopolizar todo o processo de paz”, especialmente quando esta está tão conotada com “o poder ocupador” em Israel.

O mesmo Mansour apelou ainda que o Conselho de Segurança denuncie aquilo a que o próprio chama de decisão “irresponsável” dos EUA e que reafirme a posição de manter Jerusalém como território neutro até que seja alcançada uma solução mais abrangente para o conflito israelo-palestiniano — o Conselho deve “afirmar a sua rejeição à violação deste estatuto”.

Em conclusão, o embaixador afirmou ainda que devem ser evitados outros atos “exacerbados” que agravem sensibilidades religiosas. Caso tudo isto não aconteça, o perigo de uma “interminável guerra religiosa” pode ficar ainda mais elevado. Este cenário, conclui, é terreno fértil para “extremistas” que com isto veem o seu “radicalismo, violência e luta” não só nesta zona mas no mundo inteiro.